A última carta foi escrita à mão, nas costas de um documento do Novo Banco e deixada à porta de casa como um aviso a quem fosse entrar: "Estou morto. Tenho sofrido muito, já não posso sofrer mais", escreveu o pai de Fernando Pereira antes de se enforcar. "Foi duro de ler, de assistir, de lidar", recorda o filho. 

Tudo isto foi fruto de um desespero enorme e de uma maldade enorme que lhe fizeram", diz Fernando, referindo-se às centenas de milhares de euros que desapareceram e empurraram esta família para um beco sem saída.  "Esta situação fez com que o meu pai se suicidasse."

Desde então, o filho tem ido a várias manifestações de lesados do BES. Praticamente sete anos depois ainda não viu um cêntimo das poupanças que o pai investiu aos balcões do BES. 

"Sempre lhe foi dito que era uma conta a prazo, normal, onde se ganhavam juros normais", garante Fernando.

Nunca pensei que chegasse ao ponto que chegou, de não quererem pagar, de não nos quererem devolver o que era nosso, fruto de anos e anos e anos de trabalho."

Este é um dos testemunhos entregues aos detentores dos mais altos cargos da nação. Sete lesados do BES, representantes de centenas de emigrantes na Venezuela, foram recebidos esta terça-feira pelo Presidência da República. Levaram caixas com cartas, que também vão ser entregues a todos os deputados e ao primeiro-ministro assim como vídeos, a que a TVI teve acesso, que expressam situações de desespero. 

O advogado deste grupo de advogados conversou com o primeiro-ministro e conseguiu dar aos lesados uma última esperança de reaver pelo menos metade do dinheiro investido: cerca de 230 milhões de euros. Mas António Costa deu um passo atrás e decidiu pedir um parecer ao Banco de Portugal, algo que não estava previsto no entendimento inicial com estes lesados. 

O Governo devia olhar para esta situação, não só com olhos de ver mas também com o coração", diz Fernando Pereira. 

Fernando vai continuar a luta para reaver parte do dinheiro da sua família. Como ele há mais 1500 pessoas, muitas delas da Venezuela e África do Sul, que não vão desistir. 

André Carvalho Ramos