A EDP – Energias de Portugal considera que o preço oferecido pela China Three Gorges (Europe) para adquirir a elétrica portuguesa é baixo, numa nota enviada hoje à Comissão do Mercado do Valores Mobiliários (CMVM).

O Conselho de Administração Executivo considera que o preço oferecido não reflete adequadamente o valor da EDP e que o prémio implícito na oferta é baixo considerando a prática seguida no mercado Europeu das ‘utilities’ nas situações onde existiu aquisição de controlo pelo oferente”, é referido na nota.

Na sexta-feira, a China Three Gorges lançou uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) voluntária sobre o capital da EDP, oferecendo uma contrapartida de 3,26 euros por cada ação, o que representa um prémio de 4,82% face ao valor de mercado.

Na informação enviada hoje à CMVM, a empresa adianta ter dado início aos procedimentos internos e irá pronunciar-se em “devido tempo sobre os demais termos da oferta” que serão dados a conhecer ao Conselho de Administração Executivo da EDP através do envio pela China Three Gorges (Europe) “do projeto de prospeto que incluirá o detalhe relevante do Projeto Industrial”.

Na segunda-feira, a agência Bloomberg já tinha avançado que a EDP - Energias de Portugal estava a preparar-se para rejeitar a OPA alegando que o valor proposto é baixo.

A CTG, que já detém 23,27% do capital social da EDP, pretende manter a empresa com sede em Portugal e oferece uma contrapartida de 3,26 euros por cada ação, o que representa um prémio de 4,82% face ao valor de mercado e avalia a empresa em cerca de 11,9 mil milhões de euros.

As ações da EDP fecharam na segunda-feira a subir 9,32% para 3,40 euros.

Governo chinês não vê motivos para oposição de “terceiras partes” ao negócio

Entretanto, o governo chinês disse hoje que não vê razões para "terceiras partes" se oporem à OPA, numa altura de crescente escrutínio sobre o investimento chinês no ocidente.

"Quando a cooperação é baseada no respeito mútuo, com benefícios e ganhos para ambos (...) não vejo razões para outras partes contestarem", afirmou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Lu Kang, quando questionado pela Lusa sobre uma possível resistência dos reguladores ao negócio.

"O Governo chinês apoia e encoraja as empresas chinesas a encetarem uma cooperação mutuamente benéfica com empresas portuguesas", acrescentou, em conferência de imprensa.

Lu Kang frisou ainda os "laços amigáveis" entre Portugal e China, argumentando que os dois países "alcançaram resultados bastante positivos" na sua cooperação.

A China tornou-se, nos últimos anos, um dos principais investidores em Portugal, comprando participações importantes nas áreas da energia, dos seguros, da saúde e da banca.

No entanto, a OPA surge numa altura de crescente escrutínio na Europa e Estados Unidos sobre o investimento chinês, com vários negócios a serem bloqueados por motivos de segurança nacional.

Em Portugal, o primeiro-ministro, António Costa, afirmou já que não se opõe ao negócio, mas a operação terá também de ser aprovada por outros países onde a EDP detém ativos, nomeadamente Estados Unidos, Brasil ou Espanha, ou pela Comissão Europeia.

Nos Estados Unidos, o negócio dependerá da aprovação da Comissão para o Investimento Externo, organismo do Governo norte-americano responsável por rever aquisições por entidades estrangeiras suscetíveis de ameaçar a segurança nacional, numa altura de renovada tensão entre Washington e Pequim em torno do comércio e investimento.

Nos últimos meses, aquele organismo de Washington travou vários negócios que envolviam empresas chinesas, incluindo uma oferta de uma subsidiária do grupo chinês Alibaba pela empresa de transferências monetárias MoneyGram, ou a compra de um fabricante de semicondutores do estado de Oregon (noroeste dos EUA) por uma empresa financiada pelo Governo chinês.

Ambos os negócios foram travados por motivos de segurança nacional.

Também na Europa, os avanços estratégicos chineses estão a suscitar maior escrutínio.

Em setembro passado, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, anunciou planos para criar um mecanismo que avalia os investimentos estrangeiros, uma medida vista como sendo destinada à China.

Se uma empresa estrangeira estatal quer comprar um porto europeu, parte da nossa infraestrutura energética ou uma empresa de tecnologia de defesa, isso só deverá acontecer com transparência, escrutínio e debate", afirmou Juncker.

A CTG é detida na totalidade pelo Estado chinês, e diretamente tutelada pelo governo central, através de um organismo conhecido como SASAC (State-owned Assets Supervision and Administration Commission).