A chama do genial Diego Armando Maradona extinguiu-se ao fim de 60 anos de uma vida que oscilou entre a glória nos relvados, pela Argentina e pelo Nápoles, e a decadência fora deles, associada ao consumo de drogas.

Pouco mais de um mês depois de completar seis décadas, a 30 de outubro, Maradona morreu esta quarta-feira na sua residência, na Argentina, anunciou o seu amigo Matías Morla.

De acordo com a imprensa argentina, Maradona, que treinava os argentinos do Gimnasia de la Plata, sofreu uma paragem cardíaca na sua vivenda na província de Buenos Aires.

As demonstrações de talento daquele a quem “os argentinos tudo perdoam” apareceram muito cedo. Apenas com oito anos, juntou-se aos “Las Cebollitas”, equipa que, com o futuro craque no comando, acabaria por ganhar 136 jogos consecutivos e um campeonato nacional.

Um ano mais tarde, um colega de Diego foi fazer um teste ao Argentinos Juniores, acabando por surpreender o treinador Francis Cornejo, que lhe teceu muitos elogios. Em resposta, o rapaz disse que conhecia um colega muito melhor do que ele. Intrigado, Cornejo pediu ao rapaz que lhe apresentasse Diego Maradona, para que ele e outros olheiros pudessem comprovar a sua qualidade.

O que viram deixou-os pasmados. A qualidade demonstrada por Maradona era tanta que os treinadores duvidaram de que estivesse a dizer a verdade sobre a idade. O grupo de treinadores acompanhou o futuro astro a casa, pedindo à mãe do jogador que lhes apresentasse a documentação que provasse que o rapaz tinha, de facto, nove anos de idade.

Aos quinze anos, Maradona já atraía multidões. Em 1976, a dez dias do seu 16.º aniversário, faz a sua estreia na primeira divisão argentina, apenas quatro meses antes de fazer a estreia pela seleção argentina, tornando-se o mais jovem de sempre a fazê-lo.

Embora Diego tenha ficado de fora do Campeonato do Mundo de 1978, por ser considerado demasiado jovem para as ambições da equipa, levou a equipa de sub-20 a conquistar o Campeonato do Mundo do escalão. Nesse mesmo ano, acabaria por se tornar pela primeira vez na sua carreira o melhor marcador do campeonato argentino.

Sucederam-se as conquistas e começou uma carreira repleta de títulos coletivos e individuais.

A grande explosão da carreira viria em 1981, quando se transferiu para o histórico argentino Boca Juniors e liderou a equipa na conquista de um campeonato nacional, que escapava ao Boca desde 1976.

Os olheiros dos grandes clubes europeus viraram-se para a Argentina e tornou-se apenas uma questão de tempo. Foi o Barcelona que, em 1982, ofereceu a “colossal” quantia de sete milhões de dólares para contratar o astro argentino.

Chegou ao clube Blaugrana com a aura de salvador. Os catalães viviam um período negro da sua história e não conquistavam títulos desde o final da década de 1950.  Os rivais madrilenos do Real Madrid distanciavam-se cada vez mais e o Atlético de Madrid ameaçava ultrapassar o número de títulos do gigante catalão.

No entanto, a primeiro época não lhe correu bem. Em dezembro sofre de hepatite e fica fora dos relvados durante três meses. O campeonato espanhol nesse ano acabaria por ser conquistado pelo Athletic Bilbao.

No ano seguinte, começa a época com muito azar e sofre uma lesão grave, ao partir o tornozelo depois de uma entrada muito feia de Andoni Goikoetxea, do Athletic Bilbao. Maradona acaba por ficar de fora nos 106 dias seguintes. Quando regressa, regressa imparável, mas a equipa catalã fica a um ponto do Bilbao e volta a perder o título.

O Barcelona teria, porém, uma oportunidade de se vingar da equipa do Athletic Bilbao, ao defrontar os bascos no final da Taça do Rei. Os bascos acabariam por vencer o jogo por uma bola a zero, mas seria Diego Armando Maradona o grande protagonista, ao criar a confusão generalizada numa discussão entre jogadores.

O episódio, muito polémico na altura, acabou por afetar o relacionamento com a direção do Barcelona, que na altura já estava fragilizado.

Quando recebe ordem de suspensão de três meses devido ao incidente com o Bilbao, acusa os dirigentes do Barcelona de não o defenderem o suficiente. Posteriormente, acusaria o então presidente Josep Lluís Núñez de ter inveja da sua popularidade e de ser responsável pela transferência para o Nápoles.

Antes da glória napolitana, já Maradona conseguira a maior proeza da carreira, ao carregar a seleção argentina até ao segundo título mundial (depois do Argentina1978), selado com um triunfo por 3-2 sobre a RFA na final do México1986.

A imagem de Maradona em ombros, com a taça de campeão do mundo na mão, num relvado do Estádio Azteca invadido pelos adeptos, é das mais reconhecidas da história do futebol, num Mundial em que o ‘10’ viveu os melhores dias como futebolista.

Mais até do que o troféu conquistado, fica na memória de todos os amantes do futebol aquele que é considerado o melhor golo da história dos Mundiais, com Maradona a partir do seu meio-campo, com a bola ‘agarrada’ ao pé esquerdo, e a fintar todos os ingleses que lhe apareceram pela frente, até bater Peter Shilton.

Foi nos quartos-de-final, no triunfo por 2-1 sobre a Inglaterra, e aconteceu minutos depois do célebre episódio da ‘mão de Deus', lance assim definido pelo próprio ‘Pelusa' - um dos nomes por que Maradona era conhecido -  para justificar o golo marcado com a mão.

Nesse Mundial, ainda brilharia nas meias-finais, com dois golos ao guarda-redes belga Jean-Marie Pfaff. Deram-lhe espaço perto do final, após uma marcação impiedosa, e fez um passe memorável para o 3-2 final de Burruchaga.

Em 1982, chega uma proposta do Nápoles, prontamente aceite pela direção catalã e por Diego Maradona. Acabaria por jogar sete épocas no clube italiano, tornando-se um dos maiores craques da história do clube.

Com Diego Armando Maradona no comando, a equipa italiana viria a ganhar a liga italiana em 1987 e 1990. O final da sua carreira em Nápoles ficaria marcada pela controvérsia em que se encontrou ao ser detido por posse de cocaína, ficando suspenso por quinze meses de jogar futebol.

Jogou ainda pelo Sevilha, em Espanha, e pelo Newell’s Old Boys, na Argentina. Acabaria por voltar ao Boca Juniors em 1995, onde jogou a sua última partida, em 1997.

Maradona acabou por se tornar um herói das classes mais desfavorecidas da Argentina e do sul da Itália. Jogou 490 jogos oficiais de clubes durante sua carreira profissional de 21 anos, marcando 259 golos. Pela Argentina, jogou 91 jogos e marcou 34 golos.

Entre 2010 e 2012, e 2016 e 2018, o antigo internacional argentino treinou nos Emirados Árabes Unidos, primeiro o Al Wasl e, depois, o Al-Fujairah, antes de rumar ao México, para orientar o Dorados, em 2018/19, mas nunca alcançou nos bancos o brilhantismo de duas décadas nos relvados.

Em 2019, voltou à Argentina, para assumir o comando do Gimnasia de la Plata, o último clube ao qual esteve ligado durante uma vida de glórias e excessos.