Um conjunto de organizações ambientalistas acusou, nesta segunda-feira, a indústria dos combustíveis fósseis de aproveitar a pandemia para apanhar “dezenas de milhares de milhões” de fundos para a recuperação económica, valendo-se da proximidade com os decisores europeus.

Uma campanha da Fossil Free Politics hoje divulgada revela “um esforço enorme do lóbi da indústria dos combustíveis fósseis” para se aproveitar de “relações confortáveis com decisores de alto nível, sem respeito por conflitos de interesses”, incluindo em Portugal.

Portugal contratou um patrão do petróleo para elaborar o seu plano de recuperação da covid-19”, afirmam, referindo-se a António Costa e Silva, o gestor da petrolífera Partex que escreveu o Programa de Recuperação Económica e Social.

Para a campanha Fossil Free Europe, a contratação de Costa e Silva pelo primeiro-ministro foi Portugal a “pôr os seus planos de recuperação diretamente nas mãos de um barão do petróleo”.

Costa e Silva declarou que não existia nenhum conflito de interesses, apesar de o plano cobrir áreas como a transição energética, a descarbonização e as infraestruturas e de se ter oposto à decisão do Governo de impedir novas explorações de petróleo e gás no Algarve”, afirmam.

“Os mais altos quadros da Comissão Europeia tiveram três reuniões semanais com os lobistas dos combustíveis fósseis enquanto vários países europeus estavam em confinamento”, acrescentam.

Consideram que a aproximação da indústria aos decisores ameaça fazer descarrilar o Pacto Ecológico Europeu e que “apesar das promessas dos governos e da Comissão Europeia de ‘reconstruir melhor’, as marcas dos combustíveis fósseis estão por toda a parte nos planos de recuperação nacionais e europeus”.

Afirmam ainda que durante a pandemia, diminuiu a transparência nestas relações entre a indústria e os políticos, com um “ataque de lóbis sobre a União Europeia que se destina a manter tudo como antes” e um enfraquecimento da regulação sobre o setor.

Itália fez um empréstimo garantido pelo Estado à petroquímica Maire Tecnimont”, enquanto “o Banco Central Europeu, que não impôs qualquer tipo de condições ambientais, usou títulos de crédito para ajudar companhias petrolíferas como a Repsol, Shell, Eni, OMV, Total” e a elétrica alemã E.ON, que usa centrais a carvão.

“Muitas estratégias de recuperação consistem em despejar dinheiro dos contribuintes nas falsas soluções favoritas da indústria dos combustíveis fósseis, incluindo gás natural, compensação de emissões, captura e armazenamento de dióxido de carbono e hidrogénio, que farão piorar a emergência climática”, referem.

Apontam que o gás natural, mostrado como “um combustível fóssil amigo do ambiente”, é na verdade um recurso cuja exploração “liberta quantidades perigosas de dióxido de carbono e metano para a atmosfera”.

Quanto à captura de carbono, a sua viabilidade económica está “sempre adiada: é uma tecnologia que ainda não foi comprovada, que protela o abandono dos combustíveis fósseis e que é muitíssimo mais cara do que mudar simplesmente para as energias renováveis”.

Em relação ao hidrogénio, que também está nos planos do Governo português, com uma estratégia nacional para a sua produção e exportação a partir de fontes renováveis, a Fossil Free Europe afirma que é “a panaceia mais recente apresentada pela indústria”, mas que, na realidade “96% do hidrogénio atual baseia-se em combustíveis fósseis”.

A ‘promessa’ de hidrogénio verde vai permitir que o hidrogénio a partir dos combustíveis fósseis se expanda, aproveitando-se de grandes investimentos na sua infraestrutura”, consideram.

Os ambientalistas apelam para a criação de uma barreira que impeça os representantes da indústria de se aproximarem dos decisores: “nada de reuniões com lobistas; nada de lugares em conselhos consultivos”.

Defendem ainda que se acabem com situações de conflitos de interesses, que deixe de haver “portas giratórias entre cargos públicos e a indústria dos combustíveis fósseis”.

Os ambientalistas querem também acabar com “o tratamento preferencial da indústria dos combustíveis fósseis”, tirando-a das negociações climáticas e cortando “subsídios e incentivos” ao seu uso.

Pretendem ainda que acabem as parcerias, os patrocínios, os donativos a partidos ou candidatos da indústria.

Na plataforma Fossil Free Politics estão representadas as organizações Greenpeace, Corporate Europe Observatory, Food & Water Action Europe e Friends of Earth Europe.

/ CM