Alguns lesados do Banco Espírito Santo (BES) juntaram-se hoje em frente ao Campus da Justiça, em Lisboa, para interpelarem o antigo presidente do BES sobre a provisão que “deixou e transitou” para o Novo Banco e que permitiria serem ressarcidos.

“Estamos aqui, no terreno, para poder interpelar o sr. Ricardo Salgado, uma vez que hoje é o julgamento, para ele nos poder afirmar e confirmar que deixou uma provisão no BES e que esta transitou para o Novo Banco”, afirmou à Lusa Jorge Novo, um dos representantes da Associação dos Lesados do Sistema Bancário (ALSB) presentes no ação de protesto.

E prosseguiu: “Como tal, nós pedimos responsabilidades ao Banco de Portugal e Novo Banco e, por sua vez, ao Governo, que nos tem rejeitado por completo e constantemente, sem nos dar apoio e nos querer ouvir”.

O ex-banqueiro Ricardo Salgado, de 76 anos, começa a ser julgado por três crimes de abuso de confiança, devido a transferências de mais de 10 milhões de euros no âmbito do processo Operação Marquês, após dois anteriores adiamentos.

A sessão tem início marcado para as 14:00 e terá lugar no Campus da Justiça, em Lisboa, onde o ex-presidente do BES será julgado por um coletivo do Juízo Criminal de Lisboa presidido pelo juiz Francisco Henriques.

O representante dos lesados do BES/Novo Banco explicou ainda à Lusa que no universo de 10.000 lesados – emigrantes e papel comercial – começaram a ser criadas soluções para compensar os lesados, mas que foram “feitas por interesses de alguém”.

Existem três associações, das quais uma “esteve representada” no grupo de trabalho que foi criado, tendo como “coordenador Diogo Lacerda Machado, amigo de António Costa (primeiro-ministro)”, sendo que essas soluções “foram desenhadas por esses senhores, colocadas cá para fora e não houve consulta a nenhum lesado em assembleia-geral das associações, isto é, não foi dada a opinião de cada sócio”, lamentou.

No fundo, o presidente da associação “acionou um Memorando de Entendimento para as soluções e que contemplavam o pagamento de 50% e 75%, mas esses senhores nunca falaram na provisão”, pelo que os lesados "querem, mais uma vez, chamar a atenção" para esta “gigantesca burla”, que fez com que “muitas vítimas partissem mais cedo” e outras continuem com “as vidas destruídas sem verem justiça em Portugal”, apesar das promessas feitas.

“Isto é uma vergonha. Nós só temos de pedir responsabilidades ao Banco de Portugal, Novo Banco e Governo. Não precisamos de soluções. Só temos que pedir que nos devolvam a totalidade do que é nosso, através da provisão”, disse à Lusa Jorge Novo, lembrando que o valor desta é da ordem dos 1.837 milhões de euros para o universo global de lesados (institucionais e clientes de retalho)”, sendo que a parte que lhes toca são quase 700 milhões (450 milhões de papel comercial e o restante de emigrantes)”.

"É isso que os representantes aqui concentrados querem. Que confirme, outra vez, que deixou a provisão”, já que toda esta situação por que têm passado e “truques que se têm feito e montado, através de um grupo de trabalho com a presença de dois advogados, só me leva a dizer que tenham vergonha nessa cara e borrem a sua cara com ouro”, afirmou.

Jorge Novo, um dos fundadores da associação, garante que “têm um ‘email’” de que Ricardo Salgado deixou “uma provisão no BES que transitou para o Novo Banco”, alegando também que a existência dessa provisão “está confirmado” via televisão e na comunicação social.

“As gravações existem, está tudo confirmado”, salientou, lembrando que o ato hoje em frente ao Campus da Justiça visa protestar e confrontar Ricardo Salgado com a provisão em causa.

O BES, tal como era conhecido, acabou em agosto de 2014, deixando milhares de pessoas lesadas devido a investimentos feitos no banco ou em empresas do Grupo Espírito Santo.

/ HCL