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As faces ocultas de Salazar

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Reportagem "Faces Ocultas de Salazar" (I Parte)

As faces ocultas de Salazar

Veja aqui a primeira parte.

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"Faces Ocultas de Salazar": o diário secreto e as misteriosas injeções que tomava

As faces ocultas de Salazar

Veja aqui a segunda parte.

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Soalho esburacado, tectos a cair, livros esfarrapados pela humidade, lixo e cacos por todo o lado. Está assim, praticamente em ruínas, por dentro e por fora, a casa em que António de Oliveira Salazar passou parte da vida, sobretudo em férias, na sua aldeia-natal do Vimieiro, perto de Santa Comba Dão. Se aquelas paredes falassem, é provável que milhões de portugueses arregalassem os olhos de espanto. No recato da casa hoje em ruínas, o ditador que mandou em Portugal durante quase meio século fez o que muita gente faz: meditou, leu, conversou, dormiu, comeu, bebeu, namoriscou e sabe-se lá mais o quê.

Com mão de ferro e voz de veludo, Salazar pôs e dispôs do país e das pessoas durante décadas. Um ditador à portuguesa, aparentemente suave, muito diferente de um Hitler, de um Estaline, de um Franco ou de um Mussolini, por muito que chegasse a ter na sua secretária em S. Bento um retrato autografado pelo fascista italiano. Mas era no Vimieiro que tinha o seu refúgio natural. Era o regresso à infância e à ruralidade, longe das tricas de S. Bento e das baldrocas dos ministérios do Terreiro do Paço. Mas sempre, em todo o lado, com a PIDE atrás e em vigilância, com a supervisão do inspector Rosa Casaco, um dos homens da polícia política que esteve por detrás do assassinato do General Humberto Delgado.

A quinta que Salazar comprou, a cerca de um quilómetro da casa onde nasceu, é hoje um...aparcamento de gado. Quanto à casa onde passou temporadas, logo junto à casa dos pais, está envolta em silêncio e atulhada de objectos e livros deteriorados. Pouco se sabe das conversas que manteve nesta sua casa do Vimieiro. Aliás, o que é que se sabe sobre a vida mais íntima, discreta e até misteriosa do homem que marcou o século XX português? Pouco, ainda muito pouco.

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A TÁCTICA DO CHAPÉU

 

     Para lá dos factos políticos e históricos, há ainda testemunhas vivas e memórias que não se apagam, e que abrem o véu sobre algumas faces ocultas de Oliveira Salazar. Por exemplo, o testemunho de um dos dois sobrinhos-netos do ditador, Rui Salazar de Lucena e Melo, 70 anos, que ainda vive numa casa no Vimieiro junto à do tio-avô. A casa de Salazar, que não deixou descendentes, pertenceu até há pouco tempo a Rui Salazar e ao irmão. Ali funciona hoje uma espécie de canil para cães abandonados. A casa-natal de Salazar, mesmo ao lado, está retocada por fora, mas também muito estragada por dentro.

     Em vida de Salazar, quem podia falar dos aspectos mais íntimos da sua vida pouco falou, por medo ou ignorância. Casos de Marcelo Caetano, o seu sucessor, ou de Franco Nogueira, seu ministro dos Negócios Estrangeiros, que ainda assim, nas Memórias, abre um pouco o véu sobre aspectos mais privados da vida e do quotidiano do Presidente do Conselho de Ministros do Estado Novo. Alguns, supostamente próximos do ditador, falaram e escreveram mais tarde, depois da sua morte e/ou após o 25 de Abril. Gente que foi poderosa, e que Salazar parecia desprezar, mas que deixou tornarem-se ainda mais poderosos.

