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Senhor Traveca

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Reportagem Emanuel Monteiro | Imagem João Franco | Edição de Imagem Miguel Freitas

Bruno, José e Ricardo são Camel Toe, Rebecca Bunny e Luna. Homens à claridade do dia, mulheres entre as luzes da noite. 

“Senhor Traveca” conta a história de três pessoas que escolheram uma profissão e um modo de vida que rompe com os padrões de género e que colide com muitos dos costumes da sociedade portuguesa.

São transformistas, travestis ou drag queens.

Ao longo de anos consecutivos, foram discriminados, vítimas de violência e alguns rejeitados até por aqueles que mais amam, a família.

Hoje, acreditam ter vencido a luta contra muitos preconceitos e são um modelo inspirador para milhares de pessoas.

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Repórter TVI: "Senhor Traveca"

"Senhor Traveca"

Repórter TVI

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O Nascimento de “Senhor Traveca”

Corria o ano de 2016. Lá fora, estava um frio de rachar. Junto ao palco, para cima de 30 graus, clima digno de país tropical: calor, humidade e ar rarefeito. Não havia ninguém que não quisesse estar na primeira fila, tal e qual o concerto de uma estrela pop. Na verdade, era uma estrela, só não era pop, era drag. Às duas e meia da manhã, a sala aplaudiu, gritou: entra em palco Rebecca Bunny, mulher não só pelo nome. A maquilhagem, o cabelo, a roupa, as formas do corpo, aquele jeito de miúda bailarina com 20 e poucos anos. Qualquer um sairia dali convencido de que aquela era uma mulher, não fosse o facto de todos saberem que estavam num espetáculo drag, de transformistas, em português, ou travestis (termo que praticamente já não se usa por estar conotado com sentidos negativos).

Rebecca Bunny (José Coelho) na discoteca onde dá espetáculos todas as semanas

O espetáculo é uma espécie de tudo ao mesmo tempo, um fogo de artifício na passagem de ano. Ela dançava, interagia com o público e às vezes posava, só, para que aquelas centenas de pessoas a pudessem contemplar. Sempre com um leque, afinal na sala estavam para cima de 30 graus.

A força da imagem de uma drag queen é o que mais atrai o público

A imagem de tudo aquilo era forte, marcante, cheia de cor e contraste, ideal para televisão. Só faltavam as histórias: os pilares, os elos e argamassa para uma obra que poderia ser perfeita, inevitavelmente polémica. Não tardaram a chegar, cada uma melhor do que a outra: infâncias complicadas, ataques de homofóbicos, pais que expulsavam os filhos de casa. Mas todas elas com um desfecho inspirador: a vitória depois de anos de luta contra quase uma sociedade inteira, contra aquilo que muitos diziam ser para homem, para mulher, contra aquilo que era certo ou errado, de acordo com o sexo. Estes homens conseguiram passar a ser o que querem, de uma forma livre. Homens, biológicos, com orgulho, com uma vida normal. Personagens femininas ao fim-de-semana, ou à noite. Assim nasceu “Senhor Traveca”, ou melhor, assim nasceu a reportagem. “Senhor Traveca” faz parte de umas histórias destes homens. Bruno Cunha ou Camel Toe que, depois de muito tempo a ouvir insultos na rua - “Olha a traveca, ó traveca!”, resolveu desconstruir o insulto e devolvê-lo a quem lho atirava: “Para ti não é traveca, é Senhor Traveca, percebeste?!”. O título é o melhor exemplo de como estes homens, hoje, estão bem com aquilo que são, e sobretudo com a profissão e arte que escolheram exercer.

José Coelho caracteriza-se em casa e hoje não tem receio de sair à rua como Rebecca Bunny

 

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As mães dos “Senhores Travecas”

A reportagem mostra, sobretudo, o que é a arte do transformismo: como estes homens se preparam, como fazem os espetáculos, como chegaram até onde estão. A verdade é que ligado a tudo isso, está a família. Um tema sensível, muitas vezes, indesejado.

Ricardo Magalhães, Bruno Cunha e José Coelho

Convencer as mães a falar para câmaras de televisão sobre os filhos parece uma tarefa quase sempre fácil: é o orgulho, o amor por aqueles que pariram. Mas quando os filhos têm uma profissão pouco comum, que mexe com os padrões de género, com a virilidade a que a figura masculina parece obrigada, o caso muda de figura.

