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Sobreviveram à Guerra e à travessia do mar, agora têm medo de morrer com Covid-19

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Refugiados

“Fiquem em casa”: Qual casa? Milhares de refugiados nas ilhas gregas estão presos em campos sem capacidade para responder à pandemia e, sem protocolos de segurança nem cuidados básicos de saúde, amontoam-se às centenas à espera de comida.

Sentem-se abandonados… outra vez.

 

Reportagem | André Carvalho Ramos

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Aqui vivem quase 20 mil, sabe-se lá como. O campo de Moria foi construído para uma capacidade máxima de três mil pessoas. Às sete da manhã há fila na porta de saída, pouco depois, fila para a comida, e, mais à frente, fila para os balneários. São às centenas os refugiados que se acumulam demasiado juntos para os dias de hoje e, certamente, de amanhã e não só. Manter superfícies limpas, desinfetar as mãos ou simplesmente evitar contacto social próximo, aqui, é impossível. Aqui, há uma torneira para cada 1500 pessoas e, por muito que a rodem, nos lavatórios a céu aberto, encostados aos contentores de lata onde dormem, a água não corre durante grande parte do dia. Também não há sabão. A única forma de estas crianças, mulheres e homens manterem as mãos limpas é esperar que os voluntários tragam de novo a barra de sabão branco e a bilha de água. Até lá, é contar apenas com a sorte. Não tocar na cara é tarefa difícil, sobretudo quando a pele se enche do pó da terra solta do campo.

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O lixo não é recolhido há dias. São os próprios refugiados que vão fazendo o que podem, ensacando o que é deixado no meio da rua. Aqui não é só a Covid-19 que tem terreno fértil para alastrar. Tapam a boca e o nariz com máscaras que protegem apenas do cheiro, são usadas e reutilizadas vezes sem conta. Aqui, material de proteção quase não existe e o contágio, assim, não tem travão. A Covid-19 já entrou na ilha de Lesbos. Uma refugiada de 76 anos morreu com o novo coronavírus, a filha e a neta também estão infetadas. Não se sabe quantos mais poderão estar infetados. É uma verdadeira bomba relógio até a pandemia se transformar num problema sério. Quem aqui vive tenta proteger-se, mas, vivendo numa tenda, o isolamento é praticamente impossível. Raed Alobeed, refugiado da Síria, antigo consultor para ambiente e saúde pública de uma petrolífera síria, está demasiado preocupado e não dorme há dois dias. “Há mulheres e crianças a fugirem do campo para a «selva»”, conta-nos. A selva, como ficou conhecido, é o terreno baldio à volta do campo de Moria para onde, agora, se esgueiram os mais frágeis, numa tentativa quase vã de escapar ao vírus. Pernoitam no meio de árvores, ao frio, mas acabam sempre por ter de voltar ao campo porque fora dele não têm água, nem comida, nem energia para carregar as baterias dos telemóveis.

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Da esperança ao medo: “Vamos ter um grande desastre”

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Deen Mohammad, farmacêutico, refugiado do Afeganistão, espalha cartazes com avisos. Cola-os com fita-cola nas paredes dos contentores e nas grades do campo. A ordem «fique casa!» aqui não faz sentido, a frase que escrevem é «fique no Campo!». Mohammad pede a todos que “evitem contacto com os gregos”, se o estigma e preconceito já existia na ilha, agora, pode tudo tornar-se ainda pior. “Estamos todos a viver num espaço pequeno, a nossa vida tem seguido com muitas crises e dificuldades, mas as pessoas aqui mantiveram a esperança de ter uma boa vida no futuro. Mas, por causa desta pandemia do coronavírus, esta esperança mudou para medo”, confessa. Aqui todos sabem que o pior pode mesmo estar para vir. “Se o coronavírus atacar neste campo, vai ser muito, muito mau e vamos ter um grande desastre”. Ainda não foram descobertos casos de infetados dentro do campo Moria, mas também não estão a ser feitos testes.

