A petrolífera francesa Total está a cancelar contratos com empreiteiros e fornecedores locais do projeto de gás natural no norte de Moçambique, deixando as empresas em dificuldades e indiciando que o projeto pode parar durante meses.

De acordo com a agência de informação financeira Bloomberg, que cita documentos trocados entre a petrolífera francesa e alguns fornecedores locais, a Total está a cancelar os contratos com fornecedores locais como Júlio Sethi, um empresário nascido em Palma que investiu na compra de terrenos, uma pedreira e transporte em Pemba, a capital da província de Cabo Delgado.

É um desastre total, não sabemos o que vai acontecer a seguir", disse o empresário, considerando pouco provável que a petrolífera francesa retome os trabalhos este ano, devido à insegurança que se vive na região, afetada por ataques desde 2017, o último dos quais em março, vitimando dezenas de pessoas e avolumando a crise humanitária na região.

Com a paragem por tempo indefinido dos trabalhos, Sethy diz que alguns dos inquilinos já cancelaram também os contratos, incluindo uma companhia de seguros que vai sair das instalações no final do mês, prevendo-se que mais pessoas saiam devido aos receios com um ataque a Pemba.

Esta era a nossa maior esperança, por isso alguns de nós investiram tudo o que tinham, e ainda se endividaram junto dos bancos para investir ainda mais", concluiu o empresário.

A petrolífera abandonou por prazo indeterminado o megaprojeto de exploração de gás natural da bacia do Rovuma, maior investimento privado em África no valor de cerca de 20 mil milhões de euros, após o ataque de um grupo armado à vila de Palma em 24 de março.

O ataque, o mais recente em três anos e meio de insurgência, provocou dezenas de mortos (ainda sem balanço oficial) entre residentes e colaboradores ligados ao projeto.

Apesar das tentativas realizadas desde então, a Lusa ainda não conseguiu obter esclarecimentos por parte da petrolífera em relação ao futuro do projeto.

Em conferência de imprensa na terça-feira em Maputo, o presidente da Confederação das Associações Económicas de Moçambique, Agostinho Vuma, recordou os dados que havia avançado na última semana em entrevista à Lusa: 410 empresas fecharam e 56 mil empregos desapareceram nos distritos afetados, registando-se 80 milhões de euros de impacto (destruições, atrasos de pagamentos e mercadorias em trânsito sem certeza da entrega).

Vuma disse que os dados incluem o ataque de Palma e que, em retrospetiva, Mocímboa da Praia é o distrito mais afetado.

Segundo havia referido à Lusa, fecharam ainda outras 700 empresas fora dos distritos sob ataque e 143 mil camponeses largaram o setor agrário familiar desde o início do conflito.

O ataque e o consequente atraso nas obras da petrolífera Total tem um impacto direto na economia do país, nomeadamente no que diz respeito à capacidade de pagar a dívida pública a partir de 2024, ano em que a taxa de juro vai subir significativamente no seguimento da renegociação dos títulos de dívida soberana ('Eurobonds').

Grupos armados aterrorizam Cabo Delgado desde 2017, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo 'jihadista' Estado Islâmico, numa onda de violência que já provocou mais de 2.500 mortes segundo o projeto de registo de conflitos ACLED e 714.000 deslocados de acordo com o Governo moçambicano.

O mais recente ataque foi feito a 24 de março contra a vila de Palma, provocando dezenas de mortos e feridos, num balanço ainda em curso.

As autoridades moçambicanas recuperaram o controlo da vila, mas o ataque levou a petrolífera Total a abandonar por tempo indeterminado o recinto do projeto de gás com início de produção previsto para 2024 e no qual estão ancoradas muitas das expectativas de crescimento económico de Moçambique na próxima década.

/ LF