Os três laureados com o Nobel da Economia de 2019 começaram, há 15 anos, a aplicar um enfoque diferente na luta contra a pobreza, mas antes da atribuição do prémio eram vistos como “palhaços”, disse, este domingo, a especialista distinguida.

Se calhar, antes viam-nos um pouco como palhaços e agora temos o Prémio Nobel”, afirmou a francesa Esther Duflo, a segunda mulher a conseguir esta distinção em Economia, no âmbito da palestra do Nobel em Ciências Económicas na Semana Nobel 2019, em Estocolmo, Suécia.

Esther Duflo conseguiu, com os norte-americanos Abhijit Banerjee – de origem indiana – e Michael Kremer, o Prémio de Ciências Económicas, oficialmente denominado Prémio do Banco da Suécia para as Ciências Económicas em memória de Alfred Nobel.

Segundo o Comité Nobel, os três economistas laureados este ano estabeleceram um enfoque experimental que melhorou “consideravelmente” a capacidade para lutar contra a pobreza global e criar um “próspero” campo de investigação económica.

De acordo com Esther Duflo, o método estabelecido baseia-se em algo que é “indispensável” - confrontar as teorias com os factos, porque estas devem submeter-se ao “teste da realidade e, para isso, há que trabalhar no terreno”.

Os premiados usam uma perspetiva científica, mas muito prática, em que realizam estudos aleatórios controlados em populações locais para ver qual o tipo de ações que serve realmente para reduzir a pobreza.

Nascida em Paris em 1972, a catedrática de economia do desenvolvimento e redução da pobreza no Instituto Tecnológico de Massachussetts (MIT) sabe o que é viajar pelos países pobres, falar com as pessoas, conhecer os seus problemas e entender os seus motivos.

Estar no terreno não serve só para obter dados, “dá uma visão que não se pode obter de outra forma”, considerou Duflo, referindo que os seus primeiros trabalhos foram no Quénia e na Índia, acompanhada do seu marido e companheiro de Nobel Abhijit Banerjee e com Michael Kremer.

De acordo com a laureada com o Nobel da Economia de 2019, nos anos 1990 muitos viam este novo enfoque com ceticismo.

Quando começámos, há 15 anos, a fazer o nosso trabalho éramos um pouco vistos como palhaços e agora temos o Prémio Nobel”, insistiu Duflo, ilustrando, assim, a evolução geral deste campo com “cada vez mais legitimidade”.

Segundo a francesa premiada, o problema não é tanto o facto de as crianças não terem livros, mas que estes não sejam adequados, assim como há sítios onde para aumentar a assistência ao colégio não faz falta mais dinheiro ou professores, mas dar aos alunos um medicamento antiparasitário para que não se sintam tão cansados.

Este método tem o seu maior campo de ação nos países mais pobres, mas também se aplica noutros países mais desenvolvidos, referiu a economista, que recebeu o Prémio Princesa de Astúrias de Ciências Sociais em 2015.

Duflo é cofundadora do Abdul Latif Jameel Poverty Action Lab (J-PAL), uma rede de 194 professores em 62 universidades com a missão de reduzir a pobreza, garantindo que as políticas públicas tenham por base evidência científica.

/ CM