A Caixa Geral de Depósitos (CGD) teve lucros de 86,2 milhões de euros no primeiro trimestre deste ano, menos 31,6% do que os 126,1 milhões de euros de igual período do ano passado, informou esta quarta-feira.

Segundo as contas enviadas à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), entre janeiro e março, o banco público reforçou em 60 milhões de euros as imparidades de crédito e provisão para garantias bancárias, o que justifica com a "antecipação dos efeitos expectáveis da crise económica".

Ainda de acordo com a CGD, o resultado do primeiro trimestre já reflete na segunda quinzena de março os efeitos da crise desencadeada pela pandemia de Covid-19 e as medidas decorrentes da declaração de estado de emergência, com “redução da transacionalidade e da procura de crédito, quer por empresas, quer por particulares”.

Quanto aos indicadores de negócio, no primeiro trimestre, a margem financeira caiu 7,3% para 262,8 mil milhões de euros, o que a CGD atribui à atual conjuntura de taxas de juro e aos "elevados reembolsos antecipados de crédito por entidades públicas ocorridos em 2019, dado o baixo custo de financiamento do Estado".

Já as comissões aumentaram 4,1% face ao período homólogo para 122,5 milhões de euros.

Também os resultados de operações financeiras cresceram 136,8% para 32,8 milhões de euros, o que a CGD disse que aconteceu "apesar do impacto negativo verificado no mês de março".

Os outros resultados de exploração diminuíram 85,4% para 5,0 milhões de euros, diminuição que o banco atribui ao facto de no primeiro trimestre de 2019 ter sido registada a mais-valia da venda do imóvel da Rua do Ouro.

Do lado dos gastos, os custos de estrutura totalizaram 271,4 milhões de euros no primeiro trimestre, menos 1,4% face a março de 2019.

Já os custos com pessoal subiram uns ligeiros 1,0% para 190,5 milhões de euros, mas isto sem incluir o custo não recorrente de 61,3 milhões de euros para os programas de pré-reformas e rescisões por mútuo acordo.

Quanto ao balanço, o crédito a clientes (líquido) era de 48.008 milhões de euros no final de março, menos 5,7% do que no mesmo mês do ano passado, uma redução que a a CGD indicou que foi "fortemente influenciada" pela venda de crédito malparado e pelo vencimento antecipado de créditos por empresas públicas, em 2019.

Além disso, indicou, o ritmo de crescimento da nova produção de crédito já sofreu um abrandamento no final do primeiro trimestre "influenciado pela conjuntura adversa".

Na CGD Portugal, o crédito à habitação caiu 3,2% face a período homólogo para 23.558 milhões de euros e o crédito a empresas manteve-se praticamente inalterado com 13,8 mil milhões de euros em empréstimos.

Contudo, referiu, só no primeiro trimestre foram contratadas 4.545 operações de crédito habitação na CGD Portugal no valor de 507 milhões de euros, mais 12,9% face ao período homólogo.

Já o crédito a empresas em Portugal, afirmou que cresceu 7,6% se for excluído o financiamento a setores de construção e imobiliário.

No final de março, a CGD tinha um rácio de crédito malparado (NPL na sigla em inglês) de 4,5%.

Do lado dos depósitos, estes aumentaram 4% em termos homólogos para 67.364 milhões de euros no final de março.

Por fim, quanto a indicadores de solvabilidade, o rácio de capital CET1 era de 16,6% no final de março e o rácio de capital total de 19,2%, em ambos os casos abaixo dos valores de dezembro passado, o que o banco justifica com a desvalorização das carteiras de dívida pública.

O banco público fechou março com 7.066 trabalhadores na atividade doméstica, menos 34 do que no final do ano passado, e 551 unidades comerciais (incluindo agências, espaços Caixa e gabinetes de empresas), mais três do que em final de 2019.

Ainda hoje, a CGD confirmou que vai seguir a recomendação do Banco Central Europeu (BCE) e que proporá na assembleia-geral que não sejam distribuídos ao Estado dividendos referentes a 2019, integrando esse montante em reservas.

No orçamento do Estado de 2020, o Governo previa que a CGD entregasse 237 milhões de euros em dividendos referentes a 2019.

Moratórias de crédito

A CGD tinha, na última segunda-feira, pedidos de 54 mil clientes para moratórias de crédito, disse o administrador José de Brito na apresentação dos resultados do primeiro trimestre.

Segundo o responsável, até segunda-feira, já o número de pedidos de clientes elegíveis era de 47 mil, com um valor total de capital dos créditos de 5,7 mil milhões de euros.

Dos clientes elegíveis para moratórias, até à mesma data, tinham já sido aprovados pedidos de moratórias de 38 mil clientes, cujos empréstimos totais ascendem a 4,7 mil milhões de euros.

José de Brito explicou que cada cliente pode pedir moratórias para vários créditos (por exemplo, crédito à habitação e crédito automóvel), pelo que os dados da CGD podem não ser diretamente comparáveis com os de outros bancos.

Desde final de março está em vigor a lei que permite a suspensão dos pagamentos das prestações de créditos à habitação e créditos de empresas (capital e/ou juros) por seis meses, de abril a setembro, estando a ser estudada pelo Governo a hipótese de essas moratórias serem estendidas. O objetivo é aliviar a carga financeira das famílias por causa da pandemia de Covid-19.

Também os principais bancos que operam em Portugal acordaram moratórias para crédito ao consumo (não abrangido pela lei do Governo) e crédito à habitação, sendo que podem aceder à moratória clientes com quebras de 20% nos seus rendimentos (que a lei do Governo não abrange).

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