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Imunidade

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Este é um trabalho jornalístico com autoria de Filipe Caetano e de Inês Tavares Gonçalves, com imagem de Miguel Bretiano e de Tiago Euzébio e com edição de imagem de Pedro Guedes.

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"Imunidade": a corrida contra o tempo em busca de uma vacina

Episódio 1

“Imunidade” é o nome da grande reportagem da TVI sobre os esforços para a obtenção de uma vacina contra a covid-19.

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17 de Setembro de 2020. Passam poucos minutos das seis da manhã. O dia começa a nascer no Porto e é lá, que ainda sem sabermos, captamos os primeiros instantes da IMUNIDADE.

É na marginal de Gaia que vemos a Marta correr e ela tem uma grande história para contar: testou nove vezes positivo ao vírus SARS-CoV-2, numa altura em que muito pouco se sabia sobre a doença COVID-19. Agora está curada - nota-se no ritmo e desempenho da corrida, mas deixamo-la para já aqui, perto de casa, lugar onde nos recebeu com entusiasmo e um sorriso aberto.

 

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“Costuma estar tão pouco trânsito? Não deveria estar mais calor? É perigoso ter o material à vista? Leve-nos ao parque Ibirapuera, por favor.”

É no carro do Célio que começa a viagem por São Paulo. Há cinco décadas que faz do táxi a sua casa e já não lhe cabem mais histórias na bagagem. Vai partilhando todas as que consegue, nos instantes de um sinal vermelho, e sempre através da sua máscara de pano azul marinho. Tem o rádio desligado, está cansado das notícias más. Mas que alegria, são dois portugueses! E logo ele que gosta tanto de Fátima.

 

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A Doutora Patrícia Rady Muller é médica infectologista, pesquisadora clínica e voluntária da vacina de Oxford / AstraZeneca. Está à nossa espera junto ao portão 7, num fato de treino preto. O espanto cobre-lhe o rosto. Afinal os jornalistas da televisão portuguesa sempre apareceram. O seu testemunho é contagiante. Enquanto fala, os olhos brilham. Conta-nos porque decidiu ser voluntária, como teve desde logo o apoio incondicional da família e apenas hesita quando lhe perguntamos se o Brasil tem a doença controlada. Não tem, diz. É dia 22 de Setembro, e seis meses depois do início da pandemia no seu país, continuam a morrer centenas de infetados por dia. Quase que chove durante a nossa entrevista, é o momento certo para irmos conhecer a clinica Capozzielli, onde trabalha. Leva-nos até lá no seu carro enquanto nos explica o acompanhamento que é feito no CRIE. Faz saber que mantém no seu dia-a-dia todos os cuidados de higiene e de segurança para evitar o contágio. Só em Junho de 2021 saberá se tomou a vacina contra a COVID-19 ou o placebo.

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Já estamos à porta do CRIE, o tal centro de vacinação de que nos falou a Doutora Patrícia. À primeira vista, não nos parece um Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais, como a placa indica. É na verdade um barracão branco, improvisado e perdido no meio de um bairro residencial, mas é lá que esperamos pela Doutora Lily Weckx, coordenadora do centro e pesquisadora da vacina da Universidade de Oxford no Brasil. O protocolo de confidencialidade é rigoroso. Não nos deixa filmar o interior do CRIE, apenas a sala de reuniões onde nos recebe um pouco agitada - o trabalho é em permanência, 24 sob 24 horas. Prescinde da sua hora de almoço para nos contar que o estudo corre bem, são dez mil voluntários a receber acompanhamento diário. Não faz futurologia mas duvida que haja uma vacina pronta já este Natal. Não nos fala da concorrência, nem da pressão das instituições e dos governos, mas nós sabemos que há uma enorme expetativa para se ser o primeiro a conseguir uma vacina segura e eficaz.

