Subiram e não foi pouco numa semana. Entre dia 26 de maio e hoje, as unidades de participação da Caixa Económica Montepio Geral (CEMG) [só serão ações quando a instituição passar a sociedade anónima] dispararam 41%. E só não foi mais porque ontem fecharem a cair 0,66% para 0,747 euros e hoje perderam mais de 12%, encerrando a semanos nos 0,65 euros cada. Mesmo assim, no dia 31 os títulos atingiram um máximo de 0,95 euros.

A TVI24 foi questionar quem olha todos os dias para a evolução do mercado, bolsista e não só, para perceber o que podemos concluir desta subida abrupta do título. Não só pelo sector em que a instituição está inserida – um dos que mais sofreu com a crise e penalizou acionistas - mas também pela expectativa da entrada de um futuro acionista de peso no banco. 

Filipe Garcia, economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros, refere que “realmente, não é ainda claro o que provocou a subida das cotações, mas é lícito suspeitar que haja alguma ligação às alterações em curso na instituição, nomeadamente a transformação das unidades de participação (UP) em capital e a possível entrada de um novo investido”.

Vale a pena ainda referir que nas últimas sessões, foram transacionadas apenas cerca de um milhão e meio de UP. Portanto, o volume, apesar de ter sido muito mais alto do que a média, não foi assim tão elevado”, acrescentou.

Por seu lado, o administrador da Dif Broker, Pedro Lino, diz que “a subida do Montepio tem uma grande componente de especulação, uma vez que o banco ainda necessita de encontrar um investidor que possa entrar no seu capital e suprir algumas necessidades para cumprimento dos rácios de capital, após a entrada em vigor das regras europeias”.

Mercado à espera e a especular também são as causas mais apontadas para esta subida por João Queiroz, responsável pela banca online do Banco Carregosa/ Gobulling: 

Não existe uma explicação mas os volumes negociados e a forte evolução permitem inferir que poderá tratar-se de um interesse num cenário de criação de um “ring fencing” [medidas  que isolem o banco e os seus clientes dos riscos emergentes da parte não-financeira] face ao seu maior e único acionista [a Associação Mutualista], na lógica da alteração societária que permita a entrada de um acionista ou grupo de acionistas que capitalize a instituição”.

 

Tendo em atenção que na perspetiva fundamental (nas dimensões económica e financeira), nada se alterou, a explicação poderá estar relacionada com um interesse singular. Talvez a CMVM, analisando as transações, possa saber do que se trata”, acrescenta o responsável do Carregosa.

A porta-voz do regulador disse à TVI24 que "a CMVM [Comissão do Mercado de Valores Mobiliários] tem acompanhado a subida” e “está a analisá-la”. O banco por seu lado informou em comunicado, dia 31 de maio, não ter "qualquer informação privilegiada ou materialmente relevante que, em seu entender, possa ter influenciado de forma sensível a cotação ou o volume de transações de Unidades de Participação representativas do Fundo de Participação da CEMG".

Mas será que o atual preço das UP reflete o valor do banco?

Não estamos a falar exatamente de ações, mas de títulos de participação, que acabam por avaliar a CEMG de forma indireta. Mas diria que a valorização que o “mercado” fizer destas UP pode, eventualmente, influenciar os termos de entrada de um novo investidor no banco", refere Filipe Garcia.

"O rácio de transformação é dos mais elevados mas a relação entre a atual cotação e o seu valor contabilístico é de 0,20 (ou seja a cotação é quase 20% dos capitais próprios), o que traduz um desconto porque o mercado esteve temeroso sobre potenciais riscos e poderá estar ajustar no sentido do que negoceia o Popular que é de 0,26", acrescenta João Queiroz.

Pedro Lino faz a comparação com os restantes títulos de banca cotados: “o atual preço valoriza o Montepio ao nível do BPI, sendo que o BPI tem um nível de risco muito inferior. Mesmo comparando com o BCP, o Montepio vale metade do BCP, tendo este um balanço quase quatro vezes maior”.

Mesmo com a queda desta sexta-feira as UP do Montepio valem 0,65 euros contra os 0,234 euros a que está a cotar cada ação do BCP.

A maior confiança no sector traduz-se na valorização dos bancos que já fizeram o seu trabalho de casa. No caso do Montepio ainda existe muito a ser feito, nomeadamente ao nível do reforço dos rácios de capital, venda de ativos, racionalização de recursos e transparência e complexidade acionista”, acrescenta Pedro Lino.

