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O processo Marquês em 10 figuras

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Processo Marquês: Granadeiro não vai ter depoimento de todos que chamou para o defender

São 146 volumes. Mais de 50 mil folhas, às quais se juntam 4.895 entregues na fase de instrução. O processo Marquês abalou todo o regime, expondo uma alegada teia de favorecimentos e corrupção que atravessa o Governo, a banca e a construção civil, passando por aquela que chegou a ser a maior empresa estatal.

Na tarde de sexta-feira, pela boca do juiz Ivo Rosa, o país vai saber quem, dos 28 arguidos, segue para julgamento e por que crimes.

Reunimos dez dos mais relevantes rostos do processo, cuja história ajuda a desvendar a cortina de fumo e as operações tentaculares que terão lesado o Estado em dezenas de milhões de euros.

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José Sócrates

1. José Sócrates

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José Sócrates

"Sr. Procurador, devo dizer que estou profundamente chocado, profundissimamente chocado com tudo isto. Nunca vi tanta mentira junta" - Sócrates durante o 3.º dia de inquirição no âmbito do processo Marquês, 2019

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No centro de tudo está José Sócrates. O antigo primeiro-ministro e líder do Partido Socialista está acusado de 31 crimes de corrupção passiva, branqueamento de capitais, falsificação de documentos e fraude fiscal, que lhe são imputados entre 2006 e 2012.

A investigação centra-se em diversas peças-chave, como as alegadas “luvas” pagas a Sócrates pelo Grupo Lena, pelos accionistas do empreendimento de luxo de Vale do Lobo e pela Espírito Santo Enterprises (o chamado saco azul do GES).

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O momento da detenção: como tudo aconteceu

O momento da detenção: como tudo aconteceu"

No âmbito da investigação, José Sócrates chegou mesmo a estar preso durante mais de nove meses. 

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26 FOTOS

"As fotos da detenção de Sócrates

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De acordo com a acusação, liderada pelo procurador Rosário Teixeira, José Sócrates terá recebido um total de 23 milhões de euros, transferidos da Suíça para Portugal ao abrigo  Regime Excecional de Regularização Tributária - criado pelo próprio, em 2005 -, em nome do empresário Carlos Santos Silva, amigo de longa data. 

A operação “Marquês” fez cheque ainda à Portugal Telecom. Sócrates terá sido pago para garantir o apoio aos interesses do BES naquela que era a maior empresa do Estado na altura.

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José Sócrates em entrevista exclusiva no Jornal das 8

José Sócrates em entrevista exclusiva no Jornal das 8"

Depois de ter sido posto em liberdade, em 2015, Sócrates deu uma entrevista no Jornal das 8, onde reiterava a sua inocência e sublinhava que a acusação tinha contornos políticos.

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Ricardo Salgado

2. Ricardo Salgado

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O antigo “Dono Disto Tudo” está acusado de 21 crimes de corrupção ativa, branqueamento de capitais, falsificação de documentos, fraude fiscal e abuso de confiança. A sua entrada no processo “Marquês” é simbiótica aos seus interesses na PT.

De acordo com a acusação, o Grupo Espírito Santo distribuiu luvas para manter a influência nos destinos da PT, de que era accionista. Para além do dinheiro alegadamente entregue a Granadeiro e a Bava, terão sido enviados 2 milhões de euros para o braço direito de Lula da Silva, José Dirceu, e ainda 22 milhões para Sócrates, através do amigo Carlos Santos Silva.

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Operação Marquês: patrão do BES fala do "Diabo" por conta dos milhões transferidos

"Isto foi o diabo"

O ex-presidente do BES, interrogado pelo procurador Rosário Teixeira, terá dito uma das frases deste processo: que não há outra explicação senão o “diabo” para a coincidência entre as transferências bancárias do GES e os momentos mais decisivos na história da PT.

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Perante as acusações, disse ainda que mal conhecia Santos Silva e que nunca foi íntimo de José Sócrates, ainda que o antigo primeiro-ministro tenha marcado cinco encontros com Ricardo Salgado entre 2008 e 2010.

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O perfil de Ricardo Salgado, que chegou a ser o "dono disto tudo"

A acusação do Ministério Público sobre o colapso do Grupo Espírito Santo demonstra como Ricardo Salgado influenciava quase tudo no país. É o homem a quem ninguém conseguia dizer não.

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Henrique Granadeiro (Lusa/João Relvas)

3. Henrique Granadeiro

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O antigo administrador da PT, tal como Zeinal Bava, terá sido a porta de entrada de Ricardo Salgado, antigo homem-forte do BES, no processo. O ex-banqueiro terá pago quase 50 milhões de euros para que Bava e Granadeiro tomassem decisões na empresa de telecomunicações consonantes com os interesses do Banco Espírito Santo.

A acusação acredita que os antigos administradores, tal como Sócrates, tenham sido corrompidos no sentido de fazer com que a OPA da Sonae à PT falhasse e possibilitar a venda das participações da PT na Vivo à Telefónica e simultânea entrada da PT na Oi.