     Há obra escrita sobre Salazar, às vezes esquecida, outras vezes renascida, conforme as modas e os "bites" televisivos. Jornalistas como Fernando Dacosta, Joaquim Vieira ou Felícia Cabrita, ou historiadores como Fernando Rosas, Irene Flunser Pimentel e Filipe Ribeiro de Menezes, abriram caminho para se conhecer melhor alguns aspectos da vida e das acções do ditador. Fernando Dacosta, enquanto jornalista, conheceu e privou com Salazar, em S. Bento, e sobretudo com a sempre presente Dona Maria, a eterna governanta. Dacosta explica que tudo começou por causa do vinho do Porto. "Foi por causa do vinho e da agricultura que ele me contactou. Como jornalista, estava lá em S. Bento, e ele queria saber como é que estava o vinho do Porto nessa altura. Havia uns ataques de míldio nas vinhas (o míldio é uma doença que dá cabo das uvas), e a minha família é de vinhateiros do Alto Douro. E ele então queria saber..." Já ninguém se lembra dos vinhos de Salazar, e a própria obra política se foi esbatendo aos poucos. Mas o espírito salazarista e "salazarento" ainda paira como um fantasma sobre o dia-a-dia de muitos e muitos portugueses, da Direita à Esquerda. É um espírito mesquinho e desconfiado que deixou marcas, e que Salazar disfarçava, imagine-se, com o chapéu. "Ele utilizava o chapéu para não apertar a mão às pessoas. Há muito poucas fotografias ou circunstâncias em que ele aparece a apertar a mão aos outros. Tirava o chapéu, ficava com ele na mão, para não ter de cumprimentar ninguém!", conta Fernando Dacosta.

     Quanto à família e origens do ditador, poucos saberão que António Oliveira Salazar herdou o apelido Salazar da mãe, D. Maria do Resgate Salazar, de origem espanhola. Se o sr. António Oliveira seu pai se tivesse imposto, o filho ficaria para a História com o nome de António Oliveira, segundo a tradição portuguesa. Não seria a mesma coisa, até porque Oliveiras há muitos mais. Mas D. Maria do Resgate terá insistido nos hábitos espanhóis, onde o último apelido é sempre o da mãe.

     António é o filho mais novo, o único varão de António e Maria do Resgate. A mãe engravida aos 44 anos, idade perigosa para a maternidade, sobretudo naqueles tempos de 1889, há 130 anos. O pequeno António cresce rodeado de mulheres - a mãe e as quatro irmãs (Marta, Elisa, Leopoldina e Laura). A mãe, Maria do Resgaste, é uma mulher de forte personalidade. O pai Oliveira é mais apagado. A família vive da agricultura. O pai começa como feitor dos grandes senhores da terra de Santa Comba Dão, os Perestrellos, mas possuem de seu algumas propriedades rurais. São pequenos agricultores, ainda que relativamente abastados - até têm vários criados. "Quando Salazar nasceu, o pai deu à mãe uma moeda em ouro, que era os 10 mil réis D. Luís!", conta Rui Salazar.

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O BUSÍLIS DA CASA DE SALAZAR

 

     48 anos após a sua morte, Salazar ainda provoca polémica, também em Santa Comba. O sobrinho-neto, depositário supostamente fiel de livros, mobílias e objectos que pertenceram ao tio-avô, explica que não se fizeram obras de manutenção na casa de Salazar porque um terço foi comprado há anos pela Câmara Municipal de Santa Comba Dão. O presidente da autarquia, o socialista Leonel Gouveia, explica à TVI que "a câmara, por si só, não tinha possibilidades de intervir na casa, uma vez que só era proprietária de um terço, um terço indiviso, e não sabia qual era a parte dela!". Leonel Gouveia revela que parte do problema está resolvido, já que a câmara comprou em Janeiro, por 120 mil euros, os restantes dois terços da casa e do terreno. Outros objectos pertencentes a Salazar, incluindo mobílias, terão sido doadas por Rui Salazar à autarquia. Parte deles estão depositados num armazém da Câmara, com vidros partidos e tectos a cair, logo ao lado da casa de Salazar. Leonel Gouveia confirma à TVI que a câmara ficou guardiã de alguns objectos, cartas, documentos e mobílias, mas chegou à conclusão de que parte delas não pertenciam efectivamente ao ditador. Quanto ao armazém em que se encontram algumas mobílias, Leonel Gouveia explica que "parte do edifício realmente ruiu. Mas esse material de Salazar está numa parte resguardada. E todo esse edifício vai ser objecto de requalificação ainda este ano".

