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Palestina: o confinamento dentro do confinamento

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É considerada por muitos a maior prisão a céu aberto do mundo e já regista os primeiros casos de infetados por Covid-19. Dois milhões de palestinianos sobrevivem encurralados por arame farpado na faixa de Gaza e mais de três milhões vivem cercados de muro na Cisjordânia.
Para eles estar confinado não é novidade: há décadas que lhes rejeitam uma casa, um país.

 

Reportagem | André Carvalho Ramos

 

O olhar atento de uma criança palestiniana revela-lhe os medos. Estar confinado é-lhe natural porque sempre viveu assim, aparentemente não é isso não lhe provoca angústia. Ele e o pai só sabem o que é viver de outra forma pelas palavras dos mais velhos e pelas muitas histórias que lhes contam sobre a juventude e a Palestina livre. Quando nasceram, o território há muito que estava ocupado e milhares de palestinianos já tinham sido arrancados de casa. Mais de 700 mil, segundo as Nações Unidas, fugiram ou foram expulsos dos seus lares por causa da guerra com Israel. Quase 500 aldeias foram destruídas e apagadas do mapa pelo exército israelita. A ordem era «fujam de casa!». O Nakba, como ficou apelidado o grande êxodo palestiniano, marcou o início de uma crise humanitária que, mais de 70 anos depois, ainda perdura e agora pode agravar-se com a pandemia. O olhar atento desta criança, durante um casamento, é espelho disso. Mais do que o muro que os rodeia, aquilo que este rapaz mais estranha é como é que o vírus conseguiu saltar através dele.

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FOTOGRAFIA Mohammad Silwadi

A família decidiu manter a festa. Um casamento durante um período de confinamento, mesmo na Palestina, traz restrições. O noivo segue de máscara durante a celebração, a noiva não. Segue, guiada pelo homem, de cara tapada. Saif Aldeen conta-nos que o casamento até correu melhor do que aquilo que esperava. O noivo não se importou de usar máscara o tempo todo, “pelo menos estava protegido”. Agora, há restrições impostas pelo governo palestiniano e Saif, o jovem da aldeia de Silwad, perto de Ramalá, quer cumpri-las. Tiveram problemas a organizar tudo porque não havia acesso a muitas coisas de que precisavam e revela alguma tristeza porque só alguns podiam estar presentes. “Foi triste para nós e para as nossas famílias e amigos que não puderam estar connosco”. Em entrevista à TVI, o recém-casado palestiniano desabafa que teve de tomar decisões difíceis, mas no final o que importa não faltou. “Tivemos de cancelar tanta coisa. Cancelámos a lua de mel e o grande casamento que tínhamos planeado. Fizemos uma festa pequena, mas cheia de amor. Estamos a passar a lua-de-mel em casa”.

 

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FOTOGRAFIA Mohammad Silwadi

A alguns quilómetros a sul, em Jerusalém, mesmo colada ao muro israelita, Siham Kurd está em casa a tentar falar com a filha que vive na faixa de Gaza. Mesmo que por milagre tivesse autorização, não conseguiria sair de lá. Os checkpoints fecharam, mas, mesmo assim, o vírus conseguiu entrar. Até meados de março era o único sítio no médio oriente onde a Covid-19 ainda não tinha chegado, talvez devido ao confinamento militar de Israel que já dura desde 2007. Mesmo assim, fala-se já em 10 casos de infetados. Não se sabe ao certo, a informação é pouca ou nenhuma. Para Siham, é mais uma de muitas preocupações. Além da filha, a neta, com pouco mais de um ano, também lá vive.

 

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FOTOGRAFIA Mohammad Silwadi

Siham não pode abraçar a filha, mas isso não é de agora. Quem lhe retirou esse afeto não foi a pandemia. A internet é fraca, mas por agora chega para consolo. Recebe meia dúzia de fotografias do interior de Gaza. Sexta-feira, 3 de abril, é dia de os poucos mercados que existem fecharem e uma oportunidade única de sair à rua. Apesar de já haver infetados, dezenas de habitantes de Gaza vão até às praias aproveitar um raro dia sem bombardeamentos, as fotografias a que a TVI teve acesso confirmam-no. Parece um dia normal, um pôr do sol normal, um país normal. “Estamos numa base diária a telefonar-lhes e eles a telefonarem-nos. Estão a viver, entre aspas, as suas vidas «normais», entende? A vida sob ocupação”, diz-nos Abdullah Kurd, marido de Siham, enquanto aguarda mais novidades da enteada.