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As autoridades proibiram a entrada de todos os visitantes e ONG (Organizações não-governamentais) durante 14 dias. Os próprios voluntários, com o fecho de fronteiras, ficaram retidos na ilha de Lesbos. Shirin Emilie, da organização Stand By Me Lesbos, tinha um programa de desenvolvimento social com uma escola a funcionar num contentor. Foi desmantelada pelo governo grego porque não tinha uma casa de banho. O mesmo governo que, ironicamente, diz Shirin, agora, empurra agora milhares de refugiados de Moria para um amontoado sem condições mínimas de saneamento. “É uma situação muito má, as pessoas lá dentro não têm acesso a água, não têm eletricidade, não têm recolha de lixo há vários dias”, confirma esta voluntária. Estão presos lá dentro, depois de fugirem dos países de origem à procura de liberdade e asilo na Europa. Agora, são submetidos a uma pura negligência de saúde pública e direitos fundamentais. “Há muitas pessoas a quem os seus governos dizem para ficar em casa, mas há muitos que vão ficar para trás… como eles, no campo. O que está a conhecer agora é desumano, não é o que a Europa deveria ser. Foram postos ali para morrer”, conclui Shirin. E são cada vez mais.

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Nesta ilha a menos de dois quilómetros da Turquia, tudo se agrava com as novas chegadas. Desde que o governo turco decidiu abrir fronteiras e empurrar refugiados para fora do país, rompendo o acordo com a União Europeia, o fluxo de novas chegadas às praias de Lesbos aumentou. Junto a Skala Sikamineas, zona norte da ilha, começa a viver-se o mesmo desafio: barcos a chegarem constantemente vindos da Turquia. É reviver o passado, mas tem tempos de pandemia. Quando falta tudo, usar uma máscara de forma correta parece supérfluo. Mas não é.

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“Todos os dias são uma luta por água”

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Raed, refugiado sírio, é testemunha da falta que faz neste campo algo tão essencial como água para beber. A água que muitas vezes deixa de correr nas torneiras, quando há, é para beber. Pouco ou nada sobra para lavar as mãos. Em quase todos os dias, acumula-se desespero por este bem essencial. Quando chega ao campo, uma multidão engole literalmente o camião que traz um carregamento de água engarrafada. O distanciamento social, aqui, não existe e não é prioridade.

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Em Moria, há uma casa de banho para cada 300 pessoas. Omid, refugiado do Afeganistão, conta que “é muito mau, as casas de banho estão todas partidas. Há uma zona de lavagem de loiça, onde lavam as mãos, isto é horrível. São estas as condições sanitárias do campo.” Os residentes esperam até três horas por cada refeição. “Temos alguns pequenos mercados a funcionar ao lado de pilhas de lixo. Não há nenhuma iniciativa da autarquia para remover este lixo”, desabafa.

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Nos últimos dois meses, cinco pessoas perderam a vida. Uma delas, uma criança com pouco mais de um ano, morreu por desidratação. Manter estas 20 mil pessoas nestas condições poderá ser uma sentença de morte para grande parte delas, basta lembrar que no último inverno, muitos refugiados, incluindo crianças, morreram de frio. Mohammad faz parte de uma equipa de refugiados, a Moria Awareness Team, que tem feito o possível para prevenir um desastre dentro do campo, são já considerados os capacetes brancos de Moria. “Como na Síria!”, diz-nos Raed. Uma alusão aos capacetes brancos no país, uma organização de voluntários que, em plena Guerra Civil, resgata vítimas nos escombros dos bombardeamentos e presta cuidados médicos nas zonas mais perigosas do conflito, tendo salvo mais de 100 mil sírios. “Tentamos manter as nossas casas limpas, todos juntos, capacetes brancos e refugiados”. Hoje, a guerra, é contra um inimigo invisível: o novo coronavírus.