     O executivo camarário espera encontrar financiamento para abrir brevemente um Centro Interpretativo do Estado Novo, a instalar na primeira Escola-Cantina Salazar, edifício público construído há décadas muito perto da casa que foi de Salazar, e cujo modelo foi então replicado em muitas outras escolas do país. "O Centro Interpretativo e a casa devem ser utilizados também como pontos de atracção turística e não só. O espaço deve chamar as pessoas a visitar Santa Comba Dão", diz o presidente da autarquia.

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AS FUGAS AOS PIDES

 

     Faz agora 90 anos que o jovem Salazar iniciou a sua caminhada para o poder. Em 1928, o professor de Coimbra toma posse como todo-poderoso ministro das Finanças. Comunica logo que sabe muito bem o que quer e para onde vai; e Portugal foi para quase 50 anos de poder concentrado num único homem. Logo na década de 30, o espírito camponês de Salazar vem ao de cima. Traça o retrato ideal do "bom povo português": pobrezinhos mas limpinhos, poupadinhos, sem dívidas nem ambições desmedidas.

     Chefe do governo em 1932, Salazar tem um desgosto: a morte do pai aos 93 anos. A partir daí, começa a construir o seu próprio regime político. Fechado em S. Bento, apaparicado por Dona Maria, poucos conhecem os seus amores e desamores, os seus amigos e amizades, e cria-se o mito de que Salazar casou com a Pátria. "Salazar foi o maior encenador político que tivemos! Ele construiu todo o seu mito pela ausência. Para muita gente, ele praticamente não existia!", considera Fernando Dacosta.

Para o seu conterrâneo José Rui Ferreira, Salazar existia mesmo, de carne e osso. José Rui é filho de José Ferreira, ferrador de profissão, e cresceu em casa dos pais, mesmo ao lado da casa maior da família Oliveira Salazar, no Vimieiro. Tem muitas histórias para contar do professor Salazar, o todo-poderoso presidente do Conselho que visitava amiúde a sua casa na aldeia. Por exemplo, sabia logo que Salazar estava no Vimieiro. Era fácil. "A partir do momento em que via ali a Guarda Republicana e o pessoal da PIDE, sabia logo que ele estava cá!" Salazar enfiava-se em casa. Com ele, vinha geralmente a governanta Dona Maria. E vinham sempre as brigadas da PIDE, chefiadas por Rosa Casaco, seis agentes no mínimo. "Eles ficavam em grupos, dois a dois, a vigiarem a casa de longe, com as armas atrás do muro!" A GNR controlava a frente da casa, a PIDE as traseiras. José Rui Ferreira explica que Salazar, liberto das grilhetas de S. Bento, chegou a chatear-se com os pides. "Não gostava que andassem atrás dele e fugia para a sua quinta!"

     Salazar nunca chegou a ver o que lhe fizeram aos caminhos que levavam à sua Quinta das Ladeiras, mais à frente. Exactamente entre a sua casa e a sua antiga quinta passa desde há anos o IP3, um corropio de carros com gente dentro, que nem imagina estar a passar pela casa e pelos terrenos que foram de Salazar. Nos seus tempos do Vimieiro, sem o estorvo do IP3, Salazar gostava de percorrer os caminhos mais ínvios até à quinta. Junto à sua casa, a família Salazar chegou a abrir uma escola, onde Marta, uma das irmãs do ditador, dava aulas às meninas. Salazar, segundo José Rui Ferreira, costumava ir à escola para conversar com as alunas. Quanto aos poucos visitantes, Salazar "recebia-os sempre no degrau, da parte de fora da casa!" E as crianças senhores? O sobrinho-neto Rui Salazar garante que o tio-avô "era afectuoso com as crianças, mas não brincava com elas!"

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"UM BEIJO" PARA FELISMINA

 

     Cínico e manhoso para muitos, piedoso e íntegro para os mais próximos, poucos conheciam os verdes anos de Salazar. O adolescente António começa por frequentar o seminário de Viseu, destino marcado pela mãe, Maria do Resgate. Aí estuda durante quase 8 anos. António era então um rapaz de fé mas com duvidosa vocação sacerdotal. "Ele era bastante anti-clerical. Lembro-me que uma vez estava com a Dona Maria na conversa. Ela estava a dizer muito bem de um padre e o Salazar disse:´Hum! Uma coisa é o que eles dizem, outra é o que eles fazem. Porque a esses conheço eu muito bem!` Esta frase fixei-a!", recorda Fernando Dacosta.

