A necessidade faz o engenho e a tão portuguesa capacidade de “desenrascar” também. Numa altura em que os hospitais e outras instituições sofrem de escassez de material, as empresas foram chamadas a ajudar e responderam ao apelo.

Mudaram as linhas de produção e em vez do que produziam antes, estão hoje a fabricar máscaras, viseiras, óculos, fatos de proteção, desinfetantes e até ventiladores.

Indústrias convertem linhas de produção para fabricar viseiras

Às portas de Lisboa, em Rio de Mouro (concelho de Sintra), a APAMETAL trocou os materiais de decoração de espaços comerciais, e produz agora barreiras de proteção para balcões de atendimento ou táxis, e viseiras, com a ajuda de várias famílias, que fazem os acabamentos.

A PSP adquiriu 19.500, outras 10 mil já chegaram aos hospitais Amadora-Sintra, S. João (Porto), Ovar, Santa Maria (Lisboa), IPO de Lisboa, Cruz Vermelha Portuguesa e Setúbal. Há mais 15 mil em produção.

A empresa tem uma capacidade de fabricar 2 a 3 mil unidades por dia e garante que estão a ser vendidas a preço de custo.

Mas a iniciativa está longe de ser caso único. A Fan 3D, uma consultora de engenharia na área da impressão 3D, tomou a iniciativa e reuniu as empresas com quem trabalha.

Agora, uma rede de 100 impressoras está a criar viseiras de proteção para os profissionais de saúde. Estão a perder dinheiro, até porque precisaram de comprar mais materiais para poderem imprimir, mas o objetivo é ajudar.

As viseiras já chegaram a entidades como o Hospital Garcia de Orta, o centro de saúde do Pinhal Novo, o hospital de Almada, o hospital da Guarda e o IPO do Porto.

Outro exemplo, a DGA, uma empresa do Porto que fabrica peças para automóveis, também se reinventou e está agora a produzir viseiras para profissionais de saúde. Numa semana, saíram da empresa quatro mil viseiras para os hospitais de Santo António e de São João, no Porto.

Além das empresas que produzem, muitas vezes também os fornecedores de matérias primas se envolvem na causa, providenciando materiais a preços mais acessíveis, ou até a preço de custo.

Viseiras é também o que produz por estes dias o VivaLab, no Porto, que pretende fornecer unidades hospitalares de todo o país e fazê-las chegar a quem delas mais precisa, a preço de custo.

Protótipo de ventilador low cost

Os ventiladores são o equipamento mais complexo e mais caro, em falta no Sistema Nacional de Saúde. Nas últimas semanas têm surgido várias iniciativas para desenvolver uma alternativa mais barata à que existe no mercado. Uma delas, está a acontecer no Centro para a Excelência e Inovação na Indústria Automóvel (CEiiA), em Matosinhos.

Uma equipa de 70 pessoas tenta criar um protótipo de ventilador que possa ser produzido em Portugal e colocado nos hospitais portugueses.

Tiago Rebelo, diretor de engenharia do CEiiA, explicou já que este é um modelo de baixo custo, montagem simples e produção local, com materiais e componentes disponíveis em Portugal, compatível com a infraestrutura hospitalar e de utilização fácil e intuitiva.

“Não estamos a fazer o melhor ventilador do mundo, estamos a fazer o melhor possível para responder a um problema de uma forma rápida e eficaz”, referiu Tiago Rebelo, aquando da visita do primeiro-ministro às instalações. Tentam fazer em contrarrelógio aquilo que, em circunstâncias normais, demoraria um ano a ser feito.

O grupo espera estar a produzir 100 unidades no final de abril, 400 no fim de maio e, depois disso, descentralizar a produção para a indústria nacional. Em seis meses podem ser obtidos 10 mil ventiladores.

Destilarias produzem álcool e outros desinfetantes

Foram dos primeiros produtos a escassear do mercado: o álcool, o álcool gel e outros desinfetantes estão entre os bens mais preciosos durante esta pandemia, e desaparecem ao ritmo de milhares de litros por dia.

Mas perante a escassez no mercado internacional, o país rapidamente encontrou outras soluções: o álcool usado na produção de bebidas alcoólicas pode ser reconvertido e usado como desinfetante e há já muitas destilarias e empresas do setor envolvidas neste esforço.

Algo que só foi possível porque o Ministério da Agricultura declarou prioritário o pagamento de apoios à produção de álcool para uso hospitalar e farmacêutico, no âmbito dos pagamentos à desnaturação proveniente dos produtos vinícolas. Estima-se que os destiladores têm stocks de cerca de 500 mil litros, que podem ser canalizados para o combate à pandemia.

