Paulo Macedo está a caminho da Avenida João XXI em Lisboa, quartel geral da Caixa Geral de Depósitos (CGD). O Governo já confirmou o convite, entretanto, aceite. Se Bruxelas disser que sim, o gestor vai ser o novo presidente do banco público e porá fim a um capítulo pouco enaltecedor da história da instituição financeira.

Mas qual será segredo deste homem, licenciado pelo Instituto Superior de Economia e Gestão, da Universidade Técnica de Lisboa, em 1986, para ser, aparentemente, da esquerda à direita. aquele que muitos querem para resolver problemas quando as alternativas escasseiam? Destemido com certeza.

Paulo Macedo nasceu em Lisboa em 1963. Filho de José Albano Pontes Santos Moita Morais de Macedo – o conhecido pintor e poeta Moita Macedo - e de Maria José Ribeiro, terá sido do pai que herdou o gosto pelas artes – pintura e poesia - que ainda hoje alimenta, ajudando também a perpetuar a obra paterna.

De resto, a morte prematura de Moita Macedo, aos 52 anos, deixou Paulo, um dos mais novos de cinco irmãos, aos cuidados de um único progenitor, apenas com 18 anos.

Mas a admiração pelo pai, essa, ficou para sempre. Bem como as ideias de respeito e igualdade que Moita Macedo, um romântico revolucionário, como se autointitulava, lhe transmitiu. Já que era um homem de esquerda e defensor dos ideais de Abril. Das origens paternas ficou também o gosto pelo Ribatejo, onde a família tem uma pequena quinta na Herdade do Zambujeiro.

“O diabo está nos detalhes”, gosta de dizer Paulo Macedo, segundo confidenciaram à TVI. Uma expressão que revela apreço pelo rigor. Uma característica essencial para quem lida com dinheiro, sobretudo o público.

E contacto com dinheiro público é o que não falta a Macedo. Em 2004, deixou a sua marca no governo de Durão Barroso, quando a então ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite, o convidou para diretor-geral dos Impostos. Ferreira Leite seguiu a opinião do colega da mesma faculdade, Eduardo Catroga, que elogiou as competências em gestão do jovem que tinha conhecido quando este era auditor na consultora Arthur Andersen.

O trabalho ao serviço do Fisco terminou três anos mais tarde, não sem antes nome de Macedo ter sido envolvido numa polémica devido à remuneração que auferia, como diretor-geral dos Impostos no momento da requisição ao BCP (cerca de 20 mil euros brutos). Uma polémica que surgiu depois ter sido aprovado o estatuto dos dirigentes da Função Pública, que impedia a existência, em cargos públicos, de salários superiores ao do primeiro-ministro. 

Paulo Macedo nunca vergou. Preferiu mostrar com trabalho que “tem um profundo respeito pelas instituições”, diz quem trabalhou com ele. Um respeito que o terá também levado a aceitar o novo cargo na Caixa, numa altura em que o banco passa por um momento crítico em termos de credibilidade e precisa da executar um plano no âmbito da recapitalização. Uma recapitalização que até já tem a luz verde da Comissão Europeia.

Quem o conhece acredita que se “vai para a Caixa é por acreditar que só as instituições credíveis e respeitáveis fazem nações fortes”.

Poderá ter sido essa a convicção que fez com que os mais céticos, e até críticos da sua remuneração enquanto “polícia máximo dos impostos” acabassem por o elogiar e lamentassem a sua saída do cargo. É que o corolário da passagem pelo Fisco foram milhões de euros de cobranças difíceis de impostos.

Já com José Sócrates como primeiro-ministro - em 2005 – Paulo Macedo assumiu que era preciso ir mais longe na geração de receitas e procurar novas fontes para coletar dinheiro. Era preciso simplificar o sistema fiscal. O governo PS consentiu e o diretor-geral dos Impostos sobreviveu. Com a saída de Campos e Cunha, Sócrates apostou em Teixeira dos Santos. Este seria o quarto ministro das Finanças a apoiar o homem forte dos impostos.

