O impacto da pandemia que o mundo atravessa chega a todos os setores da atividade económica e o imobiliário também vai sofrer esse efeito.

O isolamento em casa e o teletrabalho trazem uma nova realidade, que pode estender-se no tempo muito para além do fim da pandemia, e a crise económica que vai afetar empresas e famílias, ameaça também o rendimento de quem vive do mercado imobiliário.

Até casas estão a ser vendidas online

O recurso à Internet para fazer compras vai além de refeições e produtos de mercearia. Nos dias que correm, com as pessoas confinadas em casa e muitas empresas a funcionarem apenas em teletrabalho, até casas se estão a vender sem qualquer presença física.

A Jones Lang LaSalle (JLL) está em teletrabalho desde o dia 13 de março e, desde então, concluiu mais de uma dezena de vendas de casas “com contacto exclusivamente online”.

“Estamos a adaptarmo-nos a uma nova realidade, uma crise tão desafiante em todas as esferas da nossa vida, e muito orgulhosos por estar a manter o negócio ativo apenas com recurso a contactos e ferramentas digitais”, refere a imobiliária em comunicado, considerando isto “uma prova de que o mercado residencial é um dos mais resilientes no contexto em que vivemos”.

Uma das novidades no processo de venda online têm sido visitas às habitações em live streaming, permitindo aos clientes um contacto mais próximo e personalizado com os imóveis sem deixar de garantir as necessidades de afastamento social impostas pela pandemia”, explica.

Com recurso a várias ferramentas digitais, “a JLL reforça a sua aposta na apresentação dos imóveis em construção, vendidos em planta, uma das principais mais valias no seu portefólio. Com os processos de construção na grande maioria a continuar, estes são imóveis naturalmente mais bem preparados para serem percebidos, sem necessitarem de visitas”.

“Recorrer a este tipo de processos trata-se não só de criar uma oportunidade no atual momento de crise, como também poderá ser um teste-piloto para o futuro. Num mundo cada vez mais digitalizado e globalizado, com clientes de toda a parte do planeta, esta poderá ser uma solução a utilizar com maior frequência em alguns momentos da negociação. Isso permitirá poupar tempo aos nossos clientes e investidores, além de otimizar o trabalho das nossas equipas”, conclui a empresa.

Empresas vão precisar de menos espaço

Um estudo da MGVM a nível europeu, e que inclui Portugal, diz que “as empresas vão repensar as suas políticas de teletrabalho a partir de casa e alargá-las, com uma redução esperada na procura de escritórios” e que “com a queda da procura por espaços maiores no mercado de escritórios, haverá espaços vazios e as rendas vão baixar”. É a lei da oferta e da procura a funcionar.

Neste novo contexto, diz a MGVM, muitas empresas vão procurar mudar-se para espaços mais pequenos e que, aquelas que continuarem a expandir-se, fá-lo-ão sem precisarem de instalações maiores.

O estudo antecipa que muitas das empresas com espaços arrendados verão a sua atividade afetada pela crise da Covid-19, e terão dificuldades para pagar as rendas enquanto durar o estado de emergência.

Investidores e senhorios vão sofrer um impacto significativo nos seus rendimentos”, adverte.

As oportunidades que advêm da crise

Miguel Kreiseker, managing director da MVGM Portugal diz que “a pandemia provocada pelo novo coronavírus apresenta grandes desafios para o mercado imobiliário”, mas  que “a médio prazo a nossa vida regressará à normalidade e os desafios atuais levarão inevitavelmente à criação de respostas mais inovadoras”.

O responsável acredita que “neste novo contexto surgirão oportunidades ligadas à logística, reformulação dos grandes espaços comerciais e implementação alargada do teletrabalho, favorecendo o mercado imobiliário português num futuro próximo, com estrangeiros a procurar residência no nosso país pela segurança e bom clima, trabalhando à distância. Estas inovações poderão assumir-se como cruciais no regresso ao crescimento”.

Comércio leva duro golpe e penaliza inquilinos e senhorios

No que toca ao retalho, a consultora diz que se espera que no final do período de distanciamento social, estimado em três meses, “muitos dos comerciantes mais pequenos não conseguirão reabrir sem o apoio dos seus senhorios” e por isso “espera-se que aumentam os espaços vazios, mesmo com o apoio dos senhorios e as medidas do Estado”.

O Governo decidiu que as rendas em geral para os próximos três meses não serão cobradas, sendo o seu pagamento adiado para depois do estado de emergência, em 12 prestações. “Para alguns inquilinos com negócios seriamente afetados pela pandemia, isto é insustentável. Isto coloca pressão acrescida sobre inquilinos e senhorios da mesma maneira. Os inquilinos com dificuldades estão a pedir ajuda aos senhorios, e há alguns acordos a ser feitos fora das regras criadas pelo Governo”, refere o estudo.

No grande comércio também há alterações: “As vendas online estão a crescer e vão continuar a subir, criando a necessidade de os supermercados e centros comerciais se adaptarem a esta nova realidade mais depressa do que o esperado”.

As cadeias de abastecimento estão a funcionar e o comércio eletrónico disparou, como seria de esperar, de tal forma que algumas plataformas de distribuição de bens alimentares e para o lar estão com dificuldades em responder às encomendas.

Mas a consultora avisa que o que começou por ser uma solução de recurso para o momento atual pode tornar-se numa “nova tendência no que toca ao comportamento dos consumidores” e o comércio online pode ser a nova opção de muitos portugueses.