Março de 2020 marcou o início de uma nova fase do mercado de trabalho em Portugal. Com o aparecimento dos primeiros casos de covid-19 em território nacional, o país estancou num confinamento que potenciou efeitos colaterais que afetaram negativamente o pânorama socioeconómico nacional.

A incerteza instalou-se e as empresas adaptaram-se à nova realidade. Trabalhadores remotos, menos volume de negócio ou regimes de lay-off atingiram vários setores, tendo tido um impacto direto na taxa de desemprego nacional.

A pandemia transformou formas de estar e de trabalhar, e qual é o impacto que isso tem na compensação? As políticas mais ágeis, com maior flexibilidade e possibilidade de escolha para os colaboradores parecem ser um dos caminhos. Olhar a compensação integrada na proposta de valor das organizações para as suas pessoas é cada vez mais essencial”, explica Tiago Borges, Business Leader de Career da Mercer Portugal.

Ultrapassado o olho do furacão, o mercado do trabalho está a voltar a restabelecer-se e 2021 parece mesmo ser o ano da retoma.

O estudo Total Compensation Portugal 2021, realizado pela Mercer, conta com a maior amostra de sempre de empresas participantes. Entre as mais de 500 empresas do mercado português inquiridas, 31% refere que tem intenção de aumentar o número de colaboradores ainda este ano.

A tendência não desaparece em 2022, com 27% dos empregadores a manterem a expectativa de voltar a contratar, sendo que 41% não decidiu até à data se pretende aumentar, manter ou reduzir o número de efetivos.

Se há um ano atrás nos questionávamos sobre se as alterações relacionadas com a pandemia viriam para ficar, hoje sabemos que sim e que o teletrabalho ou a flexibilidade passarão a fazer parte do dia-a-dia das organizações. A questão atual está sobretudo relacionada com encontrar o equilíbrio certo a vários níveis, incluindo na compensação”, diz ainda Tiago Borges.

De acordo com os dados analisados, a maioria das organizações "aponta como principais fatores ao incremento salarial: o desempenho individual do colaborador, o posicionamento na grelha salarial e os resultados da empresa".

No espectro oposto, apenas 7% destas empresas revelam que têm previstas reduções do número de funcionários.

Do ponto de vista dos aumentos salariais, 2022 será mesmo o ano mais forte com as subidas a superarem as que se vão verificar em 2021. Estas revisões das remunerações deverão ocorrer ao longo do ano, com especial incidência em janeiro (21%), abril (21%) e março (19%), sendo que 29% das organizações ainda não tem uma data definida.

Os congelamentos de salários também parecem não ter resistido ao processo de vacinação. Este número vai decrescer de 11%, em 2021, para 7% no próximo ano. No pico da pandemia em Portugal, em 2020, este valor fixava-se nos 17%.

Os dados observados em 2021 no âmbito do Total Compensation apresentam-se como sinais de uma recuperação positiva da pandemia. A maioria das organizações demonstra agora mais confiança, e assumem a intenção de contratar e de oferecer incrementos salariais aos seus colaboradores. Os próprios colaboradores parecem estar mais confortáveis com situações de mudança, fator que pode ser avaliado através do indicador de rotatividade voluntária. Apesar de ainda um pouco distantes do observado em 2019, todos os indicadores apresentam uma evolução muito favorável”, refere Marta Dias, Rewards Leader da Mercer Portugal.

Os benefícios oferecidos pelas empresas aos colaboradores mais comuns continuam a ser o plano de saúde (92%) e o automóvel (89%), mas existe uma preocupação das empresas cada vez mais evidente nos apoios a formação que chegam agora aos 46%.

Para este estudo foram analisados os postos de trabalho de 502 empresas presentes no mercado português. A amostra do estudo Total Compensation 2021 é constituída maioritariamente por empresas internacionais (62%) com a localização da Casa Mãe, em cerca de 24% dos casos nos Estados Unidos da América e 16% na Alemanha. As empresas nacionais correspondem a 38% da amostra analisada.

Relativamente ao Número de Colaboradores, 49% da amostra analisada é constituída por empresas com um quadro de pessoal até 100 colaboradores. Destaca-se ainda que 18% da amostra corresponde a empresas com mais de 500 colaboradores. Há um relativo equilíbrio entre Géneros, ainda que o masculino se apresente com mais 2% face ao feminino (48% feminino e 52% masculino).

O Total Compensation é um estudo económico realizado todos os anos desde 1998 e possibilita que as empresas respondam às suas necessidades de benchmark, e conheçam as políticas e práticas de compensação e benefícios no mercado português.

Nuno Mandeiro