Só nestes primeiros três meses do ano, a Deco recebeu 7.400 pedidos de ajuda de famílias com dívidas, um número que não tem melhorado com o passar dos anos. Apesar de haver menos desemprego e da política de devolução de rendimentos do atual Governo, a verdade é que muitos portugueses se veem numa espiral da qual não conseguem sair.

O desemprego continua a ser das principais causas (24% do total), mas há três novas situações que levam as pessoas a encher-se de (ainda) mais dívidas. Uma delas é o apoio a ascendentes, ou seja, filhos que ajudam os pais, sobretudo idosos, por exemplo a pagar as despesas de lares e de saúde. Este tipo de causa de sobre-endividamento já representa 5% do total. 

Outra é a passagem à reforma, que representa 4% das situações. Geralmente, na entrada desta nova fase, por volta dos 66 e poucos anos segundo a idade legal da reforma, as pessoas passam a ter menos rendimentos, mas as despesas mantêm-se. O problema é que, muitas vezes, têm ainda um crédito para pagar até aos 75 anos.

A terceira nova causa prende-se com negócios que correram mal, muito ligados com o problema estrutural do desemprego, como salientou no espaço Economia 24 do Diário da Manhã da TVI Natália Nunes, coordenadora do gabinete de apoio ao sobre-endividado da Deco: "Esta causa já é responsável por 6% dos casos. Está muito relacionada com o desemprego. Essencialmente famílias que foram confrontadas há alguns anos com situações de desemprego, que resolveram criar o seu próprio posto de trabalho. Infelizmente, existem famílias cujo negócio não foi bem sucedido". 

Quando em 2011 e 2012 dizíamos que o principal problema das famílias no que concerne ao sobre-endividamento era causado por desemprego e estávamos convictos que diminuindo o desemprego, também diminuiam as dificuldades das famílias portuguesas, verificamos que não é bem assim. Estamos em 2018 com uma taxa de desemprego relativamente baixa, e continuamos a ter muitos pedidos de ajudo. Há razões estruturais"

Entre as outras causas de sobre-endividamento, temos a deterioração condições de trabalho, (um exemplo é a perda suplementos remuneratórios); as execuções e penhoras, situações de doença ou incapacidade, alteração agregado familiar e divórcios.

Muita, muita atenção à taxa de esforço ao pedir crédito

Os dados da Deco assustam: a taxa de esforço das famílias portuguesas é de 70%, quando deveria ser, no máximo, metade (35%).

Olhando para os rendimentos da famílias, as contas básicas que têm de pagar mais os créditos, há necessariamente falta de dinheiro ao final do mês. Mas não se pode dizer que tenham sido irresponsáveis na contratação do crédito. Provavelmente até terão olhado para a taxa de esforço, mas todas estas causas que referimos levaram-nas a entrar nesta situação. Houve crédito contratado de forma irresponsável, por parte da banca e das famílias"

A este nível, tanto a Deco como o Banco de Portugal têm avisado, nos últimos momentos, para o aligeirar das condições da concessão de crédito por parte dos bancos. O sentimento de que a crise já passou está a levar à tentação de contratar um empréstimo com grande risco de incumprimento. O crédito à habitação disparou 43% no ano passado. o valor mais alto desde 2010.

Nos últimos anos, até houve melhorias no crédito regularizado, face àquele que está em incumprimento. Neste início de ano, 57% dos empréstimos estão em ordem, contra 43% com irregularidades. Mas todo o cuidado é pouco na hora de assumir um compromisso desta envergadura. 

Cinco créditos em média

Atualmente, cada família tem, em média, cinco créditos. Há dez anos tinha, em média, sete. Uma melhoria, mas ainda assim muitas contas para saldar. 

O que fazer para melhorar esta situação? Desde janeiro que a transposição de uma diretiva europeia pretendeu "apertar" as regras para proteger os consumidores e o Banco de Portugal tem recomendado também mais limite à forma como os bancos emprestam dinheiro.

Quem já tem créditos contraídos, tem sempre a possibilidade de tentar renegociar com o banco e fazer uma melhor gestão do orçamento familiar.

Vanessa Cruz