Nesta reportagem, duas mães aceitam dar a cara. Teresa e Fátima. As duas têm um testemunho marcante e oposto. Teresa é a mãe guerreira, incansável, que já “passou por muito e não deseja o mesmo a ninguém”. Foi ela que ajudou o filho a descobrir que não era transexual e foi ela também que o ajudou a perceber que o transformismo seria o final feliz para Ricardo. É uma mãe como serão poucas: depois de ver o filho tão feliz em cima do palco, foi ela que lhe comprou todo o material necessário para iniciar a carreira, aliás, ainda hoje compra, e conta uma história que, apesar de não estar documentada na reportagem, resume o que é Teresa para este filho.

Teresa Ferreira, mãe de Ricardo Magalhães (Luna)

 “Quando o Ricardo começou a fazer espetáculo, eu quando ia ao supermercado, levava 50€. Mas até lá chegar havia uma boutique de roupa de mulher. Eu parava para ver a montra, entrava e começava a comprar roupa para a Luna (a personagem criada por Ricardo). Eu sabia o número que ele vestia, e comprava-lhe imensa roupa. Eu sabia que ele ia ficar feliz, e eu também ficava. A verdade é que quando chegava ao supermercado, já tinha gasto o dinheiro. Então, já não comprava o bife de vaca bom, comprava frango, também servia. Fiz tudo isto com gosto, com orgulho e não me arrependo”.

Teresa vai mais longe. Esta mãe, com 60 e poucos anos, confessa: “Chego a sentir que tenho a filha que nunca tive”.

Fátima é a outra mãe que dá a cara na reportagem. Mulher do norte, de Vila do Conde. Dona de uma conhecida rede de lojas de sapatos. Mulher de fé, católica, catequista, ligada aos costumes da terra. Nunca viu com bons olhos aquilo que o filho decidiu fazer da vida. Aliás, quando as fotografias dos espetáculos começaram a rolar nas redes sociais e as gentes da terra a comentar a profissão de Bruno, ela convidou-o a sair de casa, “porque estava a estragar o ambiente da família”. O processo não foi fácil, não fosse Bruno dizer -  “Ai é para sair?! Eu saio…”. Bruno, saiu. Passaram alguns anos.

Hoje, o caso é diferente. Apesar de viverem separados, esta mãe e este filho já reataram a relação. A verdade é que ela continua a não compreender a escolha do filho e continua a temer “o futuro dele”.

Fátima é mãe de Bruno Cunha (Camel Toe)

Na primeira abordagem disse, que não queria falar para a televisão sobre o assunto. As chamadas do filho prepararam o terreno, as chamadas da TVI elucidaram. Mesmo que o testemunho fosse depreciativo ou desaprovador em relação à profissão do filho, era importante. E assim aconteceu: é uma mãe que ama o filho, mas que tem muitas reservas em relação àquilo que ele escolheu fazer, porque acredita que a cidade do Porto ainda não é uma cidade suficientemente “grande” para conseguir olhar com naturalidade para a arte do filho.

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Uma drag queen demora mesmo 5 horas a preparar-se?

José Coelho (Rebecca Bunny) demora 5 horas a caracterizar-se

Nem todas, mas a maior parte sim. O processo é longo, demorado e um trabalho de verdadeira minúcia (não é por acaso que o transformismo é considerado uma arte). Não é fácil um homem virar uma autêntica mulher (ainda assim, nem todos querem parecer-se exatamente com uma mulher, como é o caso de Bruno). Têm de aplicar base, fazer modelação à cara para criar traços mais femininos, têm de usar várias sombras, riscos, contornos, brilhos, purpurinas e ainda fixador de maquilhagem (que muitas vezes é laca de cabelo, para ser mais barato), afinal de contas, vão passar uma noite inteira em ambientes quentes, a dançar.

Conseguir um corpo feminino exige a colocação de espuma nas ancas e vários pares de collants

Depois, ainda vem a modelação do corpo – as esponjas para criar ancas, e meias para tudo ficar perfeito, como se de uma boneca de tratasse.

Quatro horas depois, às vezes cinco, estão prontas a sair à rua… e a responder a quem lhes chama “traveca” -  “Para ti, é Senhor Traveca, percebeste?”

Bruno Cunha (Camel Toe) após 5 horas de preparação para se transformar numa drag queen

 

Emanuel Monteiro