A Caixa Geral de Depósitos (CGD) apresentou, esta sexta-feira, prejuízos de 1.859 milhões de euros,mais de dez vezes superior aos resultados negativos de 171,5 milhões registados em 2015, divulgou o instituição bancária. É o maior prejuízo de sempre na história do banco público.

Este é o sexto ano consecutivo de prejuízos do grupo e os 1.859 milhões de euros são resultados negativos históricos.

O banco constituiu em 2016 provisões e imparidades (para fazer face a potenciais perdas, sobretudo para crédito) de 3.017 milhões de euros, o que compara com os 715 milhões de euros do ano anterior, e que a instituição diz que "foi decisivo para o resultado líquido".

Ainda quanto a resultados, a CGD indica que o produto bancário reduziu-se 22,6%, para 1.547,2 milhões de euros, que justifica com a "redução em 266,4 milhões de euros nos resultados em operações financeiras, que atingiram os 79,5 milhões de euros, e da quebra de 189,0 milhões de euros nos outros resultados de exploração (igualmente decorrente do exercício de avaliação de ativos)".

Já a margem financeira, que faz parte do produto bancário, cresceu 5,5% para 1.144,9 milhões de euros.

Em termos de gastos, os custos operativos do grupo caíram em 2016 9,1% face a 2015 para 1.240 milhões de euros.

Apenas na atividade doméstica, ao queda foi ainda maior, de 15,1%, para 497 milhões.

Analisando o balanço, na CGD em Portugal o crédito a clientes desceu 3,5% para 51,5 mil milhões de euros e os depósitos reduziram-se 5,2% para 56,2 mil milhões de euros.

Quanto a indicadores de solvabilidade, os rácios CET1 eram em dezembro passado de 7,0% e 8,1%, no período transitório e total, respetivamente, mas diz a instituição que melhorarão significativamente após a recapitalização.

Os resultados de 2016 são referentes às administrações lideradas por José de Matos, até final de agosto (parte importante do tempo em gestão), e de António Domingues, de setembro até final de dezembro.

Desde o início do ano, após a saída de Domingues com a polémica envolvendo as suas declarações de rendimentos e património, que o banco tem Paulo Macedo como presidente executivo e Rui Vilar como presidente não executivo ('chairman').

Em conferência de imprensa, o presidente executivo da CGD, Paulo Macedo, realçou para a manutenção da base de clientes do banco durante o ano passado, apesar de todos os problemas que a instituição atravessou.

Em 2016 temos um conjunto de imparidades que foram feitas de mais de 3.000 milhões de euros que deram origem ao prejuízo de 1.859 milhões de euros no exercício. É um resultado que, em termos estruturais, é positivo, porque revela que os clientes quiseram continuar com a CGD em 2016", assinalou o responsável.

Depois da apresentação dos resultados de 2016, Paulo Macedo estimou que o banco público voltará aos lucros em 2018, depois de em 2016 ter apresentado prejuízos históricos de 1.859 milhões de euros.

Segundo o presidente executivo, o banco espera ter já este ano resultados positivos na atividade corrente mas, por efeito de operações extraordinárias (como poderão ser mais provisões e imparidades), o resultado de 2017 ainda deverá ser negativo.

Falando aos jornalistas, Paulo Macedo escusou-se ainda a comentar as críticas que têm sido dirigidas ao governador do Banco de Portugal (BdP) devido ao caso BES, defendendo apenas a importância de haver estabilidade nos supervisores.

Haver uma estabilidade dos órgãos de supervisão é algo bastante importante", atirou Paulo Macedo, depois de ter realçado que não lhe compete comentar questões relacionadas com o supervisor bancário.

Quanto à reforma da supervisão do sistema financeiro, que prevê a criação de uma nova entidade de cúpula, com a "responsabilidade última da estabilidade financeira", anunciada na quinta-feira no parlamento pelo ministro das Finanças, Mário Centeno, o líder da CGD também não se alongou em comentários.

