Mário Centeno revelou esta segunda-feira que as estimativas do Governo apontam para um impacto de 6,5% no PIB por cada 30 dias úteis que o país estiver parado devido à pandemia de Covid-19. 

Em entrevista no Jornal das 8 da TVI, o ministro das Finanças admitiu mesmo que, no segundo trimestre de 2020, a variação homóloga do PIB em relação ao ano anterior terá uma queda de "quatro a cinco vezes o máximo que alguma vez vimos o PIB cair num trimestre em Portugal". 

Estamos a agir perante esta crise como quem joga um jogo sem ter lido as regras", disse Mário Centeno, que é também presidente do Eurogrupo, tendo referido que o conjunto de medidas acordadas a nível europeu para dar liquidez aos países que lutam contra a pandemia de Covid-19 "foi uma vitória da Europa".

Centeno, que assumiu que a longa reunião dos ministros das Finanças da União Europeia não foi interrompida na primeira noite porque ele, enquanto presidente, fez questão de sublinhar "a emergência" perante a qual todos os países se encontravam e para a qual era preciso encontrar respostas, sublinhou que a reação europeia foi rápida e "corajosa". 

O que estamos aqui a criar são as garantias para que os países europeus possam, no imediato, dar resposta a esta crise", frisou. 

Sobre a resistência do ministro das Finanças holandês, que motivou até uma resposta crítica de António Costa, Centeno preferiu "não fulanizar" a discussão, dizendo que a explicação para a reação holandesa se baseia mais na política interna do país. "Estamos todos a sofrer um choque de escala absolutamente inimaginável", realçou.

Quando falei aos ministros das Finanças comecei com a seguinte frase: 'Este não é o fim da linha, é o princípio. Temos mais a fazer pela Europa e vamos fazer mais pela Europa'", referiu Centeno.

Ainda sobre a economia portuguesa, o ministro das Finanças admitiu que está "quase parada" mas que a prioridade, neste momento, "era garantir que todos os países tinham capacidade financeira igual para responder aos desafios". Centeno admitiu ainda que o impacto desta crise pandémica no PIB "não é linear" e que estamos perante uma crise "de natureza diferente". 

Nas crises económicas, as taxas de juro são altas, a liquidez é baixa, os mercados fragmentam-se", explicou. Esta crise, disse ainda, não é de natureza estrutural nem uma crise do mercado de trabalho, "que criou mais emprego do que qualquer outro na Europa nos últimos quatro anos". 

Saímos de 2019 com o primeiro superavit em mais de 40 anos", disse ainda o ministro das Finanças, sublinhando que o ponto de partida de Portugal para esta crise é diferente do que aconteceu em 2012, por exemplo. "Provavelmente, vamos voltar aos núimeros de 2019 ao fim de dois anos, se a crise se contiver no segundo trimestre", indicou.

Mário Centeno frisou ainda que "não houve nenhum corte na Saúde" nem "nenhuma cativação", garantindo que a dedicação dos profissionais de saúde explica também a qualidade do desempenho do SNS "quando comparado com outros congéneres europeus". 

Devíamos estar até surpreendidos se tomássemos como boa a tese das cativações, como é que o SNS tem tido este desempenho", ironizou. 

Confrontado com a possibilidade de nacionalização da TAP, Centeno disse apenas que nenhuma hipótese será retirada de cima da mesa.

Não sei que desafios se colocam amanhã. A TAP, como todas as empresas de aviação, tem desafios únicos, mas há muitas formas de intervir na TAP que possam não passar por aí. Mas essa hipótese [nacionalização] é uma delas", explicou.

Antes do final da entrevista, que foi conduzida por José Alberto Carvalho e Miguel Sousa Tavares, o ministro das Finanças foi ainda questionado sobre a eventual saída para o Banco de Portugal no próximo mês de junho. "Não estamos em tempo de nos preocuparmos objetivamente com essa questão", respondeu. "Estamos em tempo de dar resposta a este enormíssimo desafio que é de uma geração, de várias gerações. Estamos todos neste combate", concluiu.

Bárbara Cruz