Alguns motoristas de mercadorias e matérias perigosas admitiram na segunda-feira à noite que a requisição civil para o cumprimento dos serviços mínimos desmotivou muitos trabalhadores e que está a contribuir para a desmobilização dos piquetes de greve.

Pelas 22:30 de segunda-feira, era calmo o ambiente junto à sede da CLC - Companhia Logística de Combustíveis em Aveiras de Cima, no distrito de Lisboa, um dos principais cenários da greve dos motoristas de matérias perigosas e de mercadorias.

Um grupo de pouco mais de uma dezena de trabalhadores, com colete amarelo, observava tranquilamente os poucos camiões que iam saindo para o cumprimento dos serviços mínimos, com ar resignado.

Este cenário contrasta com o da noite anterior, que juntou no piquete de greve da CLC mais de uma centena de trabalhadores.

Em declarações à agência Lusa, dois motoristas de mercadorias contaram, em jeito de desabafo, que a requisição civil decretada esta segunda-feira pelo Governo desmotivou bastante os trabalhadores.

Esvazia um bocado a luta e alguns trabalhadores começam a acreditar que isto não vai dar em nada”, disse à Lusa um dos motoristas, tentando justificar a fraca adesão ao piquete.

Outro motorista queixou-se da “falta de união dos camionistas”, numa luta que “é justíssima”.

Só quem anda nesta vida é que sabe os sacrifícios que nós fazemos. Eu costumo trabalhar mais de 20 horas e mal tempo tenho para comer ou ir à casa de banho”, descreveu.

No entanto, apesar da revolta da situação, os motoristas garantem que vão cumprir os serviços mínimos e a requisição civil decretada pelo Governo.

A lei é lei e não queremos problemas. Achamos que é um absurdo porque estávamos a cumprir os serviços mínimos, mas tem de ser, tem de ser”, referiu um motorista de matérias perigosas.

Entretanto, pelas 23:00, regressou à CLC o assessor jurídico do Sindicato dos Motoristas de Matérias Perigosas, Pardal Henriques, que negou uma desmobilização dos trabalhadores.

Estamos super unidos e firmes. A requisição civil já era uma coisa de que estávamos à espera. Não estão cá hoje [segunda-feira] tantos trabalhadores porque estão a trabalhar ou a descansar, mas estão os suficientes”, ressalvou.

O Governo decretou na segunda-feira a requisição civil dos motoristas em greve, alegando incumprimento dos serviços mínimos, anunciou o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, após reunião do executivo por via eletrónica.

Os motoristas realizaram esta segunda-feira o primeiro dia de uma greve marcada por tempo indeterminado e com o objetivo de reivindicar junto da associação patronal Antram o cumprimento do acordo assinado em maio, que prevê uma progressão salarial.

A greve foi convocada pelo Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) e pelo Sindicato Independente dos Motoristas de Mercadorias (SIMM), tendo-se também associado à paralisação o Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários e Urbanos do Norte (STRUN).

O Governo decretou serviços mínimos entre 50% e 100% e declarou crise energética, que implica “medidas excecionais” para minimizar os efeitos da paralisação e garantir o abastecimento de serviços essenciais como forças de segurança e emergência médica.