«O Governo fez o que devia fazer para defender os interesses estratégicos de Portugal e da Portugal Telecom (PT)». É assim que José Sócrates inicia um pequeno artigo de opinião publicado esta quinta-feira no jornal «Público».

Depois do uso polémico da «golden-share» para vetar o negócio da Telefónica, que continua a insistir na compra da Vivo, o primeiro-ministro justifica no «Público» a opção do Governo: «A PT é uma empresa muito importante para o País. E a participação da PT na Vivo é um activo estratégico de sucesso no mercado brasileiro - é mesmo a empresa de telecomunicações nº 1 no Brasil. Sucede que a internacionalização da PT e a sua presença no Brasil é absolutamente fundamental para a economia portuguesa».

Por isso, Sócrates diz comprender «muito bem o interesse dos espanhóis da Telefónica em comprar uma empresa tão boa como a Vivo, tal como compreendo os interesses financeiros dos accionistas da PT em obterem ganhos de curto prazo».

Mas, frisa o chefe do Governo, «ao Estado Português não compete defender os interesses das empresas espanholas, nem interesses financeiros de curto prazo - mas sim os interesses estratégicos do País. E a verdade é que esta proposta não convenceu o Estado, não convenceu o Governo».

E por isso, garante: «Ninguém atropelou os direitos legítimos e até compreensivos de outros accionistas. O Estado limitou-se a não permitir que os seus interesses fossem desconsiderados e ignorados e afirmou-os no quadro dos estatutos da empresa que sempre foram reconhecidos por todos os accionistas».

«Ora o Governo - pelo menos este Governo - não abdica de nenhum instrumento disponível para defender os interesses estratégicos de Portugal. Se alguém não sabia disso, agora ficou a saber».

«Telefónica falhou ao não ter em consideração a posição do Governo português»

Já em entrevista ao «Financial Times», o primeiro-ministro vai mais longe e fala da Telefónica em tom de crítica: «A Telefónica estava enganada se acreditava que podia seguir com a oferta sem ter em consideração os interesses estratégicos expressados claramente pelo Governo português».

Admitindo que a golden share não é para usar a qualquer hora, José Sócrates lembra que «foi a primeira vez que usámos e fizemo-lo porque a Telefónica falhou em ter em consideração a posição do Governo português».

Para as repetidas críticas de Bruxelas, o primeiro-ministro também tem resposta: os direitos especiais nas empresas de telecomunicações são, para o chefe do executivo, «um bom instrumento regulatório», bom para limitar «a liberalização total da economia».

Opinião diferente tem o próprio «Financial Times». Depois de ontem escrever que a «estupidez colonial não morreu» em Portugal, escreve novamente esta quinta-feira que «o governo português usou a sua golden share anacrónica e em breve obsoleta para vetar a tentativa de compra da Telefónica».

Na coluna LEX, na última página do jornal, onde todos os dias são analisados temas da actualidade, o jornal aponta possíveis razões para a atitude do Governo: «ou pensa que o negócio seria mau para a PT, ou houve uma zanga nos bastidores ou porque quer manter um campeão português no Brasil».

«Todas estas parecem péssimas razões para lançar confusão num negócio e deitar fora a própria credibilidade», pode ler-se na coluna. O jornal dá ainda razão aos accionistas que estão zangados com o governo português.

[Notícia actualizada às 15:11h com declarações do primeiro-ministro ao «Financial Times»]
Redação