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Quarentena na Palestina

Exclusivo: fotografias da Faixa de Gaza

 

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Uma catástrofe em Gaza

Já há casos confirmados de infetados por Covid-19 em Gaza, só não se sabe com certeza quantos serão. Para a Medical Aid for Palestinians (MAP), há 30 anos no terreno a prestar apoio neste território, é um “marco aterrador”. O médico Aimee Shalan diz-nos que os palestinianos não podem ser abandonados e deixados sozinhos a lutar contra esta doença. “Nunca esperámos que este momento chegasse, o contágio desta pandemia pode causar um sofrimento humanitário sem precedentes que apenas a ajuda internacional pode prevenir”. Gaza é um dos lugares com maior densidade populacional do mundo e, apesar de isolado dele, o vírus conseguiu entrar e aqui o confinamento será pouco eficaz. Se ter a água potável é um desafio, garantir cuidados básicos de higiene ou distanciamento social são um objetivo praticamente impossível de cumprir. O controlo de infeções está seriamente comprometido, não há infraestruturas, não há equipamentos essenciais, não há medicamentos nem… médicos ou enfermeiros. O sistema de saúde em Gaza praticamente não existe e aquele que conseguiu resistir às ofensivas de Israel há muito que rebentou pelas costuras a tratar os feridos de guerra. Um surto generalizado de coronavírus tem aqui terreno livre para se expandir, ao contrário daqueles que aqui vivem.

FOTOGRAFIA Medical Aid For Palestinias

A MAP está a tentar enviar diretamente para duas escolas em Gaza 200 kits que serviriam entre 800 a 1200 pessoas. Porém, foram todos confiscados pelo governo israelita: metade foi enviada para centros de quarentena, a outra metade enviada diretamente para o ministério da Saúde onde ficará retida. Pelo menos 350 pessoas estão em quarentena em Gaza, nos próximos dias a expectativa é que este número possa aumentar para 850. Abdullah conta-nos que pouco ou nada mudou desde o início do surto. “Em Gaza, as pessoas estão a viver as suas vidas «normais», entre aspas. Todas as lojas estão abertas, os mercados estão abertos. Só as escolas fecharam, por causa de uma ordem do governo em Ramallah. Posso dizer que em Gaza está tudo na mesma. Nem usam máscaras”.

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Quarentena na Palestina

“Ainda podemos sair de casa, mas na verdade
não podemos ir a lado nenhum”

Viver confinado dentro de casa não o assusta, para Abdullah Kurd o verdadeiro confinamento é o do muro. Percorre-o vezes sem conta, no seu táxi, o único ganha-pão da família. O vírus trouxe uma aparente trégua, sente-se uma diminuição da tensão entre palestinianos e o exército israelita. Mas Abdullah já transportou muita gente, fez muitos quilómetros dentro e fora do muro e não se deixa enganar. “Os checkpoints estão vazios… Dá-nos a sensação de menos violência, mas é porque os palestinianos não passam”, adianta. O habitual, por aqui, era haver filas de trabalhadores palestinianos logo de madrugada para tentar passar os checkpoints e atravessar para o lado israelita para ir trabalhar. Podiam ter sorte, podia demorar horas, poderiam não conseguir passar nesse dia para, simplesmente, ir trabalhar e ganhar dinheiro. Até isto mudou com a chegada do novo coronavírus. “Agora, só os médicos ou israelitas passam. Palestinianos? Não passam nenhum”, diz-nos este taxista palestiniano, sem nos relembrar que a isso, a bem ou mal, já estão acostumados. “Nós estamos habituados a, de alguma forma, ficar em casa. A diferença é que, desta vez, as coisas estão a ser mais estritas sobre o confinamento. Em breve, os israelitas não vão deixar ninguém sair de casa”.

A verdade é que nem em casa estão em local seguro. Só em março, já com a pandemia no país, 292 palestinianos foram detidos, 17 deles crianças e três mulheres, avança o Centro de Estudos Israelo-palestinianos Al-Quds. Quase metade destas detenções foram feitas dentro das próprias casas. Estes raids já são habituais pelo exército de Israel e não parecem abrandar. O diretor do Centro Al-Quds, Rola Hasanein, assegura que “a ocupação israelita com ataques diários e campanhas de detenção em territórios palestinianos coloca vidas em riscos. Aqueles que são presos ficam em condições sem o mínimo de segurança e sem qualquer proteção para o novo vírus”.

Parece que todos os palestinianos temem nesta altura as consequências de ficar em casa. Para muitos por mesmo ser uma sentença. “As coisas estão difíceis, é verdade. O negócio diminuiu 99%. Eu dependia do transporte de pessoas daqui de Jerusalém para Gaza, para aeroporto em Telavive ou para a fronteira com Jordânia”, explica-nos o taxista, há dias em casa sem receber um tostão. Está tudo parado, escolas fechadas, negócios encerrados. “Não tenho trabalho. Posso andar por aí de carro à procura de pessoas, mas para quê?”, a pergunta retórica feita numa conversa áudio através do Whatsapp adivinha uma reposta que vem segundos depois com uma nova pergunta: “vou gastar o meu gasóleo para nada?”. Numa fase como esta, há mais dúvidas do que certezas e, quando as perguntas se respondem sozinhas, há sempre lugar a novas questões. Isso pode significar mais ansiedade do que aquela que uma família pode aguentar e mais tempo do que Abdullah e Siham podem ficar sem receber dinheiro. Para eles, ficar em casa pode significar perdê-la. O que ainda vai salvando os dias é receber, por vezes, “chamadas para fazer algumas viagens curtas que sempre dão para comprar comida ou cigarros”, desabafa.

