A um dia da decisão da agência de notação financeira DBRS sobre o rating de Portugal, o presidente do Banco Central Europeu assumiu que se a nota descer para lixo isso trará complicações, uma vez que as regras preveem que o BCE deixe de comprar dívida pública nacional. Ainda assim, Mario Draghi fez questão de elogiar o país. 

Dito isso, temos de reconhecer o progresso notável que tem sido conseguido em Portugal. Claro que há vulnerabilidades que o Governo conhece muito bem".

Para a instituição que supervisiona a banca europeia as maiores preocupações são a reestruturação da dívida empresarial a o excessivo crédito malparado em Portugal. 

Ora antes destas declarações o líder do BCE falou sobre a ameaça que Portugal corre já esta sexta-feira: "Se houver um downgrade [revisão em baixa do rating] os instrumentos de dívida emitidos ou garantidos pela República de Portugal torna-se-ão inelegíveis como colateral para operações de política monetária ou para compras no Programa de Compras do Sector Público".

A agência canadiana tem a faca e o queijo na mão já que é a única que tem Portugal em grau de investimento. Isso tem permitido ao país beneficiar do intenso programa de compra de ativos do BCE, que ascende a 80.000 milhões de euros por mês, o que tem ajudado a conter os juros da dívida soberana em níveis aceitáveis (pouco acima dos 3% a 10 anos, o prazo de referência, embora o ideal seja estarem abaixo desse patamar). 

Nas últimas semanas, a DBRS deixou vários avisos a Portugal por causa do lento crescimento e dos grandes problemas estruturais que persistem, tendo mesmo dito que Portugal está "preso a um ciclo vicioso". Porém, a 10 de outubro o ministro das Finanças garantiu que a agência está "totalmente confortável" com o rating, depois de ter tido uma reunião com os seus responsáveis. 

Já as outras três principais agências - Moody's, Fitch, e Standard&Poor's - olham para Portugal como "grau especulativo", ou seja, colocam-no no lixo, não sendo um bom alvo de investimento.

Pelas 15:00, já depois das declarações de Mario Draghi, a taxa das Obrigações do Tesouro portuguesas a 10 anos caía cinco pontos base para 3,14%, o valor mais baixo em quase seis semanas.

Os juros da dívida neste prazo tem caído bastante nos últimos dois dias, com os investidores a confiar que a decisão da DBRS seja positiva e também depois da apresentação do Orçamento do Estado para 2017 que não se traduziu em nervosismo nos mercados.

Estímulos na zona euro: o que vem aí?

Na conferência de imprensa que se seguiu à reunião de política monetária - na qual ficou decidido manter as taxas de juro na zona euro em níveis historicamente baixos - o presidente do BCE disse que o início da retirada gradual dos estímulos monetários não foi tema de discussão.

Deixou, no entanto, a consideração de que é "improvável que os estímulos monetários cessem de forma abrupta", até porque "as taxas de juro baixas funcionam".

Quanto à inflação, garantiu que o BCE atuará de novo, se for necessário, para que se aproxime de 2%. A instituição continua com o compromisso de "manter um grau de expansão monetária" adequado para assegurar a estabilidade de preços na zona euro.

"O Conselho do BCE continua a esperar que as taxas de juro diretoras permaneçam nos níveis atuais ou em níveis inferiores durante um período alargado e muito para além do horizonte das compras líquidas de ativos", lê-se ainda no comunicado emitido após a reunião.

O programa de compra de ativos no montante de 80 mil milhões de euros mensais durará até ao final de março "ou até mais tarde, se necessário". Na prática, até que a entidade liderada por Mario Draghi "considere que se verifica um ajustamento sustentado da trajetória de inflação".