 

Evolução do valor das unidade de participação entre 29 de maio e 2 junho

É legítimo dizer que o setor da banca volta a ser apetecível para os investidores?

João Queiroz é prudente: “a generalidade dos analistas considera que é um investimento ainda com risco.... até porque enquanto as taxas de juro se mantiverem próximas de zero não é fácil rentabilizar o negócio bancário".

Para Nuno Marques, da direção de Investimento Direto da IM Gestão de Ativos, há "uma maior confiança no setor dado o intenso escrutínio ao qual tem sido sujeito ao longo dos últimos 5 anos, permitindo ter um conforto adicional relativamente à qualidade dos ativos detidos no balanço de cada instituição. Adicionalmente, os níveis extremamente elevados de capital que os bancos apresentam são também um fator para que esta confiança tenha aumentado.

Mas, acrescenta, "ainda assim, enquanto os volumes de crédito concedido não aumentar ou as taxas de referência não subirem, com impacto nas taxas de curto prazo praticadas no mercado, as perspetivas operacionais para o setor são frágeis estando a evolução positiva dos resultados associada a uma redução dos níveis de provisionamento ou a efeitos não recorrentes".

Em termos globais, Filipe Garcia também é cauteloso: “O sector bancário continua a reestruturar-se e a resolver problemas que se revelaram desde 2008. Isto está a acontecer a nível europeu e não apenas em Portugal. Se é verdade que em Portugal quase todos os bancos estiveram perante algum tipo de operação especial, o mesmo se passa lá fora em muitas instituições".

Esta semana fala-se sobretudo do Popular em Espanha e do Monte dei Paschi em Itália. O Banco Central Europeu tem dito que prefere um cenário de consolidação em que as maiores instituições absorvam as menores, como forma de tornar o sistema mais forte, credível e capitalizado.

Pedro Lino vai mais longe e não esquece quem perdeu. Existe maior confiança no sector mas deve-se “ao sacrifício de muitos acionistas que acorreram a aumentos de capital ou então que perderam quase tudo”. Mesmo assim, reconhece que “o sector financeiro tem vindo a ganhar robustez”, embora falte completar a recapitalização da CGD, Montepio e “alguns casos menos graves para que a confiança possa ser reestabelecida".

A melhoria generalizada de alguns indicadores macro, como no caso português o crescimento de 2,8% da economia no primeiro trimestre do ano, também dão uma ajuda à banca. 

O mercado está animado com a recuperação económica e com a possibilidade de os juros subirem no médio prazo, mas ainda há muitos problemas para resolver e cada caso é um caso [falando da banca]", assegura Filipe Garcia.

Pedro Lino não tem dúvidas: "O sector financeiro transaciona a um desconto face ao valor de liquidação, quer pela diminuição de rentabilidade que o sector tem apresentado, quer pelo risco do balanço dos bancos principalmente ao nível do incumprimento".

Se o problema do crédito mal parado for resolvido e a economia crescer, a tendência é o sector financeiro recuperar, apesar das dificuldades", conclui o administrador.

 

Acreditamos que o sector terá que passar por uma maior auto-regulação e implantação de boas práticas porque o atual instrumento de resolução implica o esforço de todas as instituições de crédito e das sociedades financeiras para impedir um indesejável risco de contágio para a restante economia”, reforça João Queiroz.

É isso também que esperam os contribuintes depois das faturas pesadas que ainda estamos a pagar.

Quando focamos a análise simplesmente em avaliação o setor da banca, tanto em Portugal como na Europa, parece realmente muito interessante. No entanto, só poderemos esperar uma evolução operacional positiva, com melhorias dos níveis de rentabilidade, quando as taxas de juro de maturidades curtas começarem a subir. Esta realidade só será observada com um aumento dos níveis de inflação na Europa e/ou uma postura menos acomodatícia por parte dos bancos centrais, nomeadamente do BCE", acrescenta Nuno Marques da IM Gestão de Ativos,

O Montepio deu nas vistas em bolsa numa altura em que o Banco de Portugal determinou a transformação da CEMG em sociedade anónima. Nesse processo, o fundo de participação do Montepio será extinto, e as unidades de participação são  convertidas em ações que representarão o capital do banco.  Cada unidade de participação deverá dará lugar a uma ação.

Acresce que o banco anda também à procura de um acionista de peso e o Govern vê com bons olhos que seja a Santa Casa da Misericórdia.