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À Flor da Pele: o medo

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O MEDO

O medo é uma emoção básica. Associado ao instinto de sobrevivência, ajuda o ser humano a evitar os perigos, a não colocar em causa a sua segurança. Mas há também medos que nascem das crenças. O medo de não ser suficiente bom, o medo de falhar. E há ainda o medo irracional, as fobias.

Estas são experiências de Medo. O medo que nos limita e o medo que nos empurra. Os medos que crescem connosco e os medos que vencemos. O medo instintivo e o medo patológico. O que temem as crianças? Que medo sente o combatente na guerra? E o experiente cirurgião? E quem sofre de fobia? Como se vence o medo? E o velho, tem medo do quê?

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À Flor da Pele: o Medo

À Flor da Pele: o Medo - a reportagem na íntegra

Um reportagem de Ana Candeias e Isabel Moiçó, com imagem de Emanuel Prezado, João Pedro Matoso, Luís Branco e Tiago Eusébio, edição de imagem de Pedro Guedes  e grafismo David Pinto.

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Paulino Correia

Paulino Correia combateu na guerra do Ultramar. Primeiro em Moçambique, depois na Guiné. E foi aí que sentiu que descia aos Infernos.

“É um trauma que carrego comigo. Há lá coisa pior do que ver um camarada morrer? E pensar que aquela (rajada) caiu ali e a próxima cai aqui? Uma pessoa sente medo. Medo, medo, medo, medo!”

É o medo permanente, visceral, que atinge o sentido último do próprio medo: manter-nos vivos. O medo de não ter futuro, de não mais regressar a casa. Paulino sobreviveu e voltou aos braços dos entes-queridos, mas os fantasmas da guerra, tantos anos depois, ainda lhe assombram os dias.

“De noite, na rua, vejo uma sombra e fico logo desconfiado”.

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O Medo

A idade dos medos!

O medo do escuro, dos seres imaginários, o medo de perder os pais. O medo das crianças, que já foram os medos de todos os adultos.

Alexandre tem medo de monstros, Madalena da trovoada, Lourenço de partir a cabeça. Maria tem medo de se perder da mãe. O escuro é o medo de Artur. E este é um medo que tantas crianças partilham: “No escuro parece que vemos coisas e afinal depois não estão lá”.

Mas há mais medos, porque vistas bem as coisas “ter medo” faz parte do desenvolvimento infantil. Estes são medos que (n)os ajudam a crescer.

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José Fragata

“Haverá uma inquietude, uma ansiedade quando se vai para o bloco. Mas uma vez lá dentro não nos podemos deixar corromper por esses sentimentos e não me lembro desse medo” 

É a experiência de José Fragata a falar, nome maior da medicina. Tem 65 anos e é cirurgião cardiotorácico. No currículo guarda anos e anos de saber e milhares de cirurgias. No coração guarda a satisfação de ter ajudado a salvar milhares de doentes, mas também a dor dos que morreram no bloco. José Fragata tem literalmente a vida e o coração de outros nas mãos.

“Nós lidamos com dois tipos de medo. Os nossos e os medos dos doentes que nos procuram”.

A responsabilidade é esmagadora. O médico assume: sente medo, mas este é um medo que não tolda o pensamento, nem tolhe a ação. É antes o medo que o obriga a estar mais alerta, vigilante, 100% focado. O cirurgião foi muitas vezes pioneiro na sua área. Implementou o primeiro coração artificial em Portugal. Ensinou muitos colegas. E sempre soube distinguir medo de insegurança.  E assume, sem problemas: "Tenho medo do tempo”.

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Cátia Rodrigues

É um medo irracional. Incontrolável.

Algo que a invade por completo, a impede de pensar e queima por dentro. “Para mim medo é sufoco. É não ter ar. E eu preciso de ar”.

As palavras são de Cátia Rodrigues. Sofre de agorafobia. Sente uma ansiedade extrema em situações que percepciona como inseguras ou das quais é difícil conseguir sair. Tem medo de andar de avião, deixou de andar de transportes públicos e evita andar sozinha de carro. Deixou de ir a concertos ou a centros comerciais.

Cátia sentiu o primeiro ataque de pânico ao volante. Transportava a filha de dois anos no banco de trás do carro.

“Não sei se foi por não me querer pôr em risco para não lhe faltar mas foi por esta altura que deixei de fazer tudo”.

Sentiu um calor insuportável a tomar-lhe o corpo, a garganta a fechar, a mente a ficar refém de um pavor irracional. Depois vieram outros ataques de pânico, o recurso à psicoterapia e a terapias alternativas, o querer saber como controlar a ansiedade.

“Quero evoluir como pessoa e não consigo. Tenho medo de ter medo”.

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Maria Carvalho

Maria Carvalho é mulher de liberdade, não tem medo de falar. É, aliás, dada às rimas e gosta de falar em verso. Não tem medo das palavras, mas tem medo da mentira. Das pessoas “zoeiras”, que lançam a confusão e perturbam a vida dos outros.  

Maria é mulher de idade, mas os 77 anos não lhe trouxeram o medo da morte.

“Não tenho medo de morrer, para morrer é que nasci. Tenho sempre vontade de viver. E eu gosto tanto de viver. Mas tenho medo do sofrimento”.

É a doença que a assusta, porque vive só e na maioria dos dias tem de bastar-se a si própria. Maria tem medo de pouco, porque tem Deus com ela.

“Se Deus me guia, de quem hei-de eu ter medo?”

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Maya Gabeira

“Tive muito mais medo de falhar, de não conseguir superar o meu trauma e de não conseguir voltar a surfar ondas gigantes”.

Maya Gabeira tem o recorde do mundo da maior onda surfada por uma mulher (20,72 mts). Um feito conquistado no Canhão da Nazaré, o mesmo onde há cinco anos quase perdeu a vida. Naquela manhã de 23 outubro de 2013, Maya foi retirada da água já inconsciente. O acidente agravou uma lesão antiga. Os médicos chegaram a dizer-lhe que a carreira tinha acabado. Maya passou por várias cirurgias e um longo período de recuperação e quando percebeu que podia voltar às ondas gigantes, o corpo ressentiu-se.

“O medo traz vários sintomas, a mim traz-me ansiedade, stress, dores de barriga, fico enjoada. Mas fui aprendendo a lidar com isso”.

Passaram vários anos desde o acidente. Em janeiro de 2018, a surfista brasileira fez-se de novo ao mar, apesar do risco. O medo de não voltar a surfar ondas gigantes foi mais forte do que o medo de enfrentar o mar. A coragem chegou devagar. Veio da determinação, do treino mental, do treino físico e das “pequenas” vitórias conquistadas em cima da prancha, dia após dia.

“Parecia que cada onda era um pequeno alívio, um empurrão na minha autoestima, era uma palavra de confiança, era a oportunidade de surfar a onda que há 4 anos atrás eu não tinha conseguido. E que eu acreditava que podia surfar!”

Maya ultrapassou o medo e conquistou o sonho.

Ana Candeias e Isabel Moiçó