 

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Quem nos diz isso na primeira pessoa é o Doutor Cristiano Zerbini, responsável pela vacina da Pfizer / BioNtech em São Paulo. Torce pelas vacinas concorrentes porque “uma só não vai dar”. Ao contrário da Doutora Lily, avança com datas: a pandemia vai acabar em 2021 e as pessoas vão ser vacinadas no segundo trimestre do próximo ano. O Centro Paulista de Investigação Clínica, onde nos recebe, tem semelhanças com o CRIE, mas desta vez não há restrições na hora de ligar a câmara. O Doutor Zerbini trabalha há vários anos na área da investigação clínica e é um apaixonado pela profissão. Isso nota-se na forma como explica a tecnologia do RNA mensageiro a uma jornalista, e também, no carinho com que trata todos os colegas que estão a atender pacientes ou a recolher amostras de sangue. Estão vários voluntários da vacina na receção. Conseguimos falar com alguns no exterior. Entusiasmados e cheios de esperança mas pouco à vontade com a nossa presença.

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É no Hospital de São Paulo que conversamos a fundo com um grupo de voluntários. Passamos lá um dia inteiro, há muito para conhecer. O Hospital é público e está cheio. Ninguém entra sem máscara e quem tem sintomas de COVID-19 é isolado numa ala das urgências que mais à frente o Doutor Francisco Finamor terá oportunidade de nos mostrar. São quatro os pisos exclusivos para tratamento de doentes COVID-19 e são várias as alas de UCI. Recolhemos o testemunho do Doutor Keller de Martini e da enfermeira Dayse Lofiego e ouvimos também a jovem Morgana Maia, é ela que ajuda a Doutora Denise Abranches a vestir todo o equipamento de proteção individual momentos antes de nos conceder a primeira de três entrevistas. Foram três porque há muito para contar e porque foi, de facto, difícil levar uma conversa até ao fim. A Doutora Denise é a verdadeira Relações Públicas daquele Hospital, todos a conhecem e cumprimentam e nota-se que ela gosta que assim seja. É médica-cirurgiã e coordenadora do centro de odontologia, e a isso, junta o primeiro lugar na lista de voluntários da vacina de Oxford no Brasil. O seu testemunho é o mais emotivo, a fé move-a desde que tratou o primeiro doente infetado e conquista-nos quando nos diz que nós, jornalistas, também somos voluntários nesta pandemia. Atravessámos um oceano para deixar documentado na história o esforço planetário que está a ser feito para a obtenção de uma vacina.

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Voltaremos ao Brasil mas chegou o momento de conhecer  um pouco melhor a Marta. Está na lista dos primeiros cem portugueses infetados e numa outra: na dos doentes que mais tempo permaneceram positivos ao vírus. Ainda que se recorde muito bem dos três meses em que esteve doente, entre Março e Maio, não sabe explicar porque teve o seu corpo tanta dificuldade em vencer a COVID-19. Acredita que terá sido infetada num jantar de amigos no Porto uma vez que muitas das pessoas presentes ficaram doentes. Algumas com poucos sintomas, mas outras acabaram mesmo internadas e ligadas a um ventilador. Também ela passou algumas noites no Hospital de Santo António. Mostra os vídeos que gravou nessa altura e que partilhou nas redes sociais. Foi também por isso que quisemos conhecê-la. Tem documentada a sua história em centenas de posts e stories na sua conta de Instagram. Conta-nos na varanda da sua casa em Gaia que teve muito medo e que se sentia suja. Falou-nos dos rituais de desinfeção diária e nas mil atividades que foi procurando fazer para ocupar o tempo e sobretudo, a cabeça. Assim que ficou curada - era Dia da Mãe, quis dar um mergulhar no mar. Assim fez. A isso juntou uma coisa que já fazia mas que ganhou agora uma dimensão muito maior: correr. Foi assim que recuperou a força e vitalidade que o vírus lhe levou e que como pudemos perceber, a marcou profundamente.