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O ataque onde dói mais

Israel parece não ter travão durante a pandemia. Na zona norte da Cisjordânia, foram confiscadas e destruídas estruturas que iriam servir de clínica para tratamento de infetados. Um jeep militar, uma retroescavadora e dois camiões chegaram a Ibziq e num instante deitaram por terra aquilo que poderia vir a ser salvação de uma comunidade inteira se o vírus chegar em força. Oito tendas, quatro anexos de isolamento e duas mesquitas improvisadas. Além disso, os militares levaram também um gerador de energia, sacas de areia e cimento e quatro paletes de tijolos que iriam ampliar a capacidade de resposta da comunidade palestiniana de Khirbet. Nada ficou de pé.

Enquanto o mundo se concentra no combate ao novo coronavírus, Israel continua discretamente a sua política de anexação de partes do território palestiniano. O objetivo é esmagar as condições de vida, tornando a habitabilidade destes sítios intolerável e praticamente impossível, de forma a que os palestinianos não tenham alternativa senão abandonar as suas casas e suas terras. Assim feito, expropriar partes do território ficará mais fácil, apesar dos vários avisos da comunidade internacional. Continuar esta política de anexação fará desaparecer definitivamente a possibilidade de a Palestina ser considerada um Estado. Um crime degGuerra, chamou-lhe assim o embaixador Palestiniano nas Nações Unidas. Cada demolição é um passo contrário à autodeterminação do povo palestiniano e durante o surto de Covid-19 as suas casas continuam a ser destruídas a um ritmo incessante. Quem se opuser é considerado inimigo e ninguém é poupado.

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Quarentena na Palestina

Sem condições para tratar os doentes do novo coronavírus, surgem ainda novos desafios. “Outro grande problema para nós são os trabalhadores palestinianos que trabalham em Israel e voltam para a Palestina, muitos deles estão infetados com coronavírus”, avança à TVI Mohammed Masalmah, um jornalista palestiniano que está a acompanhar as notícias do surto. Mais de 100 pessoas já estão infetadas na Palestina e há cerca de 5 mil casos suspeitos. As autoridades acreditam que vêm infetados do outro lado do muro. “Se olhar para as estatísticas temos muito menos casos do que os israelitas. Todos esses trabalhadores palestinianos que trabalham em Israel voltam para a Palestina e passam a doença. Voltam para a sua casa, vêm infetados e infetam as suas famílias”, conta Abdullah Kurd, o taxista que trabalha em ambos os territórios.

O vaivém de trabalhadores agora tem peso diferente, além daquele a que milhares de palestinianos já se submetiam ao passar o checkpoint militar. “Existe um medo óbvio nos rostos dos trabalhadores que vêm e vão trabalhar em Israel, muitos de seus locais de trabalho não se comprometem com protocolos de prevenção e deixam-nos a dormir em locais sem preparação para conter o surto e sem condições higiene”, conta-nos o fotógrafo Mohammad Silwadi, que registou a ida para o trabalho de alguns destes palestinianos. “O que mais nos assusta no coronavírus é sua ampla e rápida disseminação que pode atingir um nível incontrolável. Israel é uma ameaça, pois facilita o movimento ilegal de muitos trabalhadores que representam um perigo com via de entrada da pandemia na Palestina”.

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FOTOGRAFIAS Mohammad Silwadi

A lente do fotógrafo Mohammad Silwadi regista um dia a dia diferente daquele a que estão habituados. Silwadi desabafa que o último toque de recolher para os palestinos foi na Segunda Intifada, pela ocupação israelita. “Nós, palestinianos, somos obrigados a aceitar as decisões da ocupação, do confinamento. A quarentena é diferente, é um período difícil da nossa vida, mas somos nós que temos de nos isolar por nossa iniciativa, apesar de não nos acostumarmos a ver as ruas vazias”. Silwadi fotografa tudo o que pode como registo histórico de uma pandemia que obriga a um confinamento dentro do confinamento. Apesar continuarem debaixo de uma ocupação, visível na paisagem recordada pelo muro de Israel, desta vez o confinamento tem um fim diferente para este povo: poupar vidas e não destruí-las.

André Carvalho Ramos