O álcool usado em Portugal na produção de bebidas alcoólicas é normalmente comprado a França, mas essa não é uma opção no momento. A escassez de álcool afeta muitos países, e os fornecedores habituais não chegam para todos.

Na Bairrada, os vitivinicultores e as farmácias estão a produzir álcool gel a partir de aguardente vínica. A Quinta das Bágeiras disponibiliza a matéria prima e a destilaria Levira vai produzir o álcool gel, que deverá ser vendido “a preço de mercado” às unidades de saúde.

Mais a Sul, em Azeitão, a produtora de vinhos José Maria da Fonseca também se uniu à Destilaria Levira, para produzir 5 mil litros de álcool gel para doar a instituições de saúde, de solidariedade social, forças de segurança e socorro locais.

A Santa Casa da Misericórdia de Azeitão, o Hospital de São Bernardo, em Setúbal, o Hospital Nossa Senhora da Arrábida em Azeitão e a Cruz Vermelha Portuguesa estão entre as entidades beneficiárias, bem como vários lares, a GNR e as corporações de bombeiros da região.

“O álcool vínico destinado à produção de Moscatel de Setúbal da José Maria da Fonseca vai ser transformado pela Destilaria Levira em gel desinfetante para as mãos, cumprindo todas as normas da Organização Mundial de Saúde”, revela a empresa.

“Através desta doação, queremos mostrar o nosso apoio e solidariedade para com várias instituições de saúde, solidariedade social, forças de segurança e socorro. Estamos conscientes do papel preponderante que cada uma delas desempenha junto da comunidade local e quisemos contribuir desta forma para que elas disponham de uma maior quantidade de desinfectante para as mãos, de forma a prevenirem e tratarem a infecção do Covid-19”, refere o presidente da José Maria da Fonseca, António Soares Franco.

A mesma destilaria está também a trabalhar com o Grupo Super Bock, para produzir gel desinfetante para as mãos.

“Para começo, são cerca de 56 mil litros de álcool da produção de cerveja sem álcool que vão ser transformados, pela Destilaria Levira, em aproximadamente 14 mil litros de álcool gel para as mãos, num processo de fabrico que segue as diretrizes da Organização Mundial de Saúde. Destinam-se a várias unidades hospitalares do norte do país, para que disponham de uma maior quantidade destes produtos indispensáveis para a prevenção e tratamento da infeção com o Covid-19″, explica o grupo Super Bock.

Também as micro cervejeiras decidiram contribuir com a matéria prima de que dispõem. Em duas semanas, foram entregues 500 mil litros diluídos de desinfetante por todo o país. Os 70 cervejeiros que se uniram nesta iniciativa usam ácido paracético diluído, um produto que pode servir para desinfetar instalações.

O produto tem servido para ajudar as forças de segurança e os centros hospitalares, entre outros. Mas os stocks destes pequenos produtores já acabaram e, atualmente, garantem que já estão a comprar a matéria prima, para doar o desinfetante.

Mesmo as pequenas destilarias estão a unir esforços à causa. Em Folgosa do Douro, (concelho de Armamar), a Destildouro, está preparada para produzir 20 mil litros por dia de álcool sanitário, para distribuir pelas entidades de saúde da região do Douro.

Têxtil e calçado produzem fatos e máscaras

No setor dos têxteis, várias empresas pararam a produção habitual e estão agora a fazer fatos de proteção e máscaras. É o caso da Sonix, que cedo arranjou uma rede de parceiros e produziu dois mil conjuntos para as equipas médicas. Outra empresa do mesmo grupo está a fabricar gel desinfetante.

Do setor do calçado chegam também vários exemplos. Até a marca de luxo Luís Onofre se juntou ao esforço nacional e está a produzir quase 800 máscaras não cirúrgicas por semana.

A produção sai da fábrica de Oliveira de Azeméis, para instituições do concelho e dos concelhos vizinhos, mas também para o Hospital de Santa Maria da Feira, Hospital de Famalicão, Centro Dial, Lar Geribranca, Lar Pinheiro da Bemposta, Lar Pró Outeiro e Cruz Vermelha.

A mobilização do setor foi iniciativa da Vitorino Coelho e conta já com  cerca de 20 empresas que se juntaram à produção de máscaras não cirúrgicas e viseiras. Estima-se que, no seu conjunto, estejam a produzir entre 12 e 15 mil unidades diárias.