António Saraiva teceu duras críticas a António Costa, que considera “desconhecer” a realidade empresarial, enalteceu o papel das empresas na recuperação económica das duas crises mais recentes e pediu ao Estado para sair do caminho dos privados. 

Em entrevista com Miguel Sousa Tavares, António Saraiva respondeu às afirmações de António Costa que, em conversa com Sousa Tavares, disse que a culpa dos baixos salários em Portugal é dos gestores “que não souberam tirar proveito de uma das gerações mais qualificadas de sempre”. Para o presidente da CIP, António Costa não quer assumir culpas.

O senhor primeiro-ministro, tal como grande parte dos membros do Governo, têm de encontrar sempre culpas. É mais fácil acusar os empresários do que assumir culpas próprias. Os empresários desenvolvem as suas atividades num ambiente que é favorável ou desfavorável e, em Portugal, o ambiente que nos proporcionam é desfavorável”, lamentou.

António Saraiva não culpa exclusivamente este executivo, sublinhando que este Governo tem algumas culpas por não ter corrigido problemas levantados por governos anteriores.

Na política portuguesa, criticam-se governos anteriores, mas não se corrige aquilo que em oposição se criticava. Tal como este Governo criticou a elevada taxa de impostos do Governo de Pedro Passos Coelho e que, em praticamente duas legislaturas, não vejo, enquanto empresário, qualquer baixa de impostos”, frisou.

António Saraiva disse que aquilo que a CIP quer é que “o Estado saia da frente”, no entanto, mostrou-se preocupado com a ausência de apoios do Governo às empresas, principalmente em torno do fim das moratórias, que ainda não têm um projeto para o que vai acontecer às empresas afetadas pela medida.

Não estamos aqui para pedir subsídios: o Estado que nos saia da frente”, afirmou o representante dos empresários.

Nem tudo foram críticas para com o executivo de António Costa. Saraiva elogiou algumas medidas, como lay-off simplificado, que acredita ser um dos responsáveis pelos atuais baixos números do emprego.

A ajuda do lay-off simplificado teve a vantagem, aliada à própria resiliência das empresas, de salvar postos de trabalho. Se hoje reconhecemos que o desemprego está em níveis tão baixos deve-se a dois fatores: à resiliência das próprias empresas e à ajuda baixa do estado para a manutenção dos trabalhadores”, destacou.

Foi também muito crítico do ambiente económico que se vive no país, apontando como um dos maiores entraves à economia nacional a “carga fiscal, a imprevisibilidade fiscal, as 4.300 taxas que Portugal tem sobre a economia”.

Miguel Sousa Tavares lembrou ainda os salários baixos que se aproximam do subsídio de desemprego, levando a que muitas pessoas prefiram manter-se a receber o subsídio de desemprego do que aceitar trabalhar com salários tão baixos. Questionado sobre se a culpa seria dos empresários, o líder da CIP disse existir “um encosto à subsidiação" em Portugal.

Saraiva admite, no entanto, que os apoios sociais são necessários e que devem ser atribuídos “aos que mais precisam”, mas defende que o país deve “repensar o problema” da dependência de subsídios.

O salário mínimo é, neste país, a desculpa para todas as maldades que se querem associar aos empresários”, afirmou Saraiva, que lembrou que para pagar os 650 euros do salário mínimo a um trabalhador, uma empresa tem de desembolsar, na verdade, 903 euros. Caso passe para os 750 propostos pelo executivo de António Costa, as empresas terão de pagar cerca de 1040 euros por mês.

Questionado sobre o número cada vez maior de empresas a pagar o salário mínimo nacional, o presidente da CIP recorda que, em Portugal, a vasta maioria das empresas são Pequenas e Médias Empresas que empregam até dez trabalhadores e que essas não têm capacidade de comportar os custos associados aos sucessivos aumentos do salário mínimo.

No entanto, António Saraiva é taxativo ao afirmar que a economia portuguesa “não terá futuro” caso se mantenha a funcionar com base em salários baixos.

Nenhuma economia terá futuro se assentar o seu modelo de desenvolvimento em salários baixos. E, por isso, as empresas portuguesas, compreendendo essa inexorável verdade, têm vindo a transformar-se e a reconfigurar-se. As empresas, se quiserem sobreviver, têm de se reinventar”, sublinhou.