No total, Bava terá recebido 25,2 milhões de euros (em 2016 devolveu 18,5 milhões) e Henrique Granadeiro alegadamente faturou 22.364.567 milhões de euros.

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Processo Marquês: Henrique Granadeiro nega que tenha sido corrompido por Ricardo Salgado

Granadeiro nega que tenha sido corrompido por Salgado

A defesa do arguido nega que o administrador tenham atuado em conluio para beneficiar os interesses do BES.

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Carlos Santos Silva

4. Carlos Santos Silva

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Carlos Santos Silva

Eu conheço o engenheiro Carlos Santos Silva desde a minha juventude, somos amigos há quarenta anos, ele é o meu melhor amigo fora da política, e como já disse é uma pessoa honesta" - Sócrates em entrevista à TVI, 2015.

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Sócrates e Carlos Santos Silva são amigos desde os tempos da escola

O amigo "altruísta" de há mais de 40 anos

O empresário Carlos Santos Silva foi o rastilho que mais tarde culminou na explosão “Marquês”. Amigo há mais de 40 anos de José Sócrates, foi apanhado na operação Monte Branco, por suspeita de fraude fiscal e branqueamento de capitais, que viria a originar o processo mais mediático da história da república.

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Diz a acusação que Carlos Santos Silva comprou três casas à mãe do antigo primeiro-ministro e financiou à ex-mulher de Sócrates a aquisição de um monte no Alentejo.

Além disso, comprou um apartamento em Paris, onde Sócrates habitou, emprestou dinheiro a amigas do antigo primeiro-ministro e adquiriu milhares de exemplares do livro “A confiança no Mundo”, escrito pelo ex-líder socialista.

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De onde vinha o dinheiro que Sócrates terá recebido?

Os milhões que ligam Santos Silva, Sócrates e o Grupo Lena

Veja como a teia de influências liga as personsagens-chave no processo Marquês

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Carlos Santos Silva era prestador e vendedor de serviços do Grupo Lena, também visado na investigação. A tese do Ministério Público é que a proximidade terá rendido mais de 200 milhões de euros em contratos entre o Estado e o grupo de engenharia e construção.

Já Sócrates garante que todo o dinheiro recebido por Santos Silva foram empréstimos, uma versão rejeitada taxativamente por Rosário Teixeira, que diz que se assim fosse não existiria razão para Sócrates usar códigos para se referir às quantias monetárias que alegadamente ia recebendo. É que, em vez de dinheiro, o antigo primeiro-ministro fala em “aquilo”, “fotocópias”, “livros”.

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Armando Vara

5. Armando Vara

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Armando Vara está preso desde janeiro de 2019, condenado no processo Face Oculta, mas o ex-ministro socialista e antigo administrador da Caixa Geral de Depósitos responde por cinco crimes no processo “Marquês”: corrupção passiva de titular de cargo político, dois crimes de branqueamento de capitais e dois crimes de fraude fiscal qualificada.

O Ministério Público afirma que o ex-administrador da Caixa recebeu um milhão de euros para favorecer o empreendimento de Vale de Lobo, sujeito a buscas pela Polícia Judiciária. A defesa diz que estes rendimentos eram  provenientes da sua atividade liberal, "como consultor", e que foram auferidos antes de o antigo governante ser nomeado para a administração.

Armando Vara terá ainda montado um esquema, com base numa sociedade offshore na Suíça, para esconder valores de proveniência ilícita.

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Armando Vara diz ser vítima do juíz Carlos Alexandre

Vara acusa juiz Carlos Alexandre de vingança

Em entrevista à TVI, Vara afirmou que foi vítima de uma perseguição criada por Carlos Alexandre.

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Hélder Bataglia

6. Hélder Bataglia

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A acusação diz que Sócrates acumulou 24 milhões de euros em três anos na Suíça, sendo que o ex-primeiro ministro recebeu pagamentos determinados por Ricardo Salgado com a mobilização de quantias oriundas de entidades em "offshore" que pertenciam ao Grupo Espírito Santo.

Uma das verbas, seis milhões de euros, terá sido entregue a Sócrates como pagamento por ter ajudado a influenciar a queda da OPA da Sonae à PT. Esse dinheiro terá sido intermediado pela Escom, que pertence ao universo do GES e que era presidida por Hélder Bataglia.

Bataglia controlava ainda várias sociedades offshore que terão sido responsáveis por, entre 2007 e 2009, entregar mais de 12 milhões de euros provenientes do GES a José Sócrates.

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Operação Marquês: defesa de Bataglia garante que não houve delação premiada

Operação Marquês: defesa de Bataglia garante que não houve delação premiada"

Durante o processo, Hélder Bataglia foi ainda acusado por Santos Silva de ter aceite um acordo “manhoso”, uma espécie de delação premiada, com o intuito de fazer cair por terra as suspeitas de corrupção e o mandado de captura internacional. A defesa de Bataglia nega.

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Juiz Carlos Alexandre

7. Carlos Alexandre

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O juiz Carlos Alexandre herdou a fase de inquérito da Operação Marquês em setembro de 2014, sendo um dos dois juízes ao serviço do Tribunal Central de Instrução Criminal. A escolha foi realizada manualmente e esteve envolta em polémica.

