Tratar o desemprego a jusante e reconfigurar a área da saúde serão dois dos “grandes desafios” de Portugal no pós-pandemia, alertou hoje António Costa e Silva, consultor do Governo e autor do plano de recuperação económica.

Teremos um grande desafio na área da saúde. O âmbito dos desafios da saúde foi muito alargado. Temos uma interrogação grande: o que é a segurança hoje quando a segurança da própria espécie humana está em causa. Isso implica uma reconfiguração brutal do Serviço Nacional de Saúde. Há que mudar as métricas e fazer a pergunta ‘investir em saúde hoje é uma despesa ou um ativo?’”, referiu António Costa e Silva na conferência “Como vamos viver depois da pandemia?”.

O engenheiro, que foi autor do plano de recuperação económica do executivo socialista de António Costa, juntou o tema do desemprego como “uma das coisas mais importantes” com que Portugal se vai confrontar no pós-covid-19, mas alertou: “o problema do desemprego está a jusante”.

Esta crise tornou visível que há constrangimentos estruturais de base no nosso desenvolvimento”, disse Costa e Silva, dando como exemplos as empresas descapitalizadas, a dívida pública inibidora, a exiguidade do mercado interno, o baixo nível de investimento e o baixo nível de produtividade, bem como o nível elevado da fiscalidade em Portugal.

 

Temos de revisitar todas estas questões e mudá-las”, afirmou Costa e Silva, numa conferência que decorreu via ‘online’ e foi organizada pelo Jornal de Notícias em parceria com a câmara de Vila Nova de Gaia, do distrito do Porto.

António Costa e Silva comentou que muito se tem falado do que é negativo, mas existem “aspetos fundamentais que a crise [pandémica] veio exponenciar que são positivos”, tendo enumerado a digitalização das empresas como “oportunidade” de aumentar a produtividade” e criar ganhos de escala e ganhos de eficiência, bem como a aceleração da revolução tecnológica.

Mas para fazermos a transição significativa, não podemos esquecer a ponta do icebergue: temos uma crise ambiental e climática que é dramática para o planeta. As emissões diminuíram durante a pandemia, mas temo que voltemos ao consumo exponencial de recursos”, analisou.

A conferência “Como vamos viver depois da pandemia?” foi introduzida pelo ex-ministro da Economia e antigo presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, Luís Braga da Cruz, que falou dos níveis de governação do país, considerando que Portugal “não explora bem o princípio da subsidiariedade que define o modelo europeu”.

É cada nível fazer bem aquilo que sabe fazer bem e não o transferir para o nível superior. Em Portugal, dermos as voltas que dermos, optamos pelo modelo centralista. O modelo centralista gera muita disfunção. É caro e é difícil resolver problemas no modelo centralista porque tudo é mais complexo”, defendeu Braga da Cruz.

O antigo governante deu exemplos relacionados com a pandemia da covid-19, apontando-os como “bons”, mas depois concluiu que as Administrações Regionais de Saúde “por muita autonomia que tenham, não têm responsabilidade política para responder”.

Quando foi dada autonomia ao Hospital de São João para se organizar no combate à pandemia foi um êxito. É um caso de estudo bem-sucedido. Acredito que o nível municipal também deu resposta adequada (…). No nível de região, que é estratégico, estamos dependentes do centro e o centro não tem capacidade para fazer tudo bem feito (…). É um défice que qualquer país evoluído já resolveu e nós continuamos a não resolver”, analisou.

Indo ao encontro da análise de Braga da Cruz, Costa e Silva disse que “o país tem de fazer uma reflexão profunda sobre o seu modelo de governação” e que Portugal “não vai conseguir sair do fosso sem contratos de desenvolvimento regional”.

Penso que o país não está preparado para regionalização, mas tem de se descentralizar”, frisou.

Numa conferência em que também participaram o virologista Pedro Simas, o sociólogo Moisés de Lemos Martins, e o presidente da câmara de Vila Nova de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, o economista Pedro Pitta Barros disse, quando o debate estava centrado na questão do desemprego, que “provavelmente irão surgir novas necessidades (…) que podem levar a absorver algumas das pessoas que saem das áreas” que estão a sofrer com a pandemia como o turismo e a restauração, ideia com a qual Braga da Cruz manifestou concordar ao referir que “as pessoas podem vir a ser reorientadas para outras funções”.

Admitindo ser conservador, Pitta Barros também defendeu que Portugal “não precisa de uma mudança radical porque as mudanças radicais ficam paradas” no que diz respeito à articulação público/privado na área da saúde.

Quanto ao teletrabalho, o economista disse não ter a certeza de toda a experiência seja para ficar: “O teletrabalho dilui muito a fronteira entre trabalho e família e vamos ter de recuperar esse equilíbrio”, concluiu.

/ LF