A campeã paralímpica Marieke Vervoort morreu por eutanásia, esta terça-feira. Vervoort, de 40 anos, morreu na Bélgica, o seu país natal, onde a eutanásia é legal.

A atleta medalhada, que sofria de uma doença degenerativa muscular, nunca escondeu que vivia em sofrimento e que tinha pedido autorização para ser eutanasiada.

Vervoort precisava de morfina para suportar as dores, enfrentava várias noites sem dormir, em agonia, e sofria convulsões. Uma ocasião, por causa de uma convulsão enquanto cozinhava, entornou água a ferver sobre as pernas e teve de ficar internada durante quatro meses.

Tinha apenas 14 anos quando a doença incurável lhe foi diagnosticada. Até aí, era uma adolescente inquieta, que nadava, andava de bicicleta e praticava jiu-jitsu. O pai, Joseph, recorda-a como uma menina ativa, que gostava de jogar com os rapazes e subir às árvores.

A doença mudou a sua vida para sempre, mas não a impediu de continuar uma pessoa ativa. Pelo contrário. O seu corpo ia perdendo mobilidade e ganhando limitações, mas a belga adaptava-se. 

Começou a jogar basquetebol em cadeira de rodas, tentou o triatlo, mas foi nas corridas de curtas distâncias que se notabilizou.

Treinava muito e sem desculpas. Não havia tempestade ou uma dor mais intensa do que o habitual que a impedissem de treinar na pista de Lovaina, a 30 quilómetros de casa.

Numa entrevista explicou que o desporto era como um medicamento, que a ajudava a ultrapassar as dores constantes.

É muito difícil para o meu corpo. Em cada treino eu sofro muito, com dores. Em cada corrida eu treino muito. Treinar e competir são para mim como um medicamento. Eu puxo muito por mim, puxo até o meu medo e tudo o resto ir embora”, contou.

A disciplina e a determinação permitiram-lhe coleccionar medalhas: ouro e prata nos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012, prata e bronze no Rio de Janeiro, em 2016.

E foi precisamente antes de participar nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro que Vervoort revelou que já tinha um documento legal que permitia que fosse eutanasiada.

A atleta, que era uma acérrima defensora do direito à eutanásia, afirmou que estes documentos que lhe permitiam pôr termo à vida, lhe davam “muita paz”.

Tenho medo, mas aqueles papéis [da eutanásia] dão-me muita paz porque sei que quando já não der mais, tenho esses papéis. Se não os tivesse, acho que já me tinha suicidado. Penso que poderia haver menos suicídios se todos os países permitissem a eutanásia. Espero que toda a gente compreenda que isto não é homicídio e que até faz com que as pessoas vivam mais tempo.”

Vervoort tinha o seu destino nas mãos e um último desejo: "Quero que lancem as minhas cinzas em Lanzarote, onde a lava se une com o mar", afirmou.