O ex-presidente da sociedade gestora do 'resort' de Vale do Lobo, Diogo Gaspar Ferreira, disse, esta quinta-feira, no parlamento que a Caixa Geral de Depósitos (CGD) recusou duas propostas pela dívida do empreendimento.

Em fevereiro de 2013, a Caixa recebeu uma proposta de compra da dívida total de 180 milhões de euros" que "decidiu não aceitar", tendo em 2017 recebido "nova proposta de um grande fundo internacional, de 160 milhões", que também "decidiu não aceitar", afirmou Diogo Gaspar Ferreira na sua audição na comissão parlamentar de inquérito à recapitalização e gestão da CGD, em Lisboa.

Se a Caixa não vendeu os seus créditos, isso só pode significar que vai receber por eles um valor superior ao que lhe foi oferecido", sugeriu o antigo responsável por Vale do Lobo.

Diogo Gaspar Ferreira, que se fez acompanhar pelo seu advogado, João Medeiros, por ser arguido na Operação Marquês, devido ao mesmo 'resort' de Vale do Lobo, referiu ainda que a sociedade gestora do empreendimento pagou "100 milhões de euros à CGD em juros e reembolsos".

O gestor adiantou que no decorrer da crise se deu conta que o negócio "só poderia sobreviver se conseguisse a renegociação dos termos da dívida", ou seja, "custos e prazos de reembolso".

A Caixa não só não aceitou como começou a cobrar juros de mora", declarou na sua audição.

Relativamente ao início da operação, Diogo Gaspar Ferreira explicou, em resposta ao deputado do PCP Paulo Sá, que não foi ele quem contactou Armando Vara para dar início ao processo de financiamento ao empreendimento por parte da CGD.

Fui um dos acionistas que preparou o dossiê, mas não fui eu que fiz os contactos", disse, acrescentando que o contacto com a Caixa foi feito por Rui Horta e Costa, mas que não sabia "quem entregou o dossiê a Armando Vara".

Mais tarde, o deputado do PSD Duarte Marques questionou Diogo Gaspar Ferreira se queria "convencer" os parlamentares "de que não soube que a proposta chegou a Armando Vara", numa "sociedade pequena" com dois elementos, ao que o ex-responsável de Vale do Lobo voltou a dizer que "não sabia" se Horta e Costa contactou diretamente Vara.

Diogo Gaspar Ferreira lamentou que a CGD, através da sociedade Wolfpart, tenha sido um "acionista ausente" de Vale do Lobo, que "não conhecia a empresa, por forma a dar valor ao trabalho que se estava a fazer".

O gestor revelou também que tinha ficado combinado que uma reunião do conselho de administração da CGD "fosse feito em Vale do Lobo", mas que, "infelizmente", nem Carlos Santos Ferreira, presidente da CGD de então, nem outros administradores deram seguimento à ideia.

Armando Vara estava tão interessado como os outros, que era pouco, infelizmente", observou Diogo Gaspar Ferreira.

O ex-responsável por Vale do Lobo culpou ainda a crise pelo falhanço do projeto do 'resort' e considerou "não ser correta a ideia de uma decisão errada" relativamente ao avançar com o empreendimento.

 

"Todo o dinheiro que tinha e não tinha pus em Vale do Lobo"

O ex-presidente da sociedade gestora do 'resort' de Vale do Lobo, Diogo Gaspar Ferreira, disse hoje no parlamento que pôs "todo o dinheiro que tinha e não tinha" no projeto.

Todo o dinheiro que tinha e que não tinha pus em Vale do Lobo. Não estou a tentar ser vítima de rigorosamente nada, atenção. Achei que era um grande negócio, achei que o devia fazer", afirmou Diogo Gaspar Ferreira na sua audição na comissão parlamentar de inquérito à recapitalização e gestão da Caixa Geral de Depósitos (CGD), na Assembleia da República, em Lisboa.

A revelação foi feita na sequência de uma troca de ideias com a deputada do BE Mariana Mortágua, em que o gestor assumiu que é normal dar avales pessoais superiores ao dinheiro que se tem.

A senhora deputada pode dar os avales que quiser sem ter dinheiro ou não sabe disso?", afirmou Diogo Gaspar Ferreira, ao que a parlamentar do BE respondeu: "Eu posso tentar, duvido é que me aceitem".

Então vá para uma empresa, peça empréstimo e veja o que é que lhe acontece", retorquiu o gestor.

Trabalhei durante 20 anos, ganhei bem, consegui poupar alguma coisa e pus tudo em Vale do Lobo. Chegou a 2010 e não tínhamos dinheiro para pagar salários ou para pagar impostos. E a Caixa disse 'eu empresto-vos dinheiro na condição de darem aval pessoal'", acrescentou Diogo Gaspar Ferreira.

O gestor contou então que "o montante que foi pedido na altura foi de 10 ou 13 milhões de euros” e que os gestores da sociedade deram o aval.

Perguntar-me-á se eu tinha 10 ou 13 milhões de euros? Não tinha", assumiu.

Diogo Gaspar Ferreira explicou que "é uma forma da banca pressionar investidores para saberem que, mesmo que não tenham [dinheiro], não vão largar a perna e vão ter de resolver o problema satisfatoriamente”.

“É assim que a banca faz", justificou.