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Quem o diz é António Vitorino, diretor-geral da Organização Internacional das Migrações (OIM), numa entrevista exclusiva à TVI. “Desde o início da pandemia que a OIM deu prioridade aos campos e outras concentrações de migrantes e refugiados. Nesses locais a distância social é praticamente inviável. Logo a prioridade é a prevenção: sensibilização para medidas de higiene, reforço dos pontos de distribuição de água e de material desinfetante e de proteção pessoal”. Moria, em Lesbos, é o rosto, o epicentro o e símbolo da crise de refugiados na Europa, uma amostra de uma realidade que preocupa a OIM aqui por todo o mundo. “Basta pensar no milhão de Rojingyas em Cox’s Bazar, nos 900 mil debaixo de fogo em Idlib, nos dois milhões de deslocados no Iémen no meio de uma Guerra ou nos quase cinco milhões de venezuelanos nos países vizinhos para medir a dimensão do desafio...”, confessa António Vitorino.

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“A situação pode evoluir exponencialmente”

António Vitorino em exclusivo à TVI

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Cada país está trancado sob si mesmo. Para conter a pandemia, na Europa, foram já vários os Estados a fechar fronteiras. O governo grego decidiu suspender todos os direitos de asilo no país, mas a Organização Internacional das Migrações, deixa um aviso claro. “O fecho das fronteiras não suspende a obrigação internacional de dar proteção aos refugiados. A OIM e o Alto Comissário para os Refugiados estão presentes nos postos de fronteira para apoiarem os requerentes de asilo, registo dos pedidos e aconselhamento dos migrantes e refugiados bloqueados nas zonas fronteiriças”. Os relatos das equipas da OIM na fronteira entre a Grécia e a Turquia registam um refluxo significativo devido ao fecho da fronteira grega. “Está a ser dado apoio humanitário às pessoas que ainda lá permanecem, tentando que os migrantes não sejam afetados pela pandemia e não sejam por isso estigmatizado e hostilizados pelos locais como infelizmente já tem ocorrido”. António Vitorino acrescenta ainda que “o exemplo português de aceitar formas expeditas e provisórias de regularização e apoio é apresentado como uma boa prática de respeito dos direitos dos migrantes e de inclusão na prevenção e combate à Covid-19 num grupo particularmente vulnerável”.

O problema é que, na prática, o governo grego faz exatamente o oposto. Ebrahimi Freshte, do movimento de refugiados de Moria Corona Awareness Team, garante que “não houve qualquer mudança desde que foi detetado o primeiro caso de infeção pelo novo coronavírus, a única coisa que o governo fez foi parar as autorizações de asilo e os voos internacionais. Em entrevista à TVI, Freshte avança que as mudanças foram para pior, “as pessoas precisam ainda mais de água e de alimentos. Não há razão para os cortes de água e, agora, nem os voluntários estão autorizados a entrar no campo”. Para estes voluntários a trabalhar em Moria, a solução passaria pela colocação de contentores provisórios que poderiam servir de local de isolamento para infetados ou grupos de risco. “Se o governo quiser tomar medidas, ninguém vai impedi-lo. O problema é quererem… ou não, atuar. O tempo de agir é exatamente agora, se algo acontecer não vale a pena virem depois justificar-se com embaraço, se alguém morrer não lhe podemos devolver a vida”.

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O apelo a Marcelo e ao governo português

Um grupo de voluntários escreveu às mais altas figuras do Estado português uma carta a pedir que sejam tomadas medidas urgentes. Tiago Marques, porta-voz deste grupo, #EApenasUmPoucoTarde, já esteve em Lesbos a trabalhar como voluntário num dos campos. Descreve a situação atual como um possível “desastre humanitário de proporções inimagináveis, há condições para uma «tempestade perfeita», caso haja um contágio no interior dos campos. É preciso dizer que as condições dos refugiados e requerentes de asilo já eram indignas antes da situação de pandemia e a necessidade de atuar era já muito evidente.” A verdade é que o surto de COVID-19 vem agravar essa urgência e pôr a nu as fragilidades da Europa na resposta a esta questão. Por isso, estes voluntários exigem que “não nos deixemos acomodar”.

