O investimento anual em Portugal deverá aumentar 2 mil milhões de euros para tornar o país neutro nas emissões de dióxido de carbono até 2050, afirmou esta sexta-feira o ministro do Ambiente, que considera o número exequível e possível.

Em declarações aos jornalistas, à margem da apresentação do Roteiro para a Neutralidade Carbónica, João Pedro Matos Fernandes indicou que o nível anual de investimento feito em Portugal atinge "30 mil milhões de euros", valor a que deverá acrescer 2 mil milhões de euros por ano de investimento, a maioria privado.

O maior investimento deverá ser no setor dos transportes e na passagem de veículos a combustão para veículos elétricos. Progressivamente, os veículos elétricos deverão ser mais baratos, ao ponto de não compensar a ninguém comprar carros a gasóleo ou gasolina, apontou.

A meta do Roteiro é fazer com que Portugal esteja, em 2050, em condições de emitir anualmente 10 milhões de toneladas de dióxido de carbono, mas que as suas florestas e solos sejam capazes de compensar essas emissões, ou seja, atingir a neutralidade carbónica.

O ministro deixou em aberto a possibilidade de as autarquias optarem por proibir a circulação de veículos poluentes, mas frisou que será decisivo fazer carros elétricos a baixos preços e diminuir despesas de circulação e manutenção.

As mudanças preconizadas até 2050 incidem especialmente nos setores da mobilidade e da produção de eletricidade e os anos entre 2020 e 2030 serão "os mais exigentes em investimento e criação de riqueza e emprego mais qualificado", disse o ministro.

Em 2030, Portugal deverá conseguir 80% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis e 20 anos mais tarde, toda a eletricidade será limpa.

Isso implicará aumentar a capacidade de produção de 7 para 13 gigawatts, sobretudo a partir de energia solar, porque se prevê que haja menos água disponível para usar em produção energética, mas também aumentando a potência dos parques eólicos.

João Pedro Matos Fernandes indicou que, hoje, Portugal importa 75% das suas necessidades energéticas, mas que em 2050 deverá importar apenas 17%.

O ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, referiu que a importação de produtos petrolíferos é um dos principais fatores de desequilíbrio da balança comercial portuguesa.

O presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, Nuno Lacasta, afirmou na apresentação do roteiro que se poderão poupar 128 mil milhões de euros entre 2020 e 2050 em importação de combustíveis.

Siza Vieira admitiu que "a mudança também é um sobressalto e alguns setores vão ter mais dificuldades".

Matos Fernandes disse aos jornalistas que a agricultura, que deverá ser tendencialmente mais biológica, é um desses setores, porque depende de políticas comuns definidas na União Europeia. 

A agricultura e pecuária serão alvo de várias medidas, como a redução de produção de bovinos.

O cumprimento do roteiro não será "uma restrição à atividade económica" porque, no melhor dos cenários previstos, a economia, o emprego e a população crescem simultaneamente.

Caracterizando a manhã de uma família portuguesa em 2050, num cenário em que se atinja a neutralidade, Matos Fernandes disse que será "uma manhã em que, logo em casa, a água quente que utilizam será aquecida com energia solar".

A sua deslocação para o trabalho ou para a escola será ou num transporte coletivo eletrificado ou a hidrogénio ou num carro partilhado e também elétrico", prosseguiu.

Um dia de trabalho em 2050 será também feito "num edifício 100% descarbonizado, com fontes elétricas e com águas quentes solares", num contexto de "mais mobilidade, menos congestionamento e mais atividade económica", porque haverá menos carros a circular e o tempo e espaço necessários para estacionar serão menores.

Será certamente um dia em que a qualidade do ar da sua cidade será muito melhor do que hoje", concluiu.

A meta do Roteiro é fazer com que Portugal esteja em 2050 em condições de emitir anualmente 10 milhões de toneladas de dióxido de carbono, mas que as suas florestas e solos sejam capazes de compensar essas emissões, ou seja, atingir a neutralidade carbónica.

O documento estará em discussão pública até ao fim de fevereiro no portal Participa.

 

Agricultores contra a redução de 25% a 50% na produção de bovinos

A Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) manifestou “surpresa e oposição” face às metas colocadas pelo ministro do Ambiente para redução de 25% a 50% da produção nacional de bovinos.

Em comunicado, a CAP criticou as medidas do Roteiro para a Neutralidade Carbónica para o setor, referindo que “esta posição demonstra falta de conhecimento da realidade da agricultura portuguesa e só pode constituir uma intenção isolada do Ministério do Ambiente no conjunto do Governo”.

A associação explicou que “a produção de bovinos em Portugal é sobretudo efetuada em regime extensivo, com uma contribuição para os gases com efeito de estufa substancialmente inferior à dos sistemas de produção intensivos praticados em outros países”.

A CAP acredita mesmo que o facto de existirem pastagens “biodiversas” em Portugal contribui para “a fixação do carbono da atmosfera”.

Esta redução proposta teria impacto “na produção de derivados de leite, queijo, iogurtes, entre outros produtos, os quais iriam também aumentar as importações nacionais”, o que é “naturalmente questionável”.

Para a associação empresarial, caso “cada país deixe de produzir o que em seguida irá importar de outros países”, a pegada ecológica destas atividades será “provavelmente superior”. A entidade deu o exemplo da carne, em que “os grandes produtores mundiais são o Brasil e a Argentina, o que implica um custo e uma pegada ecológica muito considerável só no que concerne ao transporte”.