O crédito de 350 milhões de euros dado, em 2007, pelo banco público ao investidor José Berardo, para investir na luta de poder dentro do BCP, não possuía, numa primeira fase, garantias reais, mas a promessa de penhora de ações, noticia o Público. A operação foi aprovada em conselho de administração do Banco de Portugal, governado por Vítor Constâncio, que também foi o número dois à frente do Banco Central Europeu, segundo documentos a que o jornal teve acesso.

O dado coloca em causa o depoimento de Constâncio de 28 de março deste ano na comissão parlamentar de inquérito à Caixa Geral de Depósitos, onde o ex-governador se pronunciou nestes termos: “Como é óbvio”, por “ser impossível”, o Banco de Portugal não poderia saber que a CGD ia financiar Berardo antes do crédito ser dado.

Segundo os documentos agora públicos, a 21 de agosto de 2007, em plena guerra de poder pelo controlo do BCP, o conselho de administração do banco central português, na altura com o Governador Vítor Constâncio, reuniu-se com um ponto na agenda: autorizar aquela que viria a revelar-se, tempos depois, uma das mais ruinosas e questionadas operações de crédito concedidas nos últimos anos pela banca portuguesa. Um empréstimo que 12 anos depois continua por liquidar.

É que em julho daquele ano, o Banco de Portugal detinha toda a informação e podia ter impedido Berardo de se tornar o maior investidor do BCP, dado que planeava investir só com recurso a crédito.

Constâncio até tinha argumentos para proteger o financiador, o banco de Estado, e o principal grupo do sistema financeiro português.

Na prática em 2007, a instituição reguladora sabra que o grupo de Berardo não gerava resultados suficientes para pagar a dívida que queria contrair junto da Caixa, o que constituía um risco acrescido. O então Governador poderia ter dito ao presidente do banco, Carlos Santos Ferreira, que não concordava que a Caixa, sendo estatal fosse usada para financiar a luta de poder dentro de um banco concorrente. Mas não foi o que se passou, diz o Público.

Este março no Parlamento, Constâncio defendeu-se dizendo que o Banco de Portugal “não tem poderes para evitar que bancos assumo riscos legais:”. “É a lei.”