A agência de notação financeira Moody's baixou a classificação da dívida da China a longo prazo. Antecipa que a saúde financeira da segunda economia mundial se ressinta nos próximos anos, ao mesmo tempo que a  dívida aumenta. A reação negativa nos mercados com este revés na posição chinesa já se está a fazer sentir.

Em comunicado, a Moody's deu conta da redução da nota atribuída à dívida pública da China de "Aa3" para "A1" (de grau de investimento alto, para grau de investimento médio alto). O outlook, perspetiva para o que aí vem nos próximos anos, passou de estável para negativo, o que também não é um bom sinal. 

Esta agência sinaliza que a importância que Pequim atribui à manutenção de um forte crescimento económico se traduza em maiores estímulos, o que contribuirá para o aumento da dívida.

De notar que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chinês desacelerou nos últimos anos de um pico de 10,6% em 2010 para 6,7% em 2016. "Esta desaceleração reflecte em grande medida um ajustamento estrutural que esperamos que continue. Olhando para o futuro, esperamos que o potencial de crescimento da China caia para perto de 5% nos próximos cinco anos", antecipa a Moody's. Por três razões:

Em primeiro lugar, a formação de capital vai perder ritmo, uma vez que o investimento representa uma parte decrescente das despesas totais. Em segundo lugar, a queda da população em idade ativa, que começou em 2014, vai acelerar. Em terceiro lugar, não esperamos uma reversão no abrandamento da produtividade ocorrido nos últimos anos, apesar do investimento adicional e das competências mais elevadas".

Depois, a agência de notação financeira prevê que a dívida do Estado, das famílias e empresas não financeiras continuará a subir, mais ainda do que os 256% do PIB registados no final do ano passado (segundo o Instituto de Finanças Internacionais). 

"Isto é consistente com a abordagem gradual de desalavancagem que está a ser tomada pelas autoridades chinesas e ocorrerá porque a atividade económica é em grande parte financiada pela dívida, na ausência de um mercado de ações considerável e excedentes suficientemente grandes nos setores empresarial e governamental", destaca. Daí esperar que "a dívida direta e indireta do Estado e de toda a economia continue a subir, sinalizando uma erosão do perfil de crédito da China, que é melhor refletido agora na classificação A1".

Embora reconheça que há um "compromisso claro das autoridades com reformas" destinadas a sustentar e melhorar a qualidade do crescimento a longo prazo, bem como a reduzir os riscos para a economia e para o sistema financeiro, isso pode não bastar. 

Não pensamos que o esforço de reformas terá um impacto suficiente, suficientemente rápido, para conter a erosão da força de crédito associada à combinação de aumento do endividamento de toda a economia e do crescimento mais lento. Em particular, as principais medidas introduzidas até à data terão, no nosso entender, um impacto limitado na produtividade e na eficiência com que o capital será alocado no futuro previsível".

As autoridades chinesas já criticaram a decisão da Moody's. Argumentam que utilizou um "sistema inapropriado" para analisar a situação do país.

Em comunicado, o Ministério das Finanças chinês assegurou que o endividamento do Governo central vai crescer a um "ritmo adequado" e disse estar confiante de que a crescente dívida dos governos locais e empresas estatais não se acrescentará à dívida soberana.

Efeito nos mercados

As ações chinesas caíram e o dólar australiano estão a derrapar, pelos receios do impacto global de um crescimento mais lento e aumento da dívida nesta que é, não é demais frisá-lo, a maior economia asiática.

Noutros locais da Ásia, os títulos também desceram, com o índice MSCI mais alargado de ações da Ásia a Pacífico, excepto o Japão, a cair 0,3%, apesar dos ganhos modestos em Wall Street durante a noite.

Pela Europa, o sentimento é misto a esta hora: Milão, Paris, Lisboa e Madrid estão com quedas ligeiras. Já Londres está a subir também ligeiramente.