Os documentos entregues por Joe Berardo à CMVM sobre as alegadas irregularidades cometidas no BCP não foram decisivos para a abertura do processo de contraordenação que visa nove responsáveis, além do próprio banco, disse um ex-diretor do supervisor citado pela Lusa.

«O que o comendador Berardo tinha na denúncia estava a anos-luz do que a CMVM já tinha e veio a ter», afirmou em tribunal José Fazenda Martins, que liderava o departamento de supervisão da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) à data dos acontecimentos que estão em julgamento.

Segundo a mesma fonte, que foi chamada a depor pelos advogados de defesa dos antigos gestores do BCP, entre os quais o fundador do banco, Jardim Gonçalves, no âmbito do recurso das condenações individuais aplicadas pelo supervisor depois de estalar o designado «caso BCP», a denúncia feita por Berardo «tinha meia dúzia de papéis sem o quadro global do que se passava».

Fazenda Martins considerou mesmo tratar-se de uma «denúncia fragmentária», garantindo que a CMVM arrancou com a investigação por causa das notícias que na altura foram sendo divulgadas pela comunicação social e recordando que também houve uma «denúncia do BPI».

Os especialistas do supervisor começaram então a juntar uma série de documentos, relativos aos créditos concedidos a várias offshore para a compra de títulos do banco, contou o responsável, admitindo que «havia várias dúvidas» sobre estas operações.

«Após a recolha dos documentos, foi necessário perceber a história. Como é que as offshore surgiram e por ordem de quem», afirmou, explicando que para tal «foi necessário ouvir uma série de pessoas», mais ligadas à área internacional ou cujos nomes figuravam nos documentos em análise.

«Nós andávamos um pouco às apalpadelas. A nossa preocupação era construir um caso a partir dos documentos», admitiu, considerando que este «é um caso de supervisão atípico» porque «não havia um plano» pré-definido.

De acordo com o responsável, «era preciso provar que o banco é que era o detentor das ações e saber se havia prejuízos escondidos [nas contas apresentadas ao mercado pelo banco], e desde quando».

Fazenda Martins foi um dos três diretores da CMVM que participou na instrução do processo.
Redação