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Notícia TVI: atribuição da Operação Marquês a Carlos Alexandre em 2014 sob investigação

Conselho Superior de Magistratura averiguou a atribuição do Caso Marquês a Carlos Alexandre

No decurso desta controvérsia, a TVI soube em primeira mão que o Conselho averiguou a atribuição do caso a Carlos Alexandre, em 2014, e que o juiz foi ouvido neste âmbito.

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No entanto, o órgão de gestão dos juízes entendeu que não houve irregularidade na escolha. Uma decisão que foi também uma derrota para Sócrates e Vara que esperavam anular a Operação Marquês.

 

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Operação Marquês: juiz Carlos Alexandre questionou sorteio

Operação Marquês: juiz Carlos Alexandre questionou sorteio"

As polémicas não pararam ali, Carlos Alexandre foi ainda alvo de um inquérito por ter levantado dúvidas sobre a atribuição da fase de instrução do processo ao juiz Ivo Rosa.

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Ivo Rosa

8. Ivo Rosa

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O juiz Ivo Rosa está encarregue da fase de instrução do processo Marquês desde 2018. É também o juiz no centro do processo das rendas excessivas da EDP, que está há cerca de oito anos em investigação e que tem como arguidos António Mexia e João Manso Neto, tal como o processo “O Negativo”, que envolve Lalanda de Castro - ex-administrador em Portugal da Octopharma onde Sócrates trabalhou -  e Cunha Ribeiro.

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Carlos Alexandre e Ivo Rosa: dois juízes, dois estilos

Carlos Alexandre e Ivo Rosa: dois juízes com dois estilos diferentes

Veja no vídeo como as únicas semelhanças entre os dois juízes é o facto de terem começado a carreira com 26 anos e ambos terem origens humildes.

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Procurador Rosário Teixeira

9. Rosário Teixeira

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Rosário Teixeira

“O Sr. engenheiro diz o que quiser sobre essas coisas e no final fazemos contas”. - Rosário Teixeira durante a semana de interrogatório na fase de instrução

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Jorge Rosário Teixeira é o procurador do processo Marquês e não é esquisito a casos iluminados pelos holofotes da comunicação social. Foi responsável pela investigação a Duarte Lima e esteve, juntamente com Carlos Alexandre, no centro da detenção de Isaltino Morais. 

A troca de acusações entre Sócrates e o procurador já não é pouco comum, com o antigo primeiro-ministro a afirmar que Teixeira “desistiu da acusação. Jogou a toalha ao chão. Refugiou- se em ilusionismos”.

Já Rosário Teixeira descarta motivações pessoais no processo e, durante o interrogatório na fase de instrução afirmou que é no final que se “fazem as contas”.

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José Sócrates fala em "motivação pessoal" do Ministério Público

Sócrates fala em "motivação pessoal" de Rosário Teixeira

O ex-primeiro-ministro José Sócrates classifica de “infeliz e imprópria” a postura do procurador Rosário Teixeira e pede que ele se retrate.

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João Perna

10. João Perna

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José Sócrates

Rebentava com o dinheiro todo com a vida que tinha. Emprestava também muito dinheiro” - João Perna sobre José Sócrates numa entrevista concedida ao Correio da Manhã, 2019

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João Perna assumiu o cargo de motorista de Sócrates após o socialista ter perdido as eleições e, sobre ele, recaem suspeitas de servir de correio e de fazer chegar avultadas quantias de dinheiro ao antigo primeiro-ministro.

A imprensa também noticiou que o motorista viajava frequentemente de automóvel para Paris, com o intuito de entregar dinheiro vivo a Sócrates. Uma acusação que terá como base escutas, mas que foi desmentida pelo advogado.

O motorista foi detido em novembro de 2014 e libertado em fevereiro de 2015, tendo sido obrigado a apresentar-se periodicamente à polícia. É acusado de um crime de branqueamento de capital e de outro de posse de arma proíbida. 

Numa entrevista ao Correio da Manhã, conta como uma das suas tarefas era pagar as contas de Sócrates e sublinha que o patrão “rebentava com o dinheiro todo com a vida que tinha. Emprestava também muito dinheiro”.

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Operação Marquês: decisão instrutória vai ser conhecida na sexta-feira

Decisão instrutória conhecida esta sexta-feira

Seis anos depois, o juiz Ivo Rosa marcou para sexta-feira a leitura da decisão instrutória, pela qual se vai saber quem vai a julgamento e por que crimes fica pronunciado. 

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Às 19 pessoas/arguidas foram imputados 159 crimes, de um total de 189, nomeadamente corrupção passiva e ativa, branqueamento de capitais, falsificação de documento e fraude fiscal qualificada, falsificação de documento, abuso de confiança e peculato e posse de arma proibida. As empresas estão acusadas de corrupção ativa, branqueamento de capitais e fraude fiscal qualificada. Todos os arguidos e crimes AQUI.

(Dossier por Henrique Magalhães Claudino, com contributos de Cláudia Rosenbusch, Patrícia Pires e Inês Pereira)