Com a aprovação garantida pelos partidos que suportam a solução governativa, o primeiro dia de debate sobre o Orçamento do Estado centrou-se na troca de acusações entre esquerda e direita sobre o presente, mas também com regressos ao passado e profecias à mistura. Com o resultado final conhecido de antemão, alguns deputados mostraram alguma descontração, como a deputada Isabel Moreira, do PS, que foi "apanhada pela Reuters" a pintar as unhas.

O último debate sobre o Orçamento do Estado trouxe de volta o diabo anunciado por Passos Coelho, no início da legislatura. O deputado do PS João Paulo Correia considerou que o discurso do PSD se baseia na "vinda do diabo, parte dois" . A ideia foi partilhada por Mariana Mortágua, mas a deputada do Bloco de Esquerda acredita que "o discurso do diabo já morreu".

O discurso do susto, do papão, do diabo, morreu", respondeu Mariana Mortágua ao PSD.

Da bancada social-democrata, Adão Silva relembrou orçamentos passados dos governos socialistas. O deputado acredita que o PS é "useiro e vezeiro a prometer tudo" e lamenta o que aconteceu nos orçamentos de 1999, com António Guterres, e 2009, com José Sócrates. Adão Silva acredita que o PS continua com regra de "chapa ganha, chapa gasta". 

 Todos à canelada, às vezes às claras, às vezes por baixo da mesa.Todos a pensarem sobretudo nos seus proveitos eleitorais", afirmou o deputado do PSD.

A resposta foi dada pelo ex-secretário de Estado Fernando Rocha Andrade que afirmou que "com a direita não era chapa ganha, nem chapa gasta; era chapa não ganha, chapa gasta, chapa emprestada".

O PSD voltou à carga com a adaptação de um sketch dos Gato Fedorento. O "falam, falam, mas não os vejo a fazer nada" foi substituído por um "falam, falam, mas as cativações é com eles". A expressão foi usada por Leitão Amaro como crítica ao aumento das cativações no próximo ano. 

É um orçamento pastilha elástica, para usar, gastar e deitar fora", acrescentou Hugo Soares, deputado do PSD.

O ex-líder da bancada social-democrata afirmou, ainda, que a proposta entregue pelo Governo na Assembleia da República é efémera porque "não estimula a poupança ou a riqueza". 

Para contra-atacar as sucessivas investidas do PSD, Mário Centeno socorreu-se de uma rábula.

Temos uma nova versão daquela rábula que a Ivone Silva fazia tão bem, da Olívia costureira e da Olívia patroa. Temos o PSD que quer gastar e temos o PSD que não quer gastar. O PSD que tem uma lista longuíssima para a despesa e o PSD que quer reduzir impostos. Mas todos, tal como as Olívias, queriam que o défice fosse mais baixo. Temos um mês pela frente para os senhores explicarem como é que essa alquimia se faz, e no final deste processo, ter uma análise mais clara das intenções dos senhores. Das perguntas que me fizeram hoje não consegui tirar nenhuma conclusão", defendeu-se o ministro das Finanças.

Com o aproximar da hora de jantar, os deputados trocaram os ditos populares por referências alimentares. Carlos Silva, da bancada social democrata, teceu duras críticas ao Bloco de Esquerda, partido que diz "ter vendido as convicções por migalhas do poder".

O Bloco de Esquerda foi comprado por um prato de lentilhas", afirmou Carlos Silva.

Para terminar, Cristóvão Crespo, deputado do PSD, revelou que existe na Assembleia da República "uma sala das bolachas", referindo-se às reuniões entre PS, BE, PCP e PEV.