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O Doutor Pedro Simas chega apressado, com uma prancha de surf debaixo do braço esquerdo e uma lata de coca cola na mão direita. Conseguimos convencê-lo a ir ao Guincho apanhar umas ondas e falar de forma descontraída de coisas sérias. Sempre sorridente e colaborativo, agradece o reconhecimento mas desvaloriza o facto de se ter tornado num rosto da televisão portuguesa durante a primeira vaga da doença. Não vemos o cientista naquela manhã de praia. O que nos dá a conhecer? O pai, o desportista, o viajante e o professor que também é. Mal chegamos ao Instituto de Medicina Molecular em Lisboa, o discurso altera-se, o formalismo instala-se, chegou o momento de falar de vacinas, de imunidade de grupo, de explicar vírus e de como podemos proteger os grupos de risco nesta fase. Há entusiasmo no seu discurso. Estamos quase duas horas à conversa. Tem outro compromisso, mas entre despedidas, comenta a situação pandémica em Portugal e compara-a com a Europa e resto do Mundo. Não estamos nada mal, diz.

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Visitamos Bruxelas entre 23 e 25 de Setembro. No céu, apenas cinzento, e nas ruas, pouco diferente. O silêncio é cortante. As lojas de souvenires estão fechadas, não há turismo. São de facto tempos singulares. Chegamos a uma quarta-feira e não há tempo a perder. Também o Parlamento Europeu está despido de gente, e agora sim, conseguimos olhar para o que nos rodeia com mais atenção: há um café colorido que costuma estar apinhado mas onde agora faz sentido entrevistar a eurodeputada Sara Cerdas. Mas ainda não é com ela que vamos conversar. Aguardamos mais um pouco… Chrysoula Zacharopoulou está atrasada e quando chega traz assessores e uma generosa dose de nervos e inquietação. É médica, ativista, voluntária, feminista. Não tem carreira feita na política, e por isso, ainda não se habitou a falar à imprensa internacional. Pede para falar em francês mas no fim da entrevista já lhe acrescenta o inglês, os sorrisos e o encanto que tinha guardados. Parece-nos relevante recuperar agora dois dos seus comentários mais pertinentes: a vacina já não serve apenas para travar o coronavírus, tornou-se num instrumento político; e sobre a politica: é fundamental que respeite o tempo científico. 

Ainda sobre tempo e ciência: temos outra médica para entrevistar e é com ela que passamos metade do nosso segundo dia na Bélgica. A eurodeputada portuguesa Sara Cerdas chega de bicicleta ao Parlamento, recebe-nos no seu gabinete e conta com uma equipa de assessores jovens madeirenses. Estiveram alinhados desde início com as nossas ideias e procuraram colaborar no desejo de fugir às imagens habituais que vemos das instituições. A entrevista é feita em dois momentos distintos, no tal café, e depois num jardim. Em ambos, é notória a preocupação constante em garantir coordenação e coesão na resposta dos sistemas à pandemia por parte da também presidente do grupo de trabalho em saúde do Parlamento.

Falta-nos ouvir a comissária com a pasta da saúde, Stella Kyriakides. Mostrou sempre vontade de garantir a entrevista mas nunca presencial. As medidas são muito restritivas na Comissão - cenário diferente no Parlamento, e por isso acabou por ser feita por Skype e já na redação da TVI. É um testemunho que não compromete. Preparado, otimista e orientado para os esforços que os Estados-membros estão a fazer para assinar acordos com farmacêuticas, assegurando assim que tudo está a ser feito para que não haja atrasos. Temos algumas vacinas muito perto de uma autorização de emergência e a Europa não pode falhar.

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Episódio 2

TVI procurou respostas sobre a vacina contra a covid-19 em quatro países, numa grande reportagem de dois episódios.

Neste segundo episódio, a equipa de jornalistas da TVI continua a longa viagem em Portugal, e recupera a história do primeiro português infetado com a covid-19, .

"Imunidade" é um trabalho de Filipe Caetano e Inês Tavares Gonçalves, com imagem de Miguel Bretiano e de Tiago Euzébio, e edição de imagem de Pedro Guedes.

Filipe Caetano e Inês Tavares Gonçalves