Ainda teria mais um ano de mandato, mas deixou ontem a presidência do Montepio. José Félix Morgado saiu em rota de colisão. A administração da Associação Mutualista, dona a 100 % da Caixa Económica, considerou que não teria perfil para continuar a liderar os destinos do banco, numa altura em que se prevê a sua abertura a outros acionistas, designadamente a Santa Casa da Misericórdia. A ideia será criar um banco social. O gestor diz que não sabe o que isso é.

Foi referido na altura que eu não teria perfil. Não sei o que é um banco social: sei o que é um banco de crédtio habitação, de consumo, de investimento, de crédito hipotecário, até sei o que é um banco alimentar, mas um banco social eu não sei"

Não sabe e, no programa Eco24, na TVI24, diz que também que Tomás Correia, presidente da Associação Mutualista, nunca lhe explicou. "Não, nunca foi explicado o que era o banco social". E "não, claro que não" foi convidado para liderar esse processo. Porquê essa falta de confiança? "Terá de perguntar ao acionista e não a mim", respondeu, tendo contudo ao longo do programa frisado que houve momentos "muito cooperativos" entre ambos e que a relação foi sempre "institucional".

"A minha relação com Tomás Correia era a relaçao que presidente do banco deve ter com o seu acionista. Se partihamos a mesma visão relativamente ao banco entendo que não, um deles é porque não sei o que é um banco social, não sei se faz sentido, porque não sei o que é", insistiu, respondendo às questões do jornalista Pedro Pinto e do diretor do jornal económico online Eco, António Costa.

Só a Santa Casa é pouco

Há meses que se fala na possível entrada da Santa Casa no Montepio. Tanto o Governo como o Banco de Portugal gostam da ideia. Para Félix Morgado, "depende".

"Em termos genéricos, para qualquer banco é positivo que haja diversos acionistas, porque em caso de necessidade de capital não está dependente de um único acionista. É sempre vantajoso. Em segundo lugar, reforça governo societário. Julgo que é essa a perspetiva do Banco de Portugal, quando refere que vê com bons olhos".

A estes acionistas [como a Santa Casa], depende da posição que vierem a tomar. Se subscreverem meia dúzia de ações, não tem peso. Ou temos acionistas com 10% ou 5% ou mais... Veria [com bons olhos] desde que entrassem outros acionistas com posições equivalentes. Estar dependente de apenas dois [Associação Mutualista e Santa Casa] não melhora substancialmente"

Sobre se a Santa Casa não poderá ficar com uma participação mais do que simbólica, soltou um "vamos ver...".

Pressões, "interesses" e o legado

No e-mail que enviou aos trabalhadores, Félix Morgado disse não iria "ceder a interesses" e falou em "pedidos" e "promessas" que não detalhou. Questionado sobre esses pontos, disse apenas que se tratavam de "assuntos internos". 

Contra os comentários de que se está a tentar "salvar o banco", o gestor garante que o deixa "saudável, reforçado e com um modelo de negócio sustentável". Atira os números para a mesa e chama à sua equipa de gestão os louros.

Em 2015, banco estava numa situação bastante dificil eventualmente proximo de zero e hoje falam-se em valorizações à volta de 1.900 milhões, quer dizer que esta equipa de gestão gerou, em dois anos, 1.900 milhões de valor. Eu estimo todos os meus colegas, mas com certeza não deve ter havido uma quipa que gerou [tanto] em dois anos". 

Quis sublinhar que a missão que teve "era difícil": "separar o que esteve junto cerca de 174 anos", o banco da Associação Mutualista. E que, neste processo, "é natural" que se tenha criado uma "erosão" entre o conselho de administração e o acionista.

Seja como for, sai "tranquilo", com sentido de "missão cumprida". Assegurou fez a separação bem feita, que "desde agosto de 2015 não houve qualquer financiamento cruzado entre a Caixa Económica e a Associação Mutualista". "O trabalho feito permite isolar riscos, minimizá-los".

Riscos futuros

A separação de marcas foi uma "determinação" do Banco de Portugal e "não uma ideia" sua. "Não é verdade que nunca avançou: havia um plano que está desenvolvido durante um ano, acompanhado com grande proximidade e detalhe pelo BdP e está em curso". É importante que seja finalizado, até para evitar a confusão quando há referências a um ou a outro.

A fase final desse plano será decisão do acionista  - muda de marca ou não muda e, segundo lugar, muda para que marca (...) Basta ver comentários quando há referências ao Montepio por comentadores, pelo primeiro-ministro (...) para justificar que é necessário mudança de marca. Para clientes saibam quando estão a fazer depósito é na caixa económica e outro tipo de produtos é na associação mutualista"

A designação dos produtos, essa, já começou a mudar, mas "se calhar não é ainda suficiente". 

Isto num banco, é de referir, que tem 1,2 milhões no total e Notícias sobre situação de capitais negativos, prejuízos da Associação Mutualista - 1,2 milhões total clientes; 600 mil da associação mutualista .

E se o acionista decidir não mudar a marca? Adverte desde já que isso "terá consequências de risco e em termos de necessidades de capital impostas pelo regulador", o Banco de Portugal. "Normalmente é essa a consequência", antecipa.

Novo presidente tem "provas dadas"

Lembrando que, em 2015, a Caixa Económica Montepio Geral teve um resultado negativo 250 milhões, que em 2016 foi ainda negativo mas passou para 86 milhões e que, em 2017, voltou aos lucros, de 30 milhões, frisou que esses resultados são "sustentáveis".

Confia em Carlos Tavares, o novo presidente, a quem tece vários elogios.

É uma pessoa com provas dadas, sabe e conhece a banca, pessoa com compromisso e fica bem entregue. Agora não sou responsável pelas decisões que venham a tomar"