A notícia caiu como uma bomba: 12 clubes avançaram, no domingo, com a criação de uma Superliga Europeia, uma competição que pode mudar o futebol para sempre.

A favor, e como fundadores, estão os principais (e poderosos) clubes de três das maiores ligas europeias (inglesa, espanhola e italiana):

  • AC Milan
  • Arsenal
  • Atlético de Madrid
  • Chelsea
  • Barcelona
  • Inter Milão
  • Juventus
  • Liverpool
  • Manchester City
  • Manchester United
  • Real Madrid 
  • Tottenham

Após meses de negociações secretas, terá sido a pandemia de covid-19, e a consequente "instabilidade no modelo económico do futebol europeu existente", a motivar uma "abordagem comercial sustentável" e necessária para apoiar a "pirâmide do futebol europeu", justificam os clubes fundadores.

A assumir a presidência da competição estará Florentino Pérez, presidente do Real Madrid. O dirigente dos merengues terá o apoio de Andrea Agnelli, líder da Juventus, e Joel Glazer, vice-presidente do Manchester United, que serão os vice-presidentes desta prova.

Como vai funcionar a nova competição?

A prova será fechada e assemelha-se ao formato americano. Em comparação, diríamos que a recém Superliga Europeia pretende ser uma espécie de NBA, apenas para fundadores e convidados.

  • Ao leque dos clubes fundadores podem ainda juntar-se três equipas depois da temporada de estreia, e outros cinco emblemas que se classificarão para a prova anualmente com base no seu rendimento na temporada anterior.
  • Os jogos vão realizar-se a meio da semana, o que permite aos clubes continuar a competir nos respetivos campeonatos.
  • A prova tem início em agosto, com dois grupos de dez equipas, disputado em duas voltas.
  • Os três primeiros apuram-se diretamente para os quartos de final, sendo que quarto e o quinto classificados vão lutar pela última vaga num play-off. Segue-se uma fase eliminatória.
  • A final vai ter lugar em maio, em estádio neutro.

De acordo com a imprensa internacional, cada clube fundador irá receber 350 milhões de euros apenas pela inscrição, num bolo total de prémios que pode chegar aos 10 mil milhões de euros.

O comunicado oficial dos clubes fundadores adianta ainda "pagamentos de solidariedade" sem limite, que seriam "substancialmente mais elevados" do que os atualmente em vigor na UEFA e cresceriam de acordo com as receitas da liga. Sem se comprometer com números definitivos, o grupo sublinha que se ultrapasse os dez mil milhões de euros num compromisso inicial.

Guerra aberta no futebol europeu

A nova liga tem estado a desencadear reações adversas de vários quadrantes. Desde o futebol, com clubes, federações e jogadores, passando também por dirigentes políticos, todos se têm manifestado contra a iniciativa de alguns clubes de elite do continente.

Talvez tenhamos sido ingénuos ao ignorar que tínhamos cobras por perto. Agora sabemos. Vamos tomar medidas legais em breve", afirmou o presidente da UEFA.

A UEFA e as federações de Inglaterra, Espanha e Itália ameaçam os clubes que vão participar na Superliga: num comunicado conjunto, dizem que as equipas vão ser afastadas das competições domésticas e os jogadores não poderão representar as respetivas seleções.

Também a FIFA já reprovou esta nova competição, com valores diferentes dos que defende.

A FIFA só pode desaprovar uma liga europeia fechada e dissidente, fora das estruturas do futebol. A FIFA quer tornar claro que se posiciona fortemente a favor da solidariedade no futebol e de um modelo de redistribuição equitativo", informou, em comunicado.

A mesma falta de valores da Superliga Europeia é destacada por Bruxelas, que também se opõe a esta competição. Num post no Twitter, o comissário europeu Margaritis Schinas diz que a União Europeia deve defender um modelo europeu de desporto baseado na diversidade e na inclusão".

Também o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e o presidente francês, Emmanuel Macron, se manifestaram contra a prova. 

Sir Alex Ferguson, lendário treinador do Manchester United durante 26 anos, considera que a Superliga Europeia iria significar um enorme retrocesso na evolução do futebol. Já Luís Figo aponta que a Superliga Europeia é algo "trágico" para o futebol europeu.

Dois dos maiores clubes da Europa justificam exclusão

Também dois dos maiores clubes da Europa, PSG e Bayern Munique, recusaram os convites para integrar esta liga que já foi considerada como "separatista". Segundo o site The Athletic, o campeão francês considera "desrespeitoso" apoiar esta competição. 