     O jovem António priva por esses dias, em Viseu, com Abel Pais de Sousa, filho de uma conhecida família de Santa Comba Dão. Abel vem a casar mais tarde com a sua irmã Laura. É por essa altura, aos 15 anos, que Salazar escreve três poemas, até agora inéditos e desconhecidos, cedidos à TVI pelo sobrinho-neto Rui Salazar.

Um deles intitula-se "Um beijo" e começa assim: "Um beijo! Saudosa aragem/ que cicia entre a folhagem/ das flores; / Linda cadeia que une/ belo preito que resume/ os amores!" E continua: "Dá-lo pois não é um crime/ sendo cousa tão sublime/ carinhosa; / bela rosa orvalhada/ no coração plantada/ tão mimosa!" É provável que, ao escrever "Um Beijo", Salazar estivesse a pensar na jovem professora Felismina, um pouco mais velha, com quem manteve uma relação platónica nos tempos do seminário de Viseu. O livro, manuscrito, intitulado "Ensaios Poéticos", é dedicado ao "seu muito estimado amigo Abel Paes de Sousa". Cabe agora aos críticos literários e aos historiadores dizerem de sua justiça.

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A SEDUÇÃO DO DITADOR

 

     Dona Maria era uma mulher pouco poética mas muito prática. Há quem diga que foi a mulher mais poderosa do regime, uma verdadeira primeira-dama. Maria de Jesus Caetano conhece Salazar em Coimbra, quando António e os seus amigos Mário Figueiredo e Gonçalves Cerejeira (futuro cardeal-patriarca de Lisboa) a contratam para criada do grupo que vivia então na República dos Grilos. Maria de Jesus fica para toda a vida como governanta de Salazar, e sempre como controleira do Presidente do Conselho. Era provavelmente a única pessoa que punha o ditador na ordem, pelo menos na ordem caseira. Fernando Dacosta lembra-se de uma curiosa cena em que Dona Maria levanta o véu sobre o seu relacionamento com o chefe da Nação, mesmo com Salazar presente. "O portar-se mal de Salazar, para a Dona Maria, era porque ele comia mal... porque se deixava enganar por todos. Uma vez até fiquei muito envergonhado porque estava o Salazar presente e ela dizia que ´ele tem a mania que é muito esperto, que manda em toda a gente! Mas todos o enganam, até eu o engano!" E dava um exemplo. "Ele tem a mania que não gosta de coelho, mas eu faço-lhe o coelho e ponho-lhe não sei o quê, umas ervinhas, e digo-lhe que é peru... e ele come como sendo peru!". Na verdade, Dona Maria até convenceu salazar a criar galinhas e perus em S. Bento.    Fiel, inteligente e muito esperta, Dona Maria foi-lhe conhecendo as amigas e as protegidas, a começar pelas pupilas Micas e Maria Antónia. Todas estas jovens raparigas que frequentavam S. Bento vão servindo de família ao chefe da Nação. Dona Maria nunca conheceu outras paixões do seu António. Casos de Júlia Moreira, vizinha em Coimbra, ou Emília (vidente, dançarina de cabaret e até boémia em Paris), ou Glória Castanheira, senhora com quem troca íntima correspondência. Dona Maria terá apenas ouvido falar de Julinha Perestrello, a filha dos patrões do pai de Salazar em Santa Comba Dão, a quem o estudante de Direito António deu explicações. Quando a mãe Perestrello soube da paixoneta da filha pelo filho do feitor, faz por acabar com tudo. Mas é António que entra em depressão e rompe o namoro, o que deixa Julinha de rastos.

     Quem Dona Maria chegou a conhecer foi a aristocrata Carolina Asseca, uma das relações mais fortes de Salazar. Vistosa viúva de 45 anos, chegou a falar-se de que poderia vir a casar com o ditador. Não casou. Fernando Dacosta analisa uma destas faces ocultas de Salazar: "Ele cultivava a sedução. E tinha imensa gente apaixonada por ele, quer mulheres quer homens. Que ele manipulava. Ele era um grande manipulador, ele gostava de manipular as pessoas".

