A antiga ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite realçou esta terça-feira, no Parlamento que, enquanto desempenhou funções no Governo, as relações com a gestão da CGD foram "muito conservadoras" e sem interferências em matérias da competência da administração.

Fui muito conservadora no critério de relação entre o Governo e a CGD. Nunca interferi em nada da gestão da CGD que não fosse da minha competência", afirmou a responsável durante a sua audição na comissão parlamentar de inquérito à gestão da Caixa Geral de Depósitos (CGD).

 

A Inspeção-Geral das Finanças, enquanto desempenhei as minhas funções, numa me fez nenhuma observação que me levasse a intervir junto da gestão. É certo que, ao nível da estratégia, tive conversas com a administração da CGD em nome do Governo que eu representava naquele momento", acrescentou.

Ferreira Leite vincou que a CGD era então uma "instituição acima de qualquer suspeita e numa situação económica e financeira absolutamente sólida, sem discussão".

Quanto às atuais fragilidades da CGD, devido ao elevado volume de imparidades de crédito, a política - que chegou a ser líder da bancada parlamentar do PSD - disse que "esses aspetos são levantados muito recentemente".

E reforçou: "Nunca ninguém pôs isso em causa. A CGD era sólida e sempre foi sólida".

 A antiga ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite revelou ter tentado junto da gestão da Caixa Geral de Depósitos (CGD) que o dividendo pago pelo banco fosse superior ao habitual, devido aos problemas relacionados com o cumprimento do défice.

Considero que posso ter exercido alguma pressão sobre a CGD [enquanto ministra das Finanças]. Foi apenas uma vez e foi a tentativa que a participação dos lucros da CGD [para os cofres estatais] fosse maior, na ordem dos 60% ou 70% em vez dos 50%", disse a responsável durante a sua audição na comissão parlamentar de inquérito à gestão da CGD.

 

Andávamos à procura de receita onde poderíamos ter, por causa do défice, mas o presidente da CGD não o fez. Ele não se subordinou a esse pedido e não o cumpriu", acrescentou.

E realçou: "Acho que ambos defendemos os interesses do país e também da CGD".

Questionada sobre se na altura em que esteve na tutela das Finanças (entre 2002 e 2004) havia já preocupação sobre as imparidades, Ferreira Leite disse que não havia qualquer sinal de alarme relativamente ao incumprimento do crédito concedido pelo banco público.

Em relação às imparidades futuras, acho que é muito difícil fazer esse tipo de análise. Acertar nos prognósticos à segunda-feira é fácil. Prever as imparidades que poderiam vir a acontecer é mais difícil. Havia um enquadramento na altura em que os créditos eram atribuídos", sublinhou.

Ferreira Leite referiu que, mesmo sendo verdade que "a participação do lucro era importante para o Estado", na altura "as provisões foram feitas não a 100% mas a mais do que a 100%".

No seu entender, a decisão tomada pela gestão da CGD visava garantir que "não houvesse a tentação de ir buscar mais receita, pelo que o provisionamento [para crédito] era feito a mais de 100%".

E realçou: "Pode haver contas seguras, mas duvido que mais seguras do que naquela altura".

De resto, a antiga governante disse que a CGD não fez emissões de dívida com garantia estatal durante as suas funções no executivo de Durão Barroso.

Operação em Espanha

Ferreira Leite revelou que, enquanto esteve no Governo (2002 a 2004), as maiores preocupações com a CGD passavam pela reformulação da operação em Espanha e pela alteração do modelo de governação do banco.

Havia na altura um peso muito grande dos seguros na atividade da Caixa Geral de Depósitos (CGD). Isso levou a ponderar a separação de estruturas. Chegou a ponderar-se a autonomização entre a banca comercial e a área dos seguros", afirmou a responsável durante a sua audição na comissão parlamentar de inquérito à gestão do banco estatal.

 

O tema chegou a ser discutido em Conselho de Ministros, dois ou três dias antes de termos a notícia que o nosso primeiro-ministro [Durão Barroso] não ia continuar a exercer as suas funções e essa questão não acabou", adiantou.

Se, por um lado, havia a intenção de alterar o modelo de governação da CGD, "autonomizando os diferentes setores" em que o banco atuava, e as respetivas equipas de gestão, Ferreira Leite apontou também para a operação em Espanha como uma das matérias que suscitavam maior acompanhamento por parte do governo a que pertenceu.

Quanto a Espanha, a antiga presidente do PSD indicou que, "ainda com Rui Vilar", havia que tomar uma decisão quanto àquela operação: "ou aumentar e comprar um outro banco para absorver, ou juntar os ‘banquinhos’ que a CGD já lá tinha e assumir os prejuízos".

E destacou: "Durante o meu mandato tentámos comprar por duas vezes um banco em Espanha. Um [dos negócios] foi perdido para o Barclays e o outro para o Sabadell. Por isso, essa estratégia [de crescer em Espanha] não teve resultados no meu tempo".

Questionada sobre as razões que levaram aos fortes prejuízos que a operação em Espanha veio a ter passados alguns anos, Ferreira Leite foi incisiva.

"Os que vieram depois aumentaram de forma orgânica mas não de forma estrutural, o que deu o resultado que deu em Espanha", considerou, antes de jogar mais à defensiva.

"Desconheço o que se passou para me pronunciar sobre esta matéria", atirou a responsável.

Redação / Atualizada às 18:11