Um ano depois de ter sido transferida para a Câmara de Lisboa, a Carris revela que foram 12 meses de crescimento, com mais passageiros, mais funcionários e aumento da oferta, prevendo para 2018 investimentos de 57 milhões de euros.

A Carris prevê ter 100 novos autocarros até ao final deste ano, “continuar a contratação de novos trabalhadores, continuar a apostar no desenvolvimento das carreiras de bairro e na expansão da rede de elétricos”, de acordo com fonte do gabinete de comunicação da empresa.

No primeiro trimestre do ano será apresentada a ‘app’ Carris, com informação em tempo real útil aos clientes e, até ao final do Verão, toda a frota estará equipada com ‘wi-fi’”, acrescentou.

A 1 de fevereiro de 2017, a gestão da Carris passou para a alçada da Câmara de Lisboa, numa decisão do primeiro-ministro, António Costa, que considera que os transportes terrestres devem ser geridos pelos municípios, porque são estes que gerem as estradas, o estacionamento, os semáforos e as faixas BUS, entre outros.

Na altura, o presidente da Câmara de Lisboa comprometeu-se com investimentos a realizar nos três anos seguintes, nomeadamente a aquisição de 250 novos autocarros para a cidade, a contratação de 220 motoristas, a criação de 21 novas linhas, a atribuição de passes gratuitos a todas as crianças até aos 12 anos e de descontos para os idosos.

A Lusa contactou a Carris para saber como correu este primeiro ano, tendo a empresa feito uma apreciação global muito positiva.

A nível de passageiros, a Carris indica que transportou 122,4 milhões com título válido, acrescentando que “verificou-se um crescimento dos clientes no último trimestre de 2017 face ao mesmo período de 2016, sendo que o aumento da procura de passageiros com título válido foi de 4,3%”.

A empresa recordou ainda que estabeleceu passes gratuitos para crianças e descontos de 25% para estudantes dos 18 aos 23 anos e de 60% para idosos.

No acumulado de 2017, a oferta da Carris cresceu 2,5%, sendo que nos últimos meses do ano esse crescimento ganhou outra expressão, terminando com um aumento de 5,9% no mês de dezembro. Durante o último ano, a Carris reforçou a carreira 15 e 28, aumentou a sua fiabilidade com uma redução das interrupções de serviço na ordem dos 50% e lançou cinco carreiras de bairro”, disse a mesma fonte.

Quanto à contratação de pessoal, a fonte indicou que, em 2017, a Carris “contratou 126 trabalhadores, dos quais 102 são tripulantes”.

No que diz respeito à aquisição de novos autocarros. Já foram lançados dois concursos públicos para a aquisição de novos autocarros. Trinta e sete autocarros médios a diesel e 165 veículos a gás natural comprimido (125 standard e 40 articulados). Prevê-se a entrega de 100 desses novos autocarros até final de 2018”, afirmou.

Gestão contestada por utentes e aplaudida por trabalhadores

O primeiro ano da gestão da Carris pela Câmara de Lisboa foi “positivo” para os trabalhadores da rodoviária, já os utentes afirmam que “não houve grandes melhorias”, advogando que o serviço prestado “continua a ser o mesmo pandemónio”.

Na perspetiva de Cecília Sales, porta-voz da Comissão de Utentes dos Transportes Públicos de Lisboa, o serviço da Carris estava “de tal maneira degradado” que “agora é mais difícil a recuperação”, processo que se prevê que demore “alguns anos”.

“Mas até agora não estamos a ver nada, continua o mesmo pandemónio dos autocarros demorarem”, apontou a representante dos utentes, em declarações à agência Lusa, afirmando que é preciso “mais investimento” na frota e na contratação de motoristas.

Para a comissão de utentes, a municipalização da Carris foi uma “má decisão”, porque os serviços públicos devem ser “sempre da responsabilidade do Estado”.

“Mas já que está decidido, ao menos que consigam solucionar alguns problemas que vêm de trás, e sabemos que vêm de trás dos anteriores Governos que deixaram degradar as empresas públicas”, declarou Cecília Sales, indicando como principais problemas da rodoviária a eliminação de carreiras, os tempos de espera e o preço dos passes que são “caríssimos”.

Com uma visão mais otimista, Paulo Gonçalves, coordenador da Comissão de Trabalhadores da Carris disse que este foi “um ano de transição”, cujo balanço da gestão da rodoviária pela autarquia é “positivo”, porque “havia muito por fazer”, uma vez que a empresa passou por “anos muito complicados com o anterior Governo, […] com a saída de muitas centenas de trabalhadores, nomeadamente motoristas”.

“Pensamos que, a partir de agora, estão reunidas as condições para que as coisas comecem a melhorar à velocidade cruzeiro”, defendeu Paulo Gonçalves, referindo que no último ano entraram 125 novos motoristas e este ano irão entrar mais 220 profissionais.

Relativamente ao material circulante, o coordenador da Comissão de Trabalhadores da Carris referiu que já foi adjudicada a aquisição de novas viaturas, “225 autocarros a gás e última geração de modelos a diesel”, que devem começar a operar a partir de agosto.

“Alguns investimentos que estavam programados já foram adjudicados e estamos convencidos que nos próximos dois anos, a partir de agora, - e os utentes vão sentir -, o serviço da Carris vai melhorar substancialmente”, frisou.

Em declarações à agência Lusa, Orlando Lopes, dirigente da Associação Sindical do Pessoal de Tráfego da Carris considerou que o primeiro ano de gestão municipal da rodoviária foi “bastante positivo, até excedeu as expectativas”, advogando que o serviço de transporte melhorou em todos os aspetos, nomeadamente ao nível dos tempos de espera.

Apesar das melhorias, o dirigente sindical reconhece que “ainda há muito a fazer”, desde a aquisição de novos autocarros à contratação de motoristas.

“O que se estragou em quatro anos não se consegue recuperar num ano”, argumentou Orlando Lopes, perspetivando “uma melhoria substancial”, ainda este ano, do serviço prestado.

Já o coordenador do Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários e Urbanos de Portugal (STRUP), Manuel Leal, reiterou a posição assumida há um ano de que a passagem da Carris para a Câmara de Lisboa é “uma oportunidade adiada de construção de uma rede integrada de transportes ao nível da Área Metropolitana”, já que a rodoviária também serve populações de concelhos limítrofes da capital.

Quando digo que a situação presente está a confirmar estas nossas reservas é que, passado um ano, em termos de Carris, mantêm-se as limitações que existiam quanto ao número de autocarros ao serviço da população, houve alguma admissão de trabalhadores, mas claramente ainda em termos insuficientes para corresponder à necessidade de dar cumprimento ao serviço total”, justificou Manuel Leal.

Neste sentido, o STRUP pretende “lutar e fazer tudo” para que “sejam efetivados quer os investimentos necessários para a existência de mais veículos, quer autocarros, quer elétricos, ao serviço da população, assim como a contratação de mais trabalhadores que, tanto para as áreas do tráfego como para as áreas da manutenção, são essenciais para garantir quer a diminuição dos tempos de espera quer a qualidade do serviço que é prestado”.