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MANELÃO, O FEITOR

 

     João Pinto, 70 anos, privou de muito perto com Oliveira Salazar, sempre com o maior respeitinho. Era filho de Manuel Pinto (a quem Salazar chamava "Manelão" pela sua estatura), o feitor da quinta das Ladeiras, que o chefe do governo havia comprado no Vimieiro. Manelão, já falecido, começou a trabalhar para Salazar aos 17 anos como criado de casa. Conta João Pinto que "o professor era o padrinho do meu pai!" João Pinto, enquanto criança e até à juventude, foi saltitando entre a escola e a quinta onde o pai Manelão trabalhava. Muitas vezes, sobretudo no Verão e nas vindimas, Salazar aparecia pelo Vimieiro, sempre com Dona Maria à perna, e ela sempre a pensar nos seus perus de S. Bento. "Eu ía lá para a quinta apanhar bolotas, com a minha irmã, que eram para a Dona Maria levar para Lisboa, para engorda dos perus em S. Bento!", recorda João Pinto. "Com a apanha das bolotas ganhávamos o almoço e o jantar!"

     Por essa altura, a quinta de Salazar andava num brinquinho, repleta de flores, sobretudo camélias. Havia veredas e cantinhos bucólicos, mais a horta, mais a vinha e os vinhos. Salazar mandava engarrafar os seus vinhos da quinta das Ladeiras e fazia questão de oferecer um copinho aos poucos visitantes com acesso a S. Bento. Fernando Dacosta chegou a provar o vinho de Salazar. "Ele cultivava vinho lá no Vimieiro. Só que o vinho dele era uma zurrapa intragável, mas ele tinha a mania de que era uma especialidade!" Todos faziam o sacrifício de beber, mas ninguém protestava. Pelo contrário, o vinho do Porto que Dona Maria servia em pequenos cálices era de alta qualidade, até porque... "era oferecido".

     Por essa altura, anos 60 e 70, o feitor Manelão ia recebendo de Lisboa, por carta com timbre da Assembleia Nacional, as instruções de Salazar para os trabalhos agrícolas da quinta. Eram mensagens telegráficas, com instruções precisas. Salazar era assumidamente forreta e andava tudo controladinho, mas tudo era pago rigorosamente ao fim do mês à casa Regadas & Irmão, que lhe fornecia, por exemplo, a cal para misturar no sulfato com que se tratavam então as videiras.

     Escondido em S. Bento como bicho do mato e rígido nas suas relações públicas, Salazar descontraía quando regressava à sua aldeia do Vimieiro. "Não falava com quase ninguém, mas falava muito com os seus trabalhadores rurais da quinta!", conta José Rui Ferreira. "Mas as outras pessoas não se chegavam muito a ele! Havia respeitinho!"

     João Pinto, filho do feitor Manelão, era dos poucos que tinham acesso mais directo a Salazar. Tudo sob o controlo apertado do inspector da PIDE Rosa Casaco, o único autorizado a fotografar o chefe da Nação. Rosa Casaco, a quem chamavam "o menino-bonito de Salazar", é o autor de uma das poucas fotografias de João Pinto e da irmã enquanto crianças. "Tirou-ma o senhor Casaco quando o salazar estava aqui na quinta com a senhora francesa, a Cristine Garnier!"

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CRISTINE GARNIER, O VENDAVAL LOIRO

 

     Cristine Garnier foi provavelmente a única mulher que deu verdadeiramente a volta à cabeça de Salazar. Francesa, jornalista, aristocrata, casada, divorciada, casada de novo, chegou a Portugal de comboio em 1951, para entrevistar o homem-forte do regime português. E assim entra na vida de Salazar "um vendaval loiro e perfumado", nas palavras do próprio ditador. Fernando Dacosta conheceu Cristine em Paris. "Estive em sua casa nos arredores de Paris. Não me falou de coisas íntimas. Salazar ficou deslumbrado com ela. Era muito bonita. Tinha um mundo que Salazar não tinha. O mundo de Salazar era todo imaginado!" Imaginado ou não, o mundo de Salazar muda com Cristine Garnier, que passa a visita regular do Presidente do Conselho, tanto em S. Bento, como no Forte do Estoril, e também no Vimieiro. Dona Maria não gosta. "Aí houve uma ciumeira mal disfarçada. Dona Maria maternalizou Salazar. Tratava-o como um filho. E tratava-o muitas vezes mal, como uma mãe castiga um filho que se porta mal!"

