O governador do Banco de Portugal (BdP), Mário Centeno, defendeu hoje uma convergência europeia na recuperação da crise pandémica e um direcionamento das medidas de política orçamental para os setores mais afetados.

Agora que recuperamos o multilateralismo e que aprendemos a lidar com a pandemia e com a vacinação, não podemos ter uma economia com mercados de trabalho segregados e sem convergência entre países. Agora que compreendemos o que é um desafio global, vamos estar à altura”, sustentou Centeno durante o 30.º congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC).

Numa intervenção sobre “Como garantir a recuperação económica numa Europa pós-pandémica”, o governador do BdP preconizou “uma recuperação [económica] ampla, generalizada, com um verdadeiro espírito europeu”.

A contração foi geral, mesmo que com diferentes magnitudes, por isso não podemos pedir menos do que uma recuperação generalizada”, considerou.

E se, “inicialmente, o choque económico foi simétrico”, com as restrições impostas pelo confinamento a afetarem “dramaticamente todos os setores e o comércio global”, Mário Centeno diz que a recuperação foi acontecendo em ritmos diferentes nas várias atividades, com a retoma na indústria e no comércio internacional a superar largamente a dos serviços, cuja atividade “continuou deprimida”.

Neste contexto, o governador defende que as políticas orçamentais “devem prosseguir e ser ajustadas no sentido de uma ação mais direcionada para onde são mais necessárias”: “Para uma recuperação sustentada e inclusiva precisamos de políticas orçamentais que tenham em consideração a evolução assimétrica da crise, mas também que promovam os incentivos adequados”, sustentou.

É nosso dever garantir que nenhum setor é deixado para trás e que as empresas viáveis terão o apoio necessário”, acrescentou.

Defendendo que, “à medida que a incerteza começa a diminuir, o foco deve ser na criação de empregos”, Centeno salientou que o mercado laboral evidenciou na atual crise “uma tendência diferente da de recessões anteriores”, já que “as medidas de política preservaram o emprego e limitaram o aumento da taxa de desemprego”.

“As empresas e os Estados membros investiram montantes astronómicos para preservar o emprego e os trabalhadores também, ao concordarem com horários de trabalho mais flexíveis”, disse, considerando que “o comportamento do investimento, da liquidez, o caráter temporário da crise e a resiliência do emprego dão boas perspetivas de recuperação”.

Este é o melhor cenário que posso imaginar para garantir uma recuperação generalizada. No futuro, esperamos que a atividade económica recupere gradualmente, suportada pela manutenção da forte e decidida resposta das medidas de política e pelo evoluir do processo de vacinação”, afirmou o ex-ministro das Finanças de Portugal.

Na sua intervenção, o governador do BdP defendeu ainda que “a melhor forma de recuperar de uma crise é ter instituições fortes e credíveis”, salientando que, atualmente, “o euro tem o maior apoio de sempre entre os cidadãos europeus”, com 79% a apoiarem a moeda única em 2021, contra 62% em 2013.

Numa alusão ao tema do congresso da APDC - "Reinventing with Technology" – o também ex-presidente do Eurogrupo referiu que “um crescente número de bancos centrais em todo o mundo estão a analisar a possibilidade de introduzirem moedas digitais” e que “o Banco Central Europeu [BCE] é um deles”.

Com a digitalização, a rápida evolução dos mercados de pagamentos e a emergência de criptoativos, o BCE está a estudar a possibilidade de emitir um euro digital, em complementaridade às soluções de pagamento oferecidas pelo setor privado”, disse.

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