É a primeira vez que acontece desde que foi criada a moeda única: no primeiro semestre deste ano, particulares e empresas pouparam mais do que investiram.

De acordo com dados do Relatório de Estabilidade Financeira do Banco de Portugal (BdP), o conjunto destes dois setores apresentou «uma situação em que a poupança é superior ao investimento (situação de capacidade de financiamento), o que acontece pela primeira vez desde o início da área do euro».

No período em análise, os bancos nacionais continuaram a desalavancagem gradual dos balanços, baseada numa diminuição do crédito concedido e na resiliência dos depósitos de particulares, explica o banco central, acrescentando que, a rendibilidade do sistema bancário se deteriorou face ao primeiro semestre de 2011, refletindo o aumento das provisões e imparidades associadas à carteira de crédito a clientes e a evolução da margem financeira.

«A redução do rendimento por via do aumento do desemprego, da diminuição dos salários e do aumento da carga fiscal tem-se refletido no aumento da materialização do risco de crédito dos particulares, mais acentuada no segmento de crédito para consumo e outros fins e relativamente mitigada no crédito para aquisição de habitação», explica.

No entanto, o crédito à habitação pode vir a ser também um problema para a banca. «A redução dos preços no mercado imobiliário, decorrente do abrandamento da procura, poderá implicar algum risco de perdas para as instituições de crédito nos casos em que se verifique incumprimento que culmine em dação em pagamento ou execução de hipoteca, apesar de não se ter assistido a uma sobrevalorização dos preços neste mercado no período anterior à crise», alerta o regulador.

O risco do setor imobiliário afeta também a banca através das empresas. O BdP sublinha «a fraca capacidade de financiamento» das empresas, quer por via interna, ao terem sido penalizadas pela contração da procura interna, quer por financiamento bancário, cujas condições estão mais restritivas. As mais afetadas por essa restritividade são «as empresas de menor dimensão, mais opacas e menos rentáveis, e para os setores de atividade mais dependentes da evolução da procura interna. Estes são também os segmentos que mais têm contribuído para a materialização do risco de crédito».

Por isso mesmo, e dada «a elevada exposição, direta e indireta, dos bancos aos setores da construção e promoção imobiliária», conjugada com a «forte deterioração da situação financeira das empresas destes setores», o Banco de Portugal está a realizar uma inspeção transversal à qualidade do crédito concedido a estes setores.

Em termos futuros, o BdP prevê que o ajustamento em curso da economia portuguesa tenderá a persistir, com implicações diretas sobre a materialização do risco de crédito. «O incumprimento dos particulares e, principalmente, das empresas deverá assim continuar a aumentar nos próximos trimestres», avisa.

No entanto, «é importante assegurar que este processo seja consistente com a reestruturação em curso da economia portuguesa e que não adie a dinâmica de recuperação económica a médio prazo. Neste contexto, a situação financeira do setor empresarial e dos particulares continuará a ser acompanhada no sentido de identificar possíveis medidas que atenuem os efeitos do elevado endividamento destes setores na sua capacidade de financiamento e no seu grau de incumprimento junto do sistema bancário».