     Cristine, mulher sofisticada, escreve então um livro de elogio ao discreto ditador português - "Férias com Salazar". Tudo indica que Salazar se perde de paixão. Discretamente, vão dando grandes passeios pela quinta do Vimieiro, ainda Cristine não se tinha sequer divorciado do primeiro marido. João Pinto, filho do feitor, é uma testemunha priviligiada. "Eles davam passeios lá pela quinta, discretamente, às vezes de mão dada. E debaixo de um penedo que lá existe, ele punha-lhe o bracinho por cima!"

     Na Quinta das Ladeiras restam ainda algumas cameleiras mandadas plantar por Salazar. Salazar e Cristine gostavam de flores. Junto à velha casa resiste ainda uma magnólia. "Foi uma árvore pequenina que Cristine ofereceu ao meu tio-avô. Ainda aqui está e não deve morrer tão cedo!", explica Rui Salazar, que não acredita que a relação do tio-avô com a francesa tenha chegado alguma vez a vias de facto.

     Também o filho de José Ferrador, José Rui, se recorda da senhora francesa. "O povo dizia que ela era muito amiga do professor Salazar, mas não dormia lá em casa!" Amigos amigos, dormidas à parte, Cristine frequentava a casa de Salazar durante o dia mas, à noite, ia dormir à Pensão Antunes, ali perto, e que já não existe.

     Salazar e Cristine deixam-se então fotografar à porta da casa hoje em ruínas. São fotografias célebres. Mas é nas traseiras que a francesa e o ditador se enleiam em conversas mais íntimas.

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A PIDE E A CENSURA

    

 

     Nos anos 50, o mundo pula e avança. Portugal, pelo contrário, vai-se mantendo numa miséria e calma serôdia. Salazar, manhoso, faz figura por ter levado Portugal a fugir à 2ª Guerra Mundial, um jogo arriscado. António Ferro, o homem da propaganda do regime, desenvolve um inteligente culto da personalidade do chefe do governo. A PIDE, a polícia política, faz o seu serviço de controlo, perseguição e tortura aos opositores comunistas, socialistas, republicanos e outros democratas. No Vimieiro, sempre guardado por Rosa Casaco e os seus homens, Salazar passa temporadas nas férias. João Pinto, então com uns 11 anos, chega a ser vítima de um agente da PIDE. "Eu entrei na quinta a correr, para ir ter com o meu pai, e um agente foi atrás de mim. Levou-me para as camaratas onde eles dormiam, na escola-cantina, e deu-me um grande enxerto de pancada!" O pai Manelão dá por falta do filho e vai dar com o PIDE a agredir o filho. "O meu pai perdeu a cabeça e foi-lhe ao pescoço!" Foram todos à presença de Rosa Casaco, que estava na quinta com Salazar. "Salazar repreendeu o inspector por o seu homem me estar a tratar assim!" Aquele agente nunca mais voltou ao Vimieiro.

     Naqueles tempos, muito por causa da PIDE e da Censura, falava-se baixinho e pela calada. A Censura era controleira e senhora da Comunicação Social. E às vezes bastava a auto-censura. Salazar, sem pudor, assobiava para o lado e até fingia que não era nada com ele. "Ele montou aquela engrenagem repressiva, que funcionou, a PIDE, a Censura, a Legião, e depois, a certa altura, pôs-se acima delas, como se não tivesse nada a ver com elas. Não queria ser chateado. Mas foi ele que as criou e que lhes deu poderes para mandar!" Segundo Dacosta, só a poderosa Dona Maria fazia frente à poderosa PIDE. "O grande inimigo da Dona Maria era a PIDE. Ela chamava-os de malandros, esses malandros... Aliás, a mim disse-me várias vezes:´Se esses malandros o incomodarem diga-me, que eu meto-os na ordem!" Fiel até ao fim, Dona Maria combinava códigos secretos com o ditador para o salvar de chatices e de gente chata. "Por exemplo, numa recepção, se percebia que estavam a chatear o Salazar, ela abria o leque. Queria dizer para alguém ir salvar o Salazar do chato. E a PIDE nunca percebeu estes códigos secretos!", conta Fernando Dacosta.

