Em tempo de pandemia, e para quem é possível, como gere o dinheiro em matéria de poupança? É uma pergunta que se impõe.

Dados divulgados hoje pelo portal Pordata - base de dados estatísticos da Fundação Francisco Manuel dos Santos -, para assinalar o Dia Mundial da Poupança, dizem que a poupança das famílias em Portugal, em percentagem do Produto Interno Bruto (PIB) foi de 4,8% em 2019 (provisório) (4,7% em 2018). Muito aquém dos 24% de 1972 e cerca de metade da percentagem de poupança de países como a Alemanha, França, Suécia e Países Baixos, onde esse valor varia entre os 8,2% e os 11,4%.

Os mesmos dados mostram que a poupança dos particulares, em percentagem do rendimento que têm disponível, é hoje cerca de três vezes menos do que a registada em 1979 e em 1989 –7% em 2019 contra os 22,3% de 1979.

Mas se o Pordata reuniu um conjunto de informação com uma base anual, os últimos dados trimestrais do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que a taxa de poupança das famílias, em função do rendimento disponível, foi de 10,6% no trimestre deste ano – o valor mais elevado desde 2013.

Estaremos então a poupar mais? Talvez não. É que, de facto, os números do INE retratam três meses, boa parte dos quais em estado de emergência, em que grande parte dos portugueses esteve em casa e mesmo que tenha consumido nada se compara com a liberdade total de sair e gastar, por exemplo, nas deslocações.

Mas as realidades são diferentes de família para família e dependem muito do que lhes “bateu” à porta com o Covid-19.

Há portugueses a resgatar o PPR devido à pandemia

A TVI foi para o terreno e descobriu que mesmo de portas fechadas e sem trabalhar é possível poupar, mas também houve quem tivesse que recorrer o Plano Poupança Reforma (PPR) para fazer face às despesas mensais.

Contactámos a Associação Portuguesa de Seguradores para perceber quantos portugueses terão resgatados as poupanças desde que a pandemia começou.

Até à data, em 2020, os montantes pagos, em produtos PPR, subiu 72% face a 2019, mas fonte oficial da APS garante que este aumento “está muito aquém do que aconteceu, por exemplo, entre 2010 e 2011.”

Por outro lado, estima-se que, entre maio e agosto, cerca de 70% dos valores pagos se devam ao desenvolvimento normal dos contratos (vencimentos, mortes e transferências) e apenas 30% decorram de fatores extraordinários (reembolsos).

Estima-se também um peso “muito reduzido de reembolsos justificados ao abrigo do regime especial de reembolso decorrente ao surto de Covid-19 (uma média mensal estimada, entre maio e agosto, de cerca de 100 pedidos num stock total de cerca de 1,8 milhões de pessoas seguras no final de 2019).”

E se alguns conseguem poupar, mesmo que seja pela via de menos consumo e outros resgatam as poupanças, muitos nem terão capacidade para fazer nenhumas das duas coisas, por exemplo, nos casos de salários muito baixos.

O Pordata refere que em 2019, uma em cada 3 pessoas (33%) em Portugal era incapaz de fazer face a despesas inesperadas.

Um valor ligeiramente acima da média da União Europeia a 27 que era de 31%.

“No caso das pessoas com rendimentos abaixo do limiar da pobreza, esta percentagem sobe para 64% em Portugal e, embora em valores bastante inferiores, também 27% das pessoas acima do limiar da pobreza não conseguem fazer face a despesas inesperadas sem recurso a empréstimo”, diz o documento a que a TVI teve acesso.

Curiosamente, 2019 foi o ano em que Portugal tinha mais dinheiro depositado à ordem, desde 2003. Do mesmo modo, ainda segundo o Pordata, o consumo privado, que mede os gastos dos particulares, desde as contas da casa à compra de um novo automóvel - ultrapassou em 2019 (132.699,6 milhões euros) o máximo que datava de 2018 (128.810,7 milhões euros).

O crédito, no meio de uma crise sem precedentes, tende a crescer e está a preocupar associações como a Deco. Concretamente, o facto do número de famílias sobre-endividadas estar a aumentar. Desde março e até 30 de setembro chegaram à associação de defesa dos consumidores mais de 14 mil pedidos de ajuda e já há quem gaste 80% cento do salário a pagar créditos mensais.

Sem vermos um fim de mais uma crise, tal vez a maior das nossas vidas, à vista, resta-nos dar os passos menores que as pernas e esperar por melhores dias.

Alda Martins