Os mercados estão atentos mas não alarmados em relação à decisão da Arábia Saudita e dos aliados, de cortarem relações com o Qatar, um gigante do gás natural liquefeito (GPL). O país está a ser acusando de apoiar grupos terroristas e abalar a indústria da energia.

O maior impacto em termos de mercados de energia teria mais a ver com o gás natural do que com o petróleo. Apesar de ser a região onde está um quinto da produção mundial de petróleo, o Qatar é especialmente relevante na exportação de gás natural. Olhando para as cotações de hoje, vemos o petróleo apenas ligeiramente mais alto (+0.4%) e o gás natural a subir 1.2%, embora esse mercado seja essencialmente norte-americano e por isso menos relacionado”, disse à TVI24, Filipe Garcia, economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros

João Queiroz, responsável pela banca online do Banco Carregosa/ Gobulling,  também não acredita que os preços da matéria-prima disparem.

Um “impacto limitado” diz, acrescentando: “Atendendo que nos EUA já estaremos na “driving season”, no cenário mais agudo a cotação do crude talvez pudesse regressar aos máximos deste ano mas teria dificuldade em manter-se a cotação elevada porque os produtores dos EUA teriam um estímulo acrescido para aumentar a sua atividade através do “shale gas” [uma variante do gás natural que está em grande expansão, sobretudo nos Estados Unidos]”.

Também o gestor de ativos da Orey iTrade, José Lagarto, refere que "a reação do mercado não se fez esperar e o petróleo no início da semana registou de imediato valorizações, com receios de que a produção pudesse vir a ser afetada. Sem qualquer evolução da atual situação, a reação registada durante o início da sessão asiática, poderá ser o único impacto no preço, ou seja uma súbita valorização de pouco mais de 1%, que, entretanto, foi completamente diluída com o preço do petróleo de momento a negociar abaixo do fecho da semana passada".

"As notícias em torno de aumento de produção norte-americana devido ao abandono de Donald Trump do acordo climático de Paris e ainda as previsões russas de que poderemos voltar a preços abaixo de $40 após o acordo de corte de produção expirar continua a ter um maior impacto negativo nos preços", conclui José Lagarto.

Para já o impacto está a ser sentido apenas nos mercados locais, com a bolsa e moeda do Qatar em queda. E regionalmente, há também relatos de problemas na aviação, dado o cancelamento de muitos voos. O Brent, que serve de referência às importações portuguesas, está a cotar em tornos dos 50 dólares por barril.

Evolução da cotação do Brent em Londres

A Arábia Saudita, juntamente com os Emiratos Árabes Unidos, Egipto, Bahrain e Iémen anunciaram cortar laços diplomáticos com o Qatar incluindo as ligações de transportes fronteiriças.

O Qatar apoia múltiplos grupos terroristas e sectoriais, dispostos a perturbar a estabilidade na região, incluindo o auto proclamado Estado Islâmico. Além de promover as mensagens destes grupos e os seus esquemas através dos media nacionais”, disse a agência noticiosa estatal da Arábia Saudita, SPA, citada pela Reuters.

Agora o  Qatar terá que encontrar alguma solução para este conflito diálogo para não arriscar um embargo às suas exportações.

Não é claro como é que esta crise política vai afetar a política de mercado no seio da Países Exportadores de Petróleo (OPEP) na qual a Arábia Saudita, como maior produtora de petróleo a nível mundial, é vista como o motor das decisões. Fontes da indústria do petróleo da Arábia Saudita, citadas pela Reuters, asseguram que não é esperado que a decisão tenha grande impacto na OPEP, e recordaram que outras questões políticas entre membros da organização, como a Arábia Saudita e o Irão, não impediram a OPEP que se entender no que troca às linhas orientadoras para o negócio do petróleo.

 

Para já, parece cedo para dizer se a tensão terá algum impacto no envio de GPL dentro da região, com o Egito e os Emirados Árabes Unidos a importarem regularmente do Qatar.

De resto, o Qatar responde por quase um terço da procura global de GPL e o Egito, que se esforça para satisfazer suas necessidades de energia, importa, uma média, de 857 mil metros cúbicos por mês de GPL do Qatar, desde janeiro de 2016, de acordo com dados citados também pela Reuters.

Já os Emirados Árabes Unidos importaram, em média, 190 mil metros cúbicos de GPL por mês também do Qatar. Os comerciantes salientaram, no entanto, que outros membros do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), como o Kuwait, que muitas vezes seguem a linha das decisões tomadas pela Arábia Saudita, não levantaram, pelo menos por agora, qualquer ação contra o Qatar. O Kuwait importa, em média, 283 mil metros cúbicos de GPL por mês do país, desde 2016

É também improvável que os carregamentos para os maiores compradores de GPL na Ásia sejam afetados, pelo menos em grande escalada.

Este é um conflito que já dura há vários anos, mas para já não se espera grande impacto do mercado. O Japão, que recebe gás do Qatar, diz não estar preocupado e a Rússia disse hoje que não há causa para alarme e que no passado os países da OPEP colaboraram mesmo durante conflitos diplomáticos”, acrescenta Filipe Garcia.

O Qatar também é um importante exportador de condensado, uma forma ultra-leve de petróleo bruto.