     Curioso é o comportamento de Salazar, nos anos 60, quando soube que Annie, a filha de Silva Pais, o director da PIDE, tinha fugido para Cuba, apaixonada por um revolucionário de Fidel Castro. Silva Pais era recebido por Salazar todas as quintas-feiras, como primeiro informador do ditador. Salazar deu-lhe autorização para ir com a mulher a Cuba visitar a filha. "Mas disse-lhe para nunca sair do aeroporto de Havana. Silva Pais assim fez: foi a Cuba ver a filha, mas só no aeroporto!" Mal amado pelos seus agentes, foi Salazar que sempre aguentou Silva Pais como director da polícia política.

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AS DROGAS DE SALAZAR

 

     Mesmo por entre as intrigalhadas do poder, poucos sabiam que Salazar escrevia um diário, que foi mantido ao longo de décadas. Geralmente à noite, o ditador lançava ao papel pormenores do seu dia-a-dia político mas também caseiro. Pormenores únicos e misteriosos, Salazar assinala metodicamente a tomada de muitas e muitas centenas de injecções. Exactamente 1211 injecções, entre 1946 e 1968. Nos últimos tempos de vida, três injecções por semana. Os jornalistas António Caeiro, Natal Vaz e José Pedro Castanheira levantam o véu e mostram pistas no seu livro "A Queda de Salazar". Nos últimos 10 anos de vida, três injecções por semana. Injecções de quê, porquê e para quê? Só por uma vez Salazar se descai e anota o nome de um medicamento - Eucodal.

     António Caeiro explica que o Eucodal é um opiácio fabricado na Alemanha, e que Hitler também tomava. "O Eucodal tornou-se especialmente conhecido porque era o medicamento favorito de Hitler, na segunda fase, terminal, da 2ª Guerra Mundial". Parece provado que Salazar sofria de neurastenia, como se dizia então. Mas a saúde e os humores de salazar eram considerados segredo de Estado. Hoje, qualquer psiquiatra lhe teria diagnosticado várias crises depressivas, como já concluiu o psiquiatra José Gameiro. "Ele tinha muitas neuras, fechava-se muitas vezes no quarto, de onde não saia durante vários dias. Era bastante neurótico, era bipolar e por aí fora...", explica Dacosta.

     Salazar sempre sofreu de insónias e de enxaquecas, que lhe provocavam grandes dores de cabeça. E também padecia de fortes dores musculares em todo o corpo. O Eucodal, um opiácio, serve exactamente para combater dores muito fortes e é também um antidepressivo. O problema é que se torna altamente viciante. Em certa semana dos anos 60, Salazar andava acabrunhado e anota mais uma injecção no seu Diário, dada como habitualmente pelo seu enfermeiro privativo, João Merca. No dia seguinte, segundo testemunhas, participa num conselho de ministros e mostra-se muito bem disposto e até eufórico.

     Desde jovem que Salazar apresenta sintomas de depressão, doença que o vai acompanhar pelo resto da vida. E sempre acompanhado pelas misteriosas injecções, que a partir de 1955 passam a ser rotina semanal.

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A QUEDA FATAL

 

     Certo dia de 1968, Salazar cai de uma cadeira no Forte do Estoril, seu refúgio de fim-de-semana, e bate com a cabeça no chão. Única testemunha: o seu calista Augusto Hilário. É o princípio do fim do "Botas", alcunha que os críticos (e não só) lhe haviam posto, pelas botas de cano alteado que costumava usar. Poucos sabiam que, 40 anos anos, ainda ministro das Finanças, Salazar tinha escorregado num tapete que desliza no soalho encerado de um gabinete do ministério no Terreiro do Paço. Parte uma perna e fica a coxear ligeiramente. Só as botas alteadas lhe dão algum alívio ao pé.