Estes seriam dois dos 15 clubes "fundadores", até porque o comunicado avançado pelos primeiros 12 clubes referia a existência de 15 emblemas. Pouco depois, PSG e Bayern de Munique recusavam participar, deixando em aberto duas vagas. O terceiro clube a recusar a participação terá sido o outro colosso alemão, o Borussia Dortmund.

A Federação Alemã de Futebol (DFB) também se manifestou "frontalmente contra a iniciativa egoísta" de 12 clubes europeus.

A reação portuguesa

Por cá, Pinto da Costa já admitiu que o FC Porto recebeu "contactos informais" de "alguns clubes", tendo em vista a participação na Superliga Europeia. Para o presidente dos dragões, esta será uma prova ilegal, uma vez que vai contra os regulamentos da União Europeia e da UEFA.

Já o presidente do Sporting CP, Frederico Varandas, aponta que a competição "vai contra todos os princípios democráticos e de mérito"

Também o Benfica mantém-se contra a criação de uma Superliga. O administrador da SAD, Domingos Soares de Oliveira, reconheceu o que um convite para a integração seria difícil de recusar, "mas preferia que não acontecesse".

Pedro Proença, líder da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, também apontou o dedo a esta nova prova: "É uma insanidade".

Podence foi o primeiro internacional português a pronunciar-se contra a nova competição de elite: "Há coisas que o dinheiro não compra". Já depois, também Bruno Fernandes, jogador do Manchester United (um dos fundadores da prova) se mostrou pouco a favor.

As consequências

A ameaça da UEFA foi bem clara: não só os clubes que avançaram com a Superliga Europeia poderão ser severamente punidos, como também os jogadores, que segundo Aleksander Ceferin podem ser impedidos de representar as suas seleções nas provas continentais.

No panorama português, as sanções deixariam a Seleção Nacional desfalcada no Euro e para o Mundial. Eis os jogadores que ficariam de fora do onze português:

  • Cristiano Ronaldo (Juventus)
  • Rafael Leão (AC Milan)
  • Diogo Dalot (AC Milan)
  • Francisco Trincão (Barcelona)
  • João Félix (Atlético de Madrid)
  • Bruno Fernandes (Manchester United)
  • Rúben Dias (Manchester City)
  • Bernardo Silva (Manchester City)
  • João Cancelo (Manchester City)
  • Diogo Jota (Liverpool)
  • Cédric Soares (Arsenal)

Adeptos dos fundadores protestam contra "ganância e traição"

Um grupo de adeptos do Liverpool manifestou-se esta segunda-feira contra a criação da Superliga Europeia e o envolvimento do clube na nova competição.

Nas grades e portões do estádio, nomeadamente junto à mítica bancada «The Kop» foram colocados cartazes que dizem: "Adeptos do Liverpool contra a Superliga europeia" e "Vergonha. Descansa em paz LFC. 1892-2021»"

Além deste protesto, vários foram já os grupos organizados de adeptos destes clubes que se manifestaram contra.

"Os nossos membros e os adeptos de futebol de todo o mundo sofreram a maior traição", diz o grupo organizado de adeptos do Chelsea, dizendo que esta é uma decisão motivada "pela ganância de encher os bolsos dos que estão no topo, sem consideração pelos adeptos leais, a história e o futuro".

Os adeptos do Manchester United falam em "insulto ao legado dos jogadores que morreram no desastre aéreo de 1958 em Munique" e dizem que este modelo fechado de clubes ricos selecionados "vai contra tudo o que o Manchester United deveria defender".

Já os adeptos do Tottenham dizem que a Superliga é um "conceito derivado da avareza e interesse próprio em detrimento dos valores intrínsecos do jogo que tanto prezamos"

Superliga já começou a retaliar

Na sequência das duras críticas, os clubes fundadores avançaram na justiça para impedir os esforços destas organizações no sentido de proibir o avanço da nova competição. 

Numa carta, a que a agência noticiosa Associated Press teve acesso, os clubes espanhóis, ingleses e italianos que formam parte da nova prova avisam Gianni Infantino, presidente da FIFA, e Aleksander Ceferin, líder da UEFA, que a Superliga já conseguiu um financiamento de uma instituição financeira (o banco norte-americano JP Morgan) no valor de quatro mil milhões de euros.

De acordo com o Financial Times, o JPMorgan vai financiar o projecto com uma dívida contraída a 23 anos, com juros entre 2 a 3%, tendo como garantia as receitas dos direitos televisivos, estando acordado que os clubes paguem 264 milhões de euros por época.

Rafaela Laja