A Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género defende que os agentes culturais devem “assumir uma responsabilidade acrescida no combate à violência”, condenando a divulgação de conteúdos que contribuam para “naturalizar e reproduzir” a violência contra mulheres.

Questionada hoje pela agência Lusa sobre a música “BFF”, e respetivo vídeo, do ‘rapper’ Valete, que originaram uma carta aberta, assinada por mais de uma centena de associações e pessoas, e uma petição pública, que criticam a banalização da violência contra as mulheres, a CIG remeteu para um comunicado publicado na segunda-feira no seu ‘site’ oficial.

Nesse comunicado, a CIG, organismo público responsável pela promoção e defesa da igualdade de género e do combate à violência contra as mulheres e doméstica, condena a divulgação de quaisquer conteúdos que atentem contra a dignidade e a integridade física e moral das pessoas, contribuindo para naturalizar e reproduzir a violência contra as mulheres e doméstica”.

Aquele organismo salienta que, “considerando o impacto das mensagens de agentes culturais e criadores/as, sobretudo junto de públicos jovens e adolescentes, bem como a sua vocação para se constituírem como modelos para as gerações mais novas, devem aqueles assumir uma responsabilidade acrescida no combate à violência, e em particular a violência contra as mulheres”.

O comunicado termina com a CIG a reforçar o repúdio de “qualquer reprodução de mensagens sexistas e/ou que incitem à banalização da violência, atentatórias da igualdade entre mulheres e homens, princípio basilar na construção de uma sociedade livre de estereótipos de género e de violência”.

A música "BFF" aborda uma cena de violência, com o vídeo a mostrar um homem armado a ameaçar violentamente a mulher.

No canal oficial de Valete no Youtube, o vídeo soma mais de 900 mil visualizações e motivou críticas nas redes sociais e na comunicação social.

"A violência contra as mulheres não é arte nem cultura", lê-se na carta aberta divulgada esta terça-feira - Dia Mundial da Música - e assinada por associações de defesa dos direitos das mulheres e, a título individual, por dezenas de pessoas, entre artistas, psicólogos, jornalistas, professores, estudantes e técnicos.

Os autores da carta aberta sublinham que "a reprodução clara de misoginia e a banalização da violência contra as mulheres não podem ser cronicamente escudadas na criação artística".

Na carta aberta, os assinantes escrevem que "a violência masculina contra as mulheres e as raparigas não existe num vácuo: ela nasce e perpetua-se num ambiente social de banalização da violência, cresce e legitima-se num contexto cultural que promove uma masculinidade agressiva, conjugada com o escrutínio da sexualidade das mulheres".

Os autores dizem-se conscientes de que a liberdade de expressão não significa imunidade à crítica e que a criação artística – sobretudo quando atinge um público jovem como é o caso de Valete – não é isenta de impacto (e por isso mesmo, responsabilidade) social".

E pedem ao ‘rapper’ que "considere o alcance e as repercussões da sua mensagem, e repense a estratégia, o conteúdo e o alcance do vídeo referido".

A carta é assinada por, entre outras, a Associação de Mulheres Cabo-verdianas na Diáspora em Portugal, a Associação Mulheres sem Fronteiras e a Associação Portuguesa de Mulheres Juristas.

Por causa do mesmo vídeo de Valete, a organização Feministas em Movimento (FEM) lançou uma petição pública, que hoje soma cerca de 300 assinaturas, apelando "a que todos os coletivos de intervenção feminista, às organizações de intervenção social, aos partidos políticos e a todas as pessoas que digam não à violência".

Neste contexto, em que a violência contra as mulheres se encontra naturalizada, nenhum esforço ou ação no sentido de a erradicar é supérfluo, mas todos os atos ou acontecimentos que a banalizem têm de ser denunciados, contraditados e condenados!", exclama o FEM no texto que lança a petição pública.

O ‘rapper’ Valete considerou “patético” e “ofensivo” que associações financiadas pelo Estado “gastem energia” com assuntos como o seu tema “B.F.F.”, e respetivo videoclipe, em reação à carta aberta e petição pública hoje divulgadas.

Eu queria só dizer que é patético e eu acho ofensivo para todos os cidadãos o Estado estar a financiar associações que gastam energia com estes temas patéticos. Acho muito ofensivo, é o dinheiro dos nossos impostos e estas associações gastam essa energia toda com este tipo de coisas, quando obviamente há coisas muito mais importantes”, afirmou o ‘rapper’, em declarações à agência Lusa.

A música e o vídeo "B.F.F.", que deverá ser incluído no novo álbum do ‘rapper’, cujos temas vão sendo divulgados um a um, aborda uma cena de violência conjugal, com o vídeo a mostrar um homem armado a ameaçar violentamente a mulher.

No canal oficial de Valete no Youtube, o vídeo soma mais de um milhão visualizações e motivou críticas nas redes sociais e na comunicação social e motivou uma carta aberta, assinada por mais de uma centena de associações e pessoas, e uma petição pública, que criticam a banalização da violência contra as mulheres. Está igualmente na base da emissão de um comunicado da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG).

O ‘rapper’ escuda-se na liberdade criativa.