     A queda da cadeira de lona no Forte do Estoril precipita tudo. Em Setembro de 1968, o país é sobressaltado com a notícia de que Salazar está internado e vai ser operado ao crânio. O drama atinge todo o regime. As figuras mais importante passam pelo Hospital da Cruz Vermelha. A Censura fica ainda mais presente. Amália Rodrigues escreve uma quadra ao ditador. "Ponha-se-me bem depressa/ Meu querido presidente/ Depressa, que essa cabeça/ não merece estar doente!". A Censura não gosta e o censor de serviço, um tal tenente Teixeira, manda cortar os versos de Amália.

     Salazar piora a olhos vistos. Finalmente, o Presidente Américo Tomáz cria coragem para exonerar Salazar. Nomeia Marcelo Caetano como seu sucessor na chefia do governo. Salazar mantém-se na residência oficial em S. Bento, com todas as prerrogativas inerentes ao cargo, mas não sabe que já não manda, por muito que os ministros

finjam despachar com ele. Cristine Garnier visita-o por essa altura em S. Bento e fica chocada. "Ela ficou horrorizada com o que viu! Achou que ninguém tinha o direito de tratar assim o Salazar. A ideia, o que se dizia, é que Salazar não aguentaria se lhe dissesem que já não era o presidente do Conselho, que podia dar-lhe qualquer coisa fatal", explica Natal Vaz.

     Salazar já não manda. Deixa de escrever o seu Diário. Fica para a posteridade o último livro que leu e que anotou, uma obra sobre o Maio de 68 em França, acontecimento que havia abalado o mundo poucos meses antes.

     Com Salazar gravemente doente, a seguir a um AVC, a Emissora Nacional grava em segredo uma emissão especial para a esperada morte do velho ditador. A música de fundo é a Abertura Trágica da Sinfonia nº 3 de Brahms. E finalmente, a 27 de Julho de 1970, Salazar morre - já não é segredo para ninguém.

     As cerimónias fúnebres decorrem nos Jerónimos, e por ali passam as figuras que hão-de continuar o regime por mais 4 anos. O caixão é levado de comboio até Santa Comba Dão e enterrado no pequeno cemitério do Vimieiro, como tinha previsto e pedido. Os restos mortais do ditador lá estão, junto às campas das irmãs e de outros familiares, ainda hoje sempre floridas. Fernando Dacosta recorda-se que "Dona Maria não gostava nada do Vimieiro, chamava-lhe a barraca. O Salazar queria comprar duas campas no cemitério, para ela e para ele. A Dona Maria ficou fula, não queria nada ir lá para o Vimieiro quando morresse!" Não queria e não foi.

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O GRANDE ENCENADOR

 

48 anos após a sua morte, o homem que marcou Portugal durante grande parte do século XX ainda marca muitas das memórias e dos espíritos de muitos portugueses. Muitas das suas faces mais privadas e ocultas ainda estão por descobrir, perceber e interpretar. Bem amado por uns, mal amado por tantos, Salazar ainda hoje não deixa ninguém indiferente, de um extremo ao outro do especto político. Fernando Dacosta considera que Salazar "foi o maior encenador político que tivemos. Era uma pessoa muito complexa, contraditória, e com muitas faces, que ele cultivou habilidosamente!" Dacosta, que o conheceu pessoalmente, considera que "ainda é cedo" para se conhecer a vida e a obra do ditador com o devido distanciamento histórico. "Temos de morrer todos os que o conhecemos, os que o combatemos, os que o apoiamos, para a história se vir a fazer por gerações que não têm nada a ver connosco. O que aconteceu, por exemplo, com o Marquês de Pombal!"

     Na casa em ruínas de Salazar no Vimieiro, o relógio de parede que foi seu parou há muitos anos nas 9/21 horas. Mas Portugal não parou após a morte do ditador. Pelo contrário, pulou e avançou logo a 25 de Abril de 1974 com a Revolução dos Cravos. E nada voltou a ser como dantes!

Victor Bandarra