A presidente do Banco Central Europeu (BCE) admitiu esta segunda-feira que a inflação na zona euro possa continuar “mais elevada durante mais tempo” devido aos preços energéticos, relacionados com a crise no setor, após atingir 4,1% em outubro.

Se os preços da energia continuarem a subir ou se persistirem restrições nas cadeias de abastecimento, a inflação poderá permanecer mais elevada durante mais tempo do que atualmente prevemos. Isto poderá contribuir para salários mais elevados e, subsequentemente, preços mais elevado”, declarou Christine Lagarde.

Falando por videoconferência numa audição na comissão de Assuntos Económicos do Parlamento Europeu, a líder do banco central salvaguardou porém que, de momento, “não existe qualquer prova disso nos dados relativos aos salários negociados [já que] se prevê um crescimento salarial no próximo ano potencialmente superior ao deste ano, mas o risco de efeitos de segunda ordem permanece limitado”.

No que toca à inflação, Christine Lagarde assinalou que a taxa anual passou, em outubro, para os 4,1%, face aos 3,4% de setembro, puxada pelo aumento dos preços da energia.

A taxa aumentou mais do que tínhamos previsto […] e foi impulsionada por três forças primárias, a primeira delas é a dos preços da energia”, apontou a responsável, precisando que “a inflação energética foi responsável por pouco mais de metade da inflação global”.

A segunda [razão] é que a recuperação da procura relacionada com a reabertura da economia está a ultrapassar a oferta limitada e isto está a empurrar os preços para cima e a terceira é que a inversão da redução temporária do IVA alemão no ano passado está a impulsionar mecanicamente os atuais números da inflação global”, elencou Christine Lagarde.

Apesar das subidas, “globalmente, continuamos a prever que a inflação a médio prazo permaneça abaixo do nosso novo objetivo simétrico de 2%”, adiantou a líder do BCE.

Quanto à atividade económica na zona euro, registou uma forte recuperação no terceiro trimestre, lembrou Christine Lagarde, admitindo, porém, que “a dinâmica de crescimento está a ser afetada em certa medida devido a estrangulamentos no abastecimento e ao aumento dos preços da energia”.

A escalada dos preços da luz – devido à subida no mercado do gás, à maior procura e à descida das temperaturas – ameaça exacerbar a pobreza energética na Europa e causar dificuldades no pagamento das contas de aquecimento neste outono e neste inverno.

A Comissão Europeia apresentou, em meados de outubro, uma “caixa de ferramentas” para orientar os países da UE na adoção de medidas ao nível nacional, propondo aos Estados-membros que avancem com ‘vouchers’, reduções temporárias ou moratórias para aliviar as contas da luz aos consumidores mais frágeis e sugerindo uma investigação a “possíveis comportamentos anticoncorrenciais”.

O executivo comunitário recomendou ainda aos países que avaliassem “potenciais benefícios” de uma aquisição conjunta voluntária de reservas de gás, iniciativa semelhante à realizada para compra de vacinas anticovid-19.

Na altura, Bruxelas indicou que irá “explorar os possíveis benefícios da aquisição conjunta de reservas de gás por entidades regulamentadas ou autoridades nacionais para permitir o agrupamento de forças e a criação de reservas estratégicas”.

Em dezembro próximo, o executivo comunitário irá apresentar um pacote de iniciativas sobre o setor energético, admitindo intervir relativamente à aquisição e ao armazenamento de gás, de forma a reforçar as reservas da UE.

/ JGR