O português Pedro Pichardo não deixou dúvidas sobre quem seria campeão olímpico no triplo salto nos Jogos de Tóquio 2020 desde o arranque, estando sempre vários furos acima de toda a competição.

O atleta natural de Cuba, de 28 anos, efetuou o seu melhor salto, de 17,98 metros, à terceira tentativa, e bateu o seu o recorde nacional por três centímetros, impondo-se ao chinês Yaming Zhu, com 17,57, e ao burquinense Fabrice Zango, com 17,47, que conquistaram as medalhas de prata e de bronze, respetivamente.

No final, Pedro Pablo Pichardo disse que o ouro olímpico que conquistou no triplo salto em Tóquio é a melhor forma de prestar tributo a Portugal, pelo modo como o acolheu quando teve de sair de Cuba.

Este ouro tem um significado muito grande, pois é a única forma que tenho de agradecer ao país que me apoiou desde o primeiro dia. Agradecer com medalhas e bons resultados”, desabafou, na conferência de imprensa no estádio olímpico.

Pichardo ganhou primeira medalha de ouro da missão lusa em Tóquio 2020, depois da de prata de Patrícia Mamona na prova feminina do triplo salto e das de bronze do judoca Jorge Fonseca (-100 kg) e do canoísta Fernando Pimenta (K1 1.000).

À Lusa, o seu pai disse que o próximo objetivo é ganhar todos os mundiais até repetir o ouro olímpico em Paris2024, declaração que motivou uma resposta mais humorada do descendente.

“O meu pai é um bocado maluco a colocar pressão em cima de mim. Não vai estar feliz com a marca. Ele estava à espera que eu fizesse pelo menos os 18 metros. Tenho a certeza que quanto a ser campeão olímpico está contente, mas com a marca não estará feliz. É um bocado maluco, exige muito”, gracejou.

Durante todo o concurso, Pichardo revelou grande tranquilidade e foi com serenidade que também festejou o seu primeiro título de campeão olímpico, o quinto ouro na história de Portugal em mais de 100 anos.

Tem a ver com a minha personalidade, não sou muito emotivo. Sou mais reservado, sério. Para me verem emocionado é difícil”, assumiu, com um sorriso sereno.

Pichardo não pôde competir no Rio2016, por Cuba, devido a uma lesão no tornozelo e agora, na sua estreia, ofereceu o ouro a Portugal.

“A vida tem coisas planeadas, e este título já estava planeado há muito tempo que iria para Portugal, não para Cuba. São coisas da vida” concluiu.

 

O facto de o estádio não poder ter adeptos “até foi bom”. “Vou para o quarto e festejo sozinho lá. Tenho muita vergonha, sou mais reservado”, declarou, quando questionado na zona mista sobre a razão de não ter dado a típica volta olímpica.

Pichardo lembrou a avó, que já morreu, em quem pensa sempre que salta, e explicou que os momentos de prece que foi tendo entre saltos, da sua religião ioruba, são “rituais” antes e durante da competição, para pedir “força e que saia saudável”.

Em Cuba, em que há quem o veja e ao pai como ‘traidores’, deixou “a família e a língua”, porque agora faz “parte dos cinco portugueses campeões olímpicos”, ao lado de Carlos Lopes (1984), Rosa Mota (1988), Fernanda Ribeiro (1996) e Nelson Évora (2008).

Estou há quatro anos a trabalhar para dar medalhas a Portugal. Ouvir que um português não é feliz porque um estrangeiro chega ao país e se sente feliz por representá-lo... é complicado. Moro em Portugal, a minha filha nasceu lá, vou continuar e não vou voltar. Mesmo assim, há portugueses que não se sentem felizes que um atleta como eu more lá. É um bocado ingrato”, admitiu.

De resto, está pronto para “cantar o hino hoje”, na cerimónia de pódio, algo que sabe fazer já “há algum tempo”. “O único problema é o sotaque”, brincou.

Festejou, no estádio, com “todos os portugueses que lá estavam, eram fáceis de identificar pelo polo vermelho”, e tem “sentido o calor, na Aldeia [Olímpica] e por mensagens”, mesmo que alguns “continuem a falar por ser luso-cubano, daquelas confusões”.

“Ainda hoje não posso voltar a Cuba. Há pessoas que não entendem isso”, desabafou.

Sobre a ‘eterna’ polémica com Nelson Évora, campeão olímpico na disciplina em Pequim2008 e que se despediu em Tóquio2020 na qualificação, declarou que a confusão lhe trouxe ofensas e “faltas de respeito”, além de insultos e mentiras, também pela “confusão do Sporting e do Benfica” que vem da altura em que chegou a Portugal.

Não tenho falado mal do Nelson. Há pouco enviaram-me o ‘link’ sobre o Nelson falar do abraço. (...) Não falo mal do Nelson, não quero levar o assunto para problemas pessoais. Há anos que fala de mim e não respondo. Já ganhou tudo, porque não me deixa a mim fazer a minha carreira?”, disparou.

Escolheu Portugal, disse, até quando tinha outras propostas, e lembrou o pai, colocado à parte em Cuba, razão pela qual saíram do país e não podem voltar, que deve estar feliz, mas também ele “para dentro”.

Sobre as medalhas colocadas na sede do Comité Olímpico de Portugal (COP), o facto de o seu ouro ser também lá colocado “será um privilégio”. “Entrar no centro de alto rendimento e ver a minha foto... será um privilégio”, reforçou o atleta, que regressa já sexta-feira a Portugal.

Portugal superou os resultados alcançados em Los Angeles1984 e Atenas2004, edições em que subiu três vezes ao pódio, passando a totalizar 28 medalhas em Jogos Olímpicos (cinco de ouro, nove de prata e 14 de bronze), 12 das quais no atletismo, modalidade que proporcionou também os cinco títulos olímpicos.

Agência Lusa / MJC