As vendas globais de moda terão diminuído entre 15 a 30% no ano passado, em comparação com 2019, segundo um relatório esta quarta-feira divulgado, que prevê que o setor regresse a uma trajetória ascendente nunca antes do final de 2022.

O relatório “The State of Fashion 2021” (“O Estado da Moda 2021”, em português), realizado pela empresa de meios de comunicação Business of Fashion (BoF) e pela consultora McKinsey & Company e divulgado hoje na conferência anual da BoF, estima que “as vendas globais de moda diminuam 15 a 30% em 2020, em comparação com 2019”, embora o “impacto na indústria seja desigual”.

Com base em entrevistas com os principais empresários do setor e num inquérito a mais de 320 profissionais da moda, o relatório estima que a indústria registe uma quebra de 93% nos lucros em 2020, depois de um aumento de 4% em 20219.

Quanto à recuperação, o relatório traça dois cenários: um precoce e outro lento.

O cenário de recuperação precoce da indústria da moda “pressupõe a contenção efetiva do vírus através da vacinação e/ou da intervenção estatal, levando ao levantamento das restrições, à mobilidade e às viagens num par de meses, permitindo uma recuperação económica mais rápida, com o regresso das vendas globais de moda aos níveis de 2019 no terceiro trimestre de 2022”.

Já o cenário de recuperação lenta “prevê um ressurgimento periódico do vírus em diferentes regiões do mundo, levando a novos encerramentos e restrições, voltando as vendas globais de moda aos níveis de 2019 apenas no último trimestre de 2023”.

Em termos geográficos, o relatório prevê que “a Europa seja a região mais afetada, registando uma diminuição entre 22 e 35% nas vendas” em 2020. No entanto, há uma expectativa que setor comece a recuperar, no continente europeu, no segundo trimestre de 2022, “à medida que as viagens regressem e que as restrições de mobilidade sejam levantadas”.

Já nos Estados Unidos da América deverá registar-se “uma quebra entre os 17 e os 32% nas vendas”, sendo a expectativa de “uma recuperação lenta” atirada para o primeiro trimestre de 2023.

A China deverá ser “a região menos afetada, dado que as vendas cairão entre os sete e os 20%”. “As vendas de moda na China deverão regressar aos níveis pré-crise já no quarto trimestre de 2020 ou, o mais tardar, no primeiro e segundo trimestres de 2021”, antevê o relatório.

Embora a indústria da moda tenha em 2020 o “pior ano de sempre, com quase três quartos das empresas cotadas em bolsa a perder dinheiro”, as vendas de moda ‘online’ “quase duplicaram, de 16 para 29%, as receitas totais” do setor.

Em apenas oito meses de 2020, a taxa de penetração das vendas digitais verificou um aumento equivalente a seis anos de crescimento”, refere o relatório, acrescentando que a maioria dos empresários do setor (71%) espera que “o respetivo negócio digital cresça 20% ou mais em 2021”.

O relatório aponta dez tendências “que darão forma à indústria da moda em 2021, considerando o impacto da pandemia da covid-19”, entre as quais “viver com o vírus”, “‘sprint’ digital’”, “menos é mais” e “revolução do trabalho”.

Quase metade dos empresários de moda e dos inquiridos para a realização do relatório consideram que “a covid-19 continua a ser o principal desafio em 2021”.

Por isso, “para continuar a gerir esta incerteza, sem precedentes, no próximo ano, as empresas devem reorganizar os respetivos modelos operacionais para permitir uma maior flexibilidade e uma tomada de decisão mais rápida, acelerando também a inovação”.

Cerca de 40% dos empresários planeia passar a planear as coleções sem estação associada, juntando-se assim a várias marcas e designers que já o têm feito. A esse propósito, o relatório salienta que “depois de demonstrar que mais produtos e coleções não produzem necessariamente melhores resultados financeiros, a covid-19 salientou a necessidade de uma mudança na mentalidade da rendibilidade”.

As empresas devem reduzir a complexidade e encontrar formas de aumentar as vendas a preço integral para reduzir os níveis de stock, adotando uma abordagem orientada à procura na respetiva estratégia de aprovisionamento, impulsionando também a flexibilidade sazonal, tanto para novos produtos quanto para a reposição”, lê-se no documento.

Além disso, tendo em conta as alterações na forma como as empresas têm trabalho desde que surgiu a pandemia da covid-19, “é provável que surja um novo modelo de trabalho”. A este propósito, “88% dos empresários de moda esperam que um modelo híbrido de trabalho faça parte do novo normal”.

O relatório “The State of Fashion”, que vai na 5.ª edição, dedica-se à análise do futuro da indústria da moda, setor avaliado em 2,5 mil milhões de dólares à escala global.

A pandemia de covid-19 provocou, pelo menos, 2.947.319 mortos no mundo, resultantes de mais de 136,5 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de 2019, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

/ CE