Mas, em 2007, Macedo deixou os impostos e voltou ao BCP, à casa que o tinha acolhido em 1993 então para direção da unidade de marketing estratégico. Nas suas passagens pelo BCP – com a interrupção para ser diretor-geral dos Impostos - Paulo Macedo chegou a ser vice-presidente do conselho de administração de várias empresas do grupo, entre elas a Companhia Portuguesa de Seguros de Saúde – Médis -, a Ocidental e a Pensões Gere. 

Pode ter sido esta a ponte de ligação que o levou, novamente, ao setor público em 2011, para ser ministro da Saúde.

Novo chorrilho de críticas e muitas contestações, sobretudo à esquerda, convicta que o independente Paulo Macedo, agora ao serviço do Governo de coligação PSD/ CDS-PP, acabaria com o Sistema Nacional de Saúde.

Foi à frente da pasta da Saúde que deu mais uso a outras características que o definem, segundo os que trabalham, com ele: a de ser apaziguador e capaz “de fazer pontes e estabelecer o diálogo”.

Sobre ele, o seu sucessor na Saúde e antigo diretor clínico da Médis, Adalberto Campos Fernandes, disse à revista Sábado que “não é de fácil acesso”, mas depois até demonstra “um sentido de humor apurado”.

Outro colaborador dos tempos do BCP referiu que “é muito objetivo e bom líder de equipas”. “Gosta de tirar o melhor das pessoas”, acrescentou.

Mas como ministro, Paulo Macedo sempre disse que queria uma discriminação positiva na redução da despesa a realizar pelo Governo e garantiu haver limites que não seriam ultrapassados em matéria de cortes. O plano era poupar quatro mil milhões de euros, mas não em todas as áreas da saúde. Acabou por sair envolto em críticas mas houve poupanças.

No ano em que os filhos gémeos, fruto do casamento com Filomena Santos, entraram para a universidade o pai vai aceitar, provavelmente, um dos maiores desafios da sua carreira. Se Domingues foi o eleito, Paulo Macedo é agora o escolhido.

Não deverá fazer uma limpeza na Caixa mas, ao seu jeito, deverá até integrar alguns administradores da equipa do ex-presidente que quase não o foi – a posse aconteceu a 31 de agosto. O comunicado das Finanças diz, exatamente, que essa negociação está em curso.

Paulo Macedo deverá levar consigo, para administrador executivo da CGD, José João Guilherme, antigo administrador do BCP e do Novo Banco, que se junta a Tiago Ravara Marques, João Tudela Martins e Pedro Leitão, todos transitados da equipa de António Domingues, que, até agora nãi renunciaram.

Rui Vilar, que também transita da atual gestão, assumirá a posição de chairman e sem funções executivas, estará também Esmeralda Dourado, antiga presidente do Interbanco.

Viciado em trabalho, metódico, dizem que é paciente e, até, implacável com a falta de rigor, preguiça e negligência. Mais uma vez aspetos que podem favorecê-lo na hora de “arrumar” o banco público. Um banco cujo plano de recapitalização e reestruturação deverá implicar cortes. Cortes a que Macedo já está habituado, sempre que é preciso.

O rigor e “alguma forretice” valeram-lhe os elogios à saída da direção-geral dos Impostos e contas menos folgadas na despedida da Saúde, quer se goste ou não. Quando é para cortar parece que alguém chama Paulo Macedo.

“Tio Patinhas”? Ou, simplesmente, poupado e eficiente? Se assim for tem agora mais um momento para provar o que advoga ter: espírito de missão e serviço público e um profundo respeito pelo dinheiro público e pelos impostos que os portugueses pagam.

Se este for mais um tiro certeiro de Paulo Macedo será, com toda a certeza, bom para a economia portuguesa.

Alda Martins