O antigo presidente do Novo Banco Eduardo Stock da Cunha disse esta terça-feira  no parlamento que o Banco Espírito Santo (BES) tinha uma rubrica de juros anulados para cada um dos devedores, que chegava a 10 milhões de euros por ano.

Relativamente a todos os devedores, um a um, pedi que me dissessem a realidade dessa rubrica que se chamava juros anulados. Ou seja, o Novo Banco – o seu antecessor [BES] – tinha por tradição contabilizar uma série de juros que engordavam a margem financeira, e depois quando chegava o dia eles não se verificavam e tinham que se anular", referiu o gestor, que está a ser ouvido esta tarde no parlamento.

Eduardo Stock da Cunha, ouvido na Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar às perdas registadas pelo Novo Banco e imputadas ao Fundo de Resolução, detalhou um caso de um cliente "com uma exposição importante" em que os juros eram pagos de dois em dois anos.

O antigo presidente do Novo Banco estimou esses juros anulados em "montantes significativos" de cerca de 10 milhões de euros por mês.

Não há orçamento que resista", referiu.

Não era muito difícil perceber, quando chegámos e passados seis meses, em março e abril, que os juros não iam ser pagos. Mas continuavam regularmente a ser periodificados, e portanto algures em 2016, ou final de 2015 ou meio de 2015, saber-se-ia que afinal tínhamos que anular 24 meses de periodificação de juros", detalhou.

O gestor, que sucedeu a Vítor Bento na liderança do Novo Banco em 2014, classificou o sucedido como uma realidade que se foi "descobrindo numa viagem tormentosa" mas que "correu bem" porque "o Novo Banco sobreviveu".

Quando comecei a descobrir isto – demora tempo, a primeira preocupação era a liquidez – foi a meio da viagem, comecei a descobrir em dezembro, depois mais um outro cliente em janeiro, outro em fevereiro, outro em março, e começámos a dizer: 'a margem financeira não é isto que estamos aqui a ver'", referiu.

O gestor referiu também que no seu período de presidência do Novo Banco, até 2016, constituiu cerca de 2.400 milhões de euros em provisões, entre "provisões para crédito, para bancos, para títulos, para outros ativos".

Stock da Cunha considerou também o crédito para aquisição de ações "um exemplo de má memória", mas que "não atacou a todos os bancos portugueses".

Porém, o gestor reconheceu ainda que no período da sua presidência "ficou muita coisa por fazer" na área da "organização e mapeamento de controlo interno" do Novo Banco.

"É relativamente fácil" devedores fugirem ao aval pessoal 

O antigo presidente do Novo Banco Eduardo Stock da Cunha disse que, em Portugal, é "relativamente fácil" aos grandes devedores da banca fugirem da sua cobrança através de avales pessoais.

Num país, infelizmente, como Portugal, quando se quer fugir dessa preocupação é relativamente fácil fazê-lo, ou era", disse Eduardo Stock da Cunha no parlamento, quando questionado pela deputada Cecília Meireles (CDS-PP) acerca de avales pessoais dos grandes devedores da banca.

No entender de Stock da Cunha, que liderou o banco entre 2014 e 2016, nessa instituição "a experiência provou que nalguns casos", quando "uma pessoa quer dar aval pessoal, dá-o", e noutros isso já não acontece.

Eduardo Stock da Cunha falava na Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar às perdas registadas pelo Novo Banco e imputadas ao Fundo de Resolução, onde foi ouvido na tarde de hoje.

Quando nós fomos tentar ir buscar alguma coisa, havia pouca coisa disponível em algumas das situações, e tendo aqui a concordar com a doutora Mariana Mortágua [deputada do BE] quando diz que é mais fácil, se calhar, alguns fugirem do que outros, isso é verdade", considerou o gestor.

O antigo presidente relembrou que os deputados "é que são os legisladores" e que o que estava a dizer "não é nenhuma novidade".

/ HCL