200 empresas responsáveis por grande parte de imparidades

O presidente executivo da CGD disse que apenas cerca de 200 empresas são responsáveis pela constituição em 2016 de uma fatia importante dos mais de 3.000 milhões de euros de imparidades, que levaram a prejuízo histórico.

O que acontece na Caixa Geral de Depósitos é o mesmo de outros bancos. Um elevado volume do conjunto de imparidades são de empresas que são comuns a outros bancos", afirmou Paulo Macedo.

Já anteriormente o responsável tinha dito aos jornalistas que foi essa constituição de provisões de imparidades que justificou um prejuízo histórico de 1.859 milhões de euros no grupo CGD em 2016.

Voltado a questionar pelos jornalistas sobre este tema, o gestor precisou que se tratam de "duas centenas de empresas" que justificaram parte importante das provisões e imparidades.

Sobre a constituição de mais provisões e imparidades no futuro, sobretudo para fazer face a perdas com créditos problemáticos, admitiu que haverá com certeza necessidade de fazer mais provisionamento mas garantiu que longe dos valores de 2016.

Marcelo diz que prejuízos foram "desagravados"

O Presidente da República relativizou os prejuízos de perto de dois mil milhões de euros registados pela CGD, dizendo que foram "desagravados" face aos três mil milhões anteriormente apresentados junto das instituições europeias.

Questionado sobre os prejuízos agravados da CGD, o chefe de Estado corrigiu: "Eu diria desagravados, porque o número apresentado à Comissão Europeia e ao Banco Central Europeu era três mil milhões e a recapitalização prevista era em função de três mil milhões".

A notícia que tivemos hoje é a de que os prejuízos não são três mil milhões, são 1.900 milhões, o que significa que os portugueses terão de entrar com menos dinheiro e que a recapitalização feita pelo Estado será ligeiramente abaixo daquilo que estava previsto", acrescentou.

O Presidente da República reforçou esta mensagem: "Sabendo nós que o panorama que tínhamos no passado não era bom, apesar de tudo, a notícia é a de que os prejuízos apurados são quase metade do que se pensava. Portanto, a recapitalização vai descer um pouco".

Interrogado se considera que faz sentido o parlamento ouvir o ministro das Finanças, Mário Centeno, e o presidente executivo da CGD, Paulo Macedo, sobre os prejuízos do banco público, Marcelo Rebelo de Sousa respondeu que "pode acontecer que seja interessante saber por que é que, em vez de ser um prejuízo tão grande como o que se pensava, de três mil milhões, tenha passado para 1.900 milhões".

O chefe de Estado referiu que "o valor de três mil milhões já tinha sido apresentado pela administração anterior e pelo ministro das Finanças".

Emissão de dívida avança ainda este mês

A Caixa Geral de Depósitos vai realizar ainda este mês a emissão de dívida subordinada no montante de 500 milhões de euros, uma parte importante da operação de recapitalização em curso no banco público.

Esta informação foi avançada em conferência de imprensa pelo administrador financeiro, José de Brito, tendo acrescentando que no prazo de 18 meses será realizada a restante emissão de dívida, de 430 milhões de euros.

A emissão de dívida que a CGD está a preparar faz parte do processo de recapitalização do banco, com o objetivo de aumentar o seu capital em cerca de 5.000 milhões de euros, o que servirá para assumir maiores níveis de imparidades (perdas potenciais, nomeadamente com créditos), cumprir rácios de capital (indicadores de solvabilidade da instituição) mais exigentes e ainda fazer face aos custos da reestruturação que será feita (sobretudo saída de pessoal, nomeadamente através de reformas).

O anuncio surge no mesmo dia em que a Comissão Europeia autorizou a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos (CGD), no montante de 3,9 mil milhões de euros, após concluir que a operação não constitui um novo auxílio a favor do banco público.

/ AM - Notícia atualizada às 21:46