A carta, endereçada ao Presidente da República, primeiro-ministro, ministro da Administração Interna, ministra de Estado e da Presidência, ministro dos Negócios Estrangeiros e secretária de Estado para a Integração e Migrações, explica detalhadamente o porquê da urgência de medidas. As condições do campo têm consequências devastadoras, sobretudo para os mais de mil menores não acompanhados. Referem que “20 crianças automutilaram-se e duas tentaram o suicídio”, tudo antes de a pandemia. Agora, mais do que nunca, pedem que algo seja feito. “O medo não pode sobrepor-se à solidariedade”, referem os voluntários à TVI. “Tivemos uma resposta positiva por parte do governo português à nossa carta, que manifestou vontade em tirar partido desta rede de voluntários para construir uma resposta competente e capaz do ponto de vista do acolhimento e da integração”.

O governo português assinou um acordo bilateral com a Grécia, para acolher cerca de mil pessoas em Portugal provenientes de campos gregos de refugiados, mas este acordo ainda não foi efetivado. Fonte oficial do ministério da Administração Interna revela à TVI que Portugal está ainda à espera, uma vez que compete às autoridades gregas o desenvolvimento dos procedimentos para a transferência das pessoas. Para o grupo de voluntário português, não há muito mais tempo para esperar, “estamos conscientes dos desafios que se colocam aos estados no atual contexto de pandemia, mas é nas situações de crise que os valores humanos devem prevalecer”, conclui Tiago Marques. A quem vive em Moria, pede-se tempo. Na verdade, é a única coisa que têm para dar.

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Campos de refugiados são uma bomba-relógio

Se nas capitais Europeias, como Lisboa, o material de proteção escasseia, numa remota ilha grega onde vivem milhares de refugiados é uma autêntica miragem. O paramédico e voluntário Matt Baillie garante-nos que não foram disponibilizados quaisquer luvas ou máscaras pelas autoridades públicas locais. Em alternativa, os refugiados tentam encontrar soluções que os protejam de um possível contágio. “É triste, mas as pessoas estão a fazer o melhor que podem”, adianta. O melhor, neste caso, pode vir a revelar-se o pior. Uma linha de montagem foi improvisada, onde os próprios refugiados costuram máscaras de algodão para os residentes do campo, mas, este paramédico avisa que “há evidências de que as máscaras de algodão reutilizáveis não são eficazes contra a SARS-Cov-2 e podem potenciar a transmissão e tornar as coisas ainda piores”. Matt, um profissional de saúde com experiência em cenários como este, não consegue traçar previsões, para ele é imprevisível o impacto da entrada do vírus no campo de Moria. “A única certeza é que se espalhará rapidamente pela falta de higiene, ausência de saneamento básico e excesso de proximidade entre pessoas”.

Se efetivamente ainda não há casos de infetados em Moria, os Médicos Sem Fronteiras (MSF) acreditam que “é uma questão de tempo até o vírus entrar e espalhar-se no campo, é uma bomba-relógio!”. Anna Pantelia, da delegação grega dos MSF, está preocupada com o facto de as pessoas nos campos não conseguirem sequer aplicar as medidas de prevenção. “Vivem em tendas com 10 ou 12 pessoas, por isso o contágio vai ser muito rápido. Queremos que evacuem o campo”, referiu em entrevista à TVI. As declarações dos Médicos Sem Fronteiras são duras para com o governo grego, o tom da crítica revela a urgência e gravidade do assunto. Exigem que sejam retiradas do campo todas as pessoas cuja vida possa estar em risco por causa da Covid-19, nomeadamente, doentes crónicos e pessoas com mais de 65 anos. “Poderiam ir para hotéis ou apartamentos de alojamento local que estão vazios neste momento”. Nada disto aconteceu, quando perguntamos “porquê?” delegada grega dos MSF não poupa nas palavras. “Os refugiados têm sido negligenciados pelo governo grego e pela União Europeia, isto não é de agora… É uma escolha política! É uma escolha política deixar pessoas sob estas condições, porque aquilo que querem é passar uma mensagem aos que estão à espera de passar o mar ou a fronteira: «não venham!». É muito importante não nos esquecermos que estamos a falar de pessoas e não de números. 40% das chegadas são crianças, 60% são crianças e mulheres. As vidas destas pessoas não podem ser usadas como mensagem”.

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Uma portuguesa no campo de Moria

Há uma zona na ilha de Lesbos que foi apelidada como «o cemitério dos coletes». Uma zona isolada, no topo de uma montanha, acessível apenas por uma estrada de terra batida. Em 2016, quando lá estive, descrevi-a como “a vergonha da Europa”. Um monte de coletes, alguns deles falsos, de espuma, comprados em mercados de contrabando nas praias turcas, roupas, brinquedos de criança, bonecos de pai Natal… há de tudo. São restos de vidas que passaram o mar, umas sobreviveram, outras não. Hoje esse cemitério voltou a aumentar. Catarina Dias, voluntária portuguesa, diz que “já está outra vez com o dobro do tamanho”.

Catarina Dias, tem 36 anos, é de Torres Vedras e trabalhou como voluntária na organização Refugee4Refugees (R4R), fundada por um refugiado. Começou uma viagem sem trajeto pré-definido, longe de imaginar que em plena Europa seria possível ver o que viu. “Cheguei à ilha a 21 de janeiro e a realidade que testemunhei ultrapassou todos os extremos. A primeira visita ao campo foi um misto de emoções de desolação, frustração, tristeza, mas também de espanto por ver tantos sorrisos e uma capacidade de resiliência inimaginável”. Catarina descreve “o rio de lixo, como o chamam, sempre cheio como estaria um rio após um dia de chuva intensa”. A ilha acabou por ser evacuada e quase todos os voluntários tiveram de sair no final de fevereiro – Catarina foi um deles.

A situação na ilha agravou-se em fevereiro com a decisão da Turquia de abrir as fronteiras e com o aumento da violência do grupo de fascistas contra as ONG. “Agressões físicas e verbais nas ruas, carros de voluntários atacados connosco lá dentro, vi tudo isto à minha frente, o que fez com que a R4R decidisse retirar toda a equipa da ilha. Tive uma hora para fazer malas e apanhar o ferry para Atenas”, conta. O governo Grego suspendeu ainda o tratamento dos 120 mil pedidos de asilo em curso, 450 pessoas ficaram apinhadas no hangar de um barco da marinha à espera que alguém decida o seu destino, 42 pessoas estão há duas semanas na costa norte da ilha a dormir ao ar livre, sem ajuda e, “como se tudo isto não bastasse, deflagrou um incêndio dentro do campo de refugiados que tirou a vida a uma criança de seis anos. A mesma idade da criança que faleceu há cerca de duas semanas quando um dos muitos barcos de borracha que tentava chegar à costa de Lesbos virou”, desabafa a voluntária portuguesa.

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À Grécia chegaram, desde o início desta crise, em 2015, um milhão e 200 mil refugiados. Só em 2020, já se registaram quase 10 mil novas chegadas. Desde janeiro, mais de 200 pessoas morreram no mar. Nesta fase, são muitos a questionarem-se sobre o que vai acontecer, na cabeça de todos eles ecoam as mesmas perguntas. Quantos terão de morrer até serem tomadas as medidas corretas? Quantos já morreram por falta de ação dos europeus em relação aos refugiados? Estas pessoas são castigadas pela terceira vez. A primeira, pelas guerras nos países de origem; a segunda na Europa, pela travessia no mar e pelas condições de asilo. O novo coronavírus é mais um golpe na esperança de quem já tanto viajou e está tão longe de onde nasceu. A eles a Europa não pode dizer: «fiquem em casa!». Se, anos antes, lhes tivessem dito «bem-vindos a casa», hoje não estariam aqui.

André Carvalho Ramos

* esta reportagem foi escrita por um jornalista em isolamento por causa da Covid-19; os refugiados do campo de Moria foram os meus guias, as minhas mãos e a minha liberdade, agora fisicamente condicionada. Foi a eles a quem confiei as minhas perguntas e o meu olhar. Obrigado.