O antigo contabilista da Espírito Santo International admitiu, em tribunal, que não devia ter assumido a omissão de 1,3 mil milhões de euros de dívida como um “erro” seu para evitar a queda do Grupo Espírito Santo.

“Dei o corpo às balas, por uma questão de lealdade”, disse ao tribunal Francisco Machado da Cruz, tendo frisado, na semana passada, que camuflou buraco por ter "muita estima" por Salgado.

“Hoje penso que não o deveria ter feito”. Deveria “ter dito à Inês Viegas [auditora da empresa KPMG] que falasse com quem de direito”, ou seja, Ricardo Salgado.

Francisco Machado da Cruz, que supervisionou as contas da ESI e das holdings não financeiras do GES a partir de 2003, depôs hoje, pela terceira sessão consecutiva, enquanto testemunha.

Em causa, está o processo de Tribunal da Concorrência, Regulação e Supervisão (TCRS), em Santarém, que julga os pedidos de impugnação às contraordenações aplicadas pelo Banco de Portugal ao ex-presidente do BES, Ricardo Salgado (4 milhões de euros), e ao ex-administrador Amílcar Morais Pires (600.000 euros,) por, apesar de conhecerem a situação líquida negativa da ESI, terem permitido que fossem comercializados títulos de dívida desta instituição junto de clientes do banco.

Questionado pelo advogado de Ricardo Salgado durante mais de seis horas, o antigo contabilista reiterou ter “assumido a responsabilidade” pelo alegado “erro” nas contas, perante os auditores da KPMG, para evitar a queda do Grupo pelo qual “vestia a camisola”, mas reafirmou ao tribunal ter recebido “instruções” de Ricardo Salgado nesse sentido.

O antigo commissaire aux comptes que hoje foi submetido pelo advogado de Salgado a um questionário detalhado sobre as contas, as datas de reuniões e correspondência entre os responsáveis pela administração e pela contabilidade do grupo, vai continuar a ser ouvido pelo tribunal na quinta-feira de manhã, numa sessão que tem agendada para o período da tarde a audição de João Eduardo Moura Freixa, testemunha arrolada por Amílcar Pires.

A antecipação da inquirição do antigo administrador do grupo, que deveria ser ouvido apenas no dia 15, foi, no final da audiência, foi contestada pela advogada de Amílcar Pires, que alegou não ter tempo para preparar a inquirição o que, considerou, “prejudica gravemente a defesa”.

O julgamento dos pedidos de impugnação apresentados por Ricardo Salgado e Amílcar Pires iniciou-se em 06 de março e tem audiências agendadas de segunda a quinta-feira até 28 de junho.

/ VC