No título do artigo do Financial Times lê-se "Porque Portugal confundiu os céticos em relação à dívida". O jornal britânico falou com vários investidores e analistas e concluiu que há maior otimismo em torno da dívida portuguesa.

Vamos ao contexto, depois aos porquês, depois aos reflexos. Os juros da dívida subiram a partir do momento em que o Governo socialista minoritário tomou posse, "com um programa anti-austeridade apoiado no parlamento pela esquerda radical e comunista, provocando preocupação com a gestão económica" do país, lembra o jornal. O FT constata, agora, que na altura não se deu o benefício da dúvida ao Governo.

Estas preocupações foram amplamente confundidas: António Costa, primeiro-ministro, mostrou um compromisso com objetivos orçamentais acordados com os credores internacionais, enquanto os indicadores económicos sugerem que as perspectivas se tornaram mais promissoras desde o início de 2017".

E por que razão o cenário é agora mais promissor? Porque o défice orçamental de Portugal baixou para 2% em 2016, o nível mais baixo em 40 anos, como o primeiro-ministro tem feito questão de repetir e o Financial Times também assinala. Tal como escreve também que a economia tem vindo a crescer durante 13 trimestres consecutivos e, em março, o desemprego caiu abaixo dos dois dígitos pela primeira vez desde 2009.

O maior problema é a banca. "Para aqueles que pensam que a perspetiva de Portugal está a melhorar, permanecem grandes questões sobre o setor bancário, com o pano de fundo de um risco político mais amplo para a zona do euro [eleições em vários países] e a desaceleração da compra de títulos por parte do Banco Central Europeu". Seja como for, reconhece a publicação especializada, "Portugal tem tentado resolver o sistema bancário". 

Reflexo: juros da dívida a descer

Há investidores que, por causa desses riscos, não se sentem confortáveis em assumir uma exposição significativa à dívida portuguesa, mas o panorama está a melhorar.

Se, em fevereiro, os juros da dívida estavam acima dos 4%, na semana passada caíram para o valor mais baixo em cinco meses. É verdade que isso ocorreu num contexto de maior otimismo europeu, com a vitória de Emmanuel Macron na primeira volta das presidenciais francesas. A segunda volta será disputada entre Macron e Marine Le Pen, da extrema-direita da Frente Nacional, no próximo domingo. Mas Portugal tem tido resultados económicos (já referidos em cima, neste texto).

Hoje mesmo, e já depois de publicado este artigo do Financial Times, publicação lida por muitos investidores, os juros a 10 anos, que servem de referência para aferir o apetite dos investidores, aliviaram para o nível mais baixo desde meados de novembro. Estão agora nos 3,45%. 

Philip Brown, responsável pelo departamento de dívida soberana do Citi, sublinhou ao FT que os títulos da dívida portuguesa foram os únicos no mercado soberano da zona do euro a apresentar retornos positivos, este ano, até agora. Um retorno de 3,9%. Este especialista diz mesmo que há uma "uma enorme quantidade de potencial".

Ovelha negra para agências de rating

As agências de rating ainda olham para Portugal como uma ovelha negra. Moody's, Standard & Poor's e Fitch ainda classificam Portugal como lixo e querem ver os problemas dos bancos resolvidos de forma sustentável. Só a agência canadiana DBRS dá nota positiva à dívida de Portugal.

O ministro das Finanças tem-se queixado do tratamento das agências de rating, ainda mais agora com o país a sair do Procedimento por Défice Excessivo - PDE (já que conseguiu baixá-lo para menos de 3%). "Não estamos a ser tratados de forma justa", disse em março, entrevistado precisamente pelo FT, num recado para os mercados.

O comissário europeu dos Assuntos Económicos, Pierre Moscovici, ainda hoje disse hoje à Lusa, em Bruxelas, que espera que rapidamente a Comissão possa recomendar o encerramento do PDE a Portugal, sem no entanto ter especificado uma data.

Espero que essa saída seja possível e seja rápida, é isso que vamos examinar nos dias e semanas que se seguem”.

O BCE também ajudou a conter os juros, com as suas compras de dívida portuguesa, mas elas têm baixado sucessivamente nos últimos meses. Richard Gustard, diretor de negociação de valores mobiliários da JPMorgan, antecipa que Portugal provavelmente "sofrerá menos do que outros países periféricos em virtude de qualquer redução de QE", o programa de compra de ativos. Isso torna o país "atrativo num ambiente